The Project Gutenberg EBook of O Olho de Vidro, by Camilo Castelo Branco

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Title: O Olho de Vidro

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: July 22, 2008 [EBook #26110]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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OBRAS

DE

CAMILLO CASTELLO BRANCO

EDIO POPULAR

XXIII

O OLHO DE VIDRO

TYPOGRAPHIA
DA PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA

--RUA AUGUSTA, 44, 46 E 48--

LISBOA

OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO

Edio popular das suas principaes obras em 80 volumes in-8., de 200 a 300
paginas Impressa em bom papel, typo elzevir

250 ris em brochura e 400 ris encadernado

1--Coisas espantosas.

2--As tres irmans.

3--A engeitada.

4--Doze casamentos felizes.

5--O esqueleto.

6--O bem e o mal.

7--O senhor do Pao de Nines.

8--Anathema.

9--A mulher fatal.

10--Cavar em ruinas.

11 e 12--Correspondencia epistolar.

13--Divindade de Jesus.

14--A doida do Candal.

15--Duas horas de leitura.

16--Fanny.

17, 18 e 19--Novellas do Minho.

20 e 21--Horas de paz.

22--Agulha em palheiro.

23--O olho de vidro.

24--Annos de prosa.

25--Os brilhantes do brasileiro.

26--A bruxa do Monte-Cordova.

27--Carlota Angela.

28--Quatro horas innocentes.

29--As virtudes antigas.

30--A filha do Doutor Negro.

31--Estrellas propicias.

32--A filha do regicida.

33 e 34--O demonio do ouro.

35--O regicida.

36--A filha do arcediago.

37--A neta do arcediago.

38--Delictos da mocidade.

39--Onde est a felicidade?

40--Um homem de brios.

41--Memorias de Guilherme do Amaral.

42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa.

45 e 46--Livro negro do padre Dinis.

47 e 48--O judeu.

49--Duas pocas da vida.

50--Estrellas funestas.

51--Lagrimas abenoadas.

52--Lucta de gigantes.

53 e 54--Memorias do carcere.

55--Mysterios de Fafe.

56--Corao, cabea e estomago.

57--O que fazem mulheres.

58--O retrato de Ricardina.

59--O sangue.

60--O santo da montanha.

61--Vingana.

62--Vinte horas de liteira.

63--A queda d'um anjo.

64--Scenas da Foz.

65--Scenas contemporaneas.

66--O romance d'um rapaz pobre.

67--Aventuras de Bazilio Fernandes Enxertado.

68--Noites de Lamego.

69--Scenas innocentes da comedia humana.

70 e 71--Os Martyres.

72--Um livro.

73--A Sereia.

74--Esboos de apreciaes litterarias.

75--Cousas leves e pesadas.

76--THEATRO: I--Agostinho de Ceuta.--O marquez de Torres-Novas.

77--THEATRO: II--Poesia ou dinheiro?--Justia.--Espinhos e
flres.--Purgatorio e Paraizo.

78--THEATRO: III--O Morgado de Fafe em Lisboa.--O Morgado de Fafe
amoroso.--O ultimo acto.--Abenoadas lagrimas!

79--THEATRO: IV--O condemnado.--Como os anjos se vingam.--Entre a flauta
e a viola.

80--THEATRO: V--O Lobis-Homem.--A Morgadinha de Val-d'Amores.




_CAMILLO CASTELLO BRANCO_


O OLHO DE VIDRO

ROMANCE HISTORICO


4. edio, conforme a 1., unica revista pelo auctor


1918

PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA

LIVRARIA EDITORA

_Rua Augusta, 44 a 54_

LISBOA


O OLHO DE VIDRO


Nota das edies que tem tido este romance at  presente

1. edio--Lisboa--1866--Livraria de Campos Junior--1 vol. in-8. de 199
pags.

2. edio--Lisboa--(Sem data)--( a 1. edio com a reimpresso da
1. folha.)

3. edio--Lisboa--1904--Vol. 23. da nossa Colleco, da qual se fez uma
tiragem especial de 100 exemplares em papel de linho nacional para
bibliophilos.

4. edio--Lisboa--1917--que  a presente.




PROLOGO

(DA 1. EDIO)


O eminente bibliographo e meu prezado amigo Innocencio Francisco da Silva,
historiando em breves linhas a vida quasi obscura de Braz Luiz d'Abreu,
conclue com estas palavras: _Se algum dos nossos romancistas actuaes se
resolvesse a tratar o assumpto, affigura-se-me que a vida d'este nosso
medico, com os curiosissimos incidentes que ficam apontados, lhe dariam
sobeja materia para a fabrica de uma composio, onde mediante a lio dos
escriptos, que nos restam de Braz Luiz, poderiam fundir-se habilmente
especies mui interessantes para d'ahi resultar obra de cunho
verdadeiramente nacional_.

Os termos em que o convite  feito animam e ao mesmo tempo assustam.
Comecei temerariamente a composio d'este romance: mo foi principial-o,
que eu sou to pouco cioso de aprimorar escriptos d'esta ordem, que no me
frro ao perigo de concluil-os e imprimil-os, ainda quando me desagradam.

No direi o que penso d'este: assevero, porm, que no est de certo
realisada a esperana do meu amigo Innocencio Francisco da Silva. Se a
biographia do author do _Portugal-medico_  mina para locupletar
romancistas, vo l todos, que eu no toquei nos veios mais ricos.

Porto, 3 de maro de 1866.

                                                _Camillo Castello Branco._




INTRODUCO


Francisco Luiz d'Abreu, estudante do segundo anno medico na universidade de
Coimbra, estava, por volta das onze horas da noite de 28 de janeiro de
1692, estudando, no seu _Vila Corta_, as theorias de Galeno cerca das
purgas--_de purgatione_.--Embebecido e pasmado nas virtudes drasticas dos
olhos de caranguejo, apenas tinha um todo-nada de espanto para celebrar os
no menos miraculosos effeitos da pelle de cobra, quando, to a deshoras,
duas aldrabadas na porta o roubaram ao seu enlevo. Francisco encapuzou-se
no gabo, e abriu as portadas da janella que dava sobre o _Becco das
Flores_, becco assim denominado por antiphrase, figura de rethorica
tolerantissima que permitte denominar-se flores o adubo de que ellas tiram
a seiva putrida, mais tarde evaporada em aromas.

--Quem --perguntou o estudante, apertando as azas nasaes, com ingrato
despreso das boninas da sua rua.--Quem  o vadio?

--Sou eu!--respondeu quem quer que era, abrindo pequeno respiraculo por
sobre o ferragoulo, que lhe envolvia todo rosto.

--Tu!...--exclamou Abreu com alvoroo.--Vou abrir! Pois s tu?!

Algum motivo mysterioso tinha o academico para descer s escuras a
precipitosa escada, contando as escaleiras e raspando com o p cauteloso
sobre cada degrau. Aberta a porta recebeu nos braos com ardente vehemencia
o interruptor de seus estudos, e to alheado ficou das suas consideraes
therapeuticas sobre a pelle de cobra, que nem j os olhos de caranguejo lhe
lembravam.

--Tu aqui, Antonio de S!--tornou Francisco.--Eu fazia-te na India!...
Sobe, meu desventurado rapaz, que no ha ainda duas horas que os teus
condiscipulos te lamentaram, especialmente Jos de Barredo se arrepellava
por ter sido teu confidente n'esses funestissimos amores que te perderam...

--Com razo!...--murmurou o outro--com razo me lamentaste, que eu sou
desgraado, quanto pde sel-o n'este mundo um rapaz de vinte annos.

--E que magro ests!... atalhou Francisco Luiz, achegando-lhe do rosto a
candeia de lata, que despregou do velador.--Como ests acabado!...

--Se te parece!... um anno quasi sem ar, nem sol; passado de terrores...
Como no queres que eu esteja pallido e descarnado?! So assim todos os
rostos que se lavam com lagrimas...

--Pobre Antonio!...--atalhou o outro muito consternado--Se, ao menos,
tivesses fugido de Portugal, como ns suppunhamos, terias co e ar...
Senta-te, homem!... Queres tu comer?

--Quero.

--Ainda bem! A desgraa no te quebrantou o antigo estomago... Aqui tens
queijos, figos e bolos de Santa Clara... Olha que ainda duram os amores da
freira... Aqui tens o corao da freira n'estas trouxas d'ovos. Carne no
na ha, e no sei onde v procural-a a esta hora... Queres tu uma srda?
Essa fao-t'a eu: esto alli os alhos; e,  mingoa de azeite, cosinha-se
com o da candeia, e depois conversaremos s escuras.

--Isto basta para quem anda faminto de bons bocados--disse Antonio, com
desusado atticismo, devorando o queijo e os figos, e as trouxas allegoricas
do corao da franciscana, no j como desgraadissimo entre os homens, mas
certamente como de entre os estudantes o mais faminto.

O hospedeiro academico enfreou sua curiosidade emquanto o amigo no pde
dispor da lingua, empenhada na soffrega lida da deglutio. No entretanto,
andava elle rebuscando na gaveta alguma vitualha, como se em gaveta de
estudante alguma vez se operasse o milagre de que alguns raros anachoretas
se gosaram na Palestina, quando os anjos do co lhes cosinhavam os
fricasss.

--Que andas tu procurando?--perguntou Antonio de S Mouro.

--Um boi que te mate essa fome! Hei medo que me devores, rapaz.

--Nem manjar branco me ds que j me c no cabe. Estou alimentado para
tres dias, se fr necessario. Queres agora a minha historia de treze mezes?
Deita-te ahi na tua cama; escuta e adormece quando quizeres. Que sabes tu
da minha vida?

--Sei o que todos sabem: que fugiste de Bragana com uma moa, filha unica
de pae rico e feroz, que te fez procurar aqui em Coimbra, e me quiz metter
no aljube para lhe dar conta de ti, allegando que eu devia forosamente ser
teu confidente, por que sou christo novo como tu.

--No sabia--interrompeu Antonio--que os meus infortunios implicaram
comtigo...

--Mais do que eu te sei dizer... Os trabalhos, que me ameaavam,
affligiam-me muitissimo menos que a ida da inexoravel perseguio que te
fariam por toda a parte. Esperava eu, a cada hora, a noticia da tua priso,
com todas as probabilidades de que morrerias na forca, se no morresses na
fogueira. Ninguem dava novas tuas, que no fossem horrorosas. Uns diziam
que tinhas sido morto a tiro; diziam outros que te havias suicidado. Ao
cabo de seis mezes, espalhou-se a boa nova de que tinhas embarcado para a
India, favorecido por teus parentes ricos de Lisboa, e tambem corria que a
moa te acompanhra vestida de rapaz. Ora, como nunca mais se fallou de ti,
acreditmos que estavas salvo... Como te vejo aqui, Antonio?! Que  isto?!
Onde tens estado? Como pudeste fugir  justia, se no foi n'algum
subterraneo?

--Eu te conto, respondeu Antonio. Aquella temporada de ferias que fui
passar com meus tios em Bragana foi a morte da mocidade, das esperanas, e
de tudo em que eu fundamentra a felicidade das minhas modestas ambies. O
prazer exclusivo da minha vida tinha sido o estudo, a gloria da sciencia,
desvanecimento louco de poder ainda, mediante a sciencia, avisinhar-me do
throno, como os antigos da nao[1] e desopprimir nossos irmos, quanto
coubesse na alada do juizo, e no prestigio que a posio de medico do rei
me dsse. Era um sonho talvez desatinado; mas o despertar-me d'elle foi
atroz!... Amei aquella mulher; referi-te o nascer d'aquelle funesto amor.
Sabes que os teus conselhos e vaticinios, ainda mal que realisados, no
poderam reduzir-me ao dever,  honra, e propriamente ao discreto egoismo,
que tantas vezes nos arreda de abysmos cavados pela excessiva
sensibilidade. O peior, meu amigo, j no era vencer-me eu; era vencer a
compaixo que me fazia a pobre menina, cujas alegrias dos dezoito annos eu
fra converter em amargura de toda a vida.

--Combati essa opinio--interrompeu Francisco Luiz--por cuidar que era
grande parte n'ella a tua vaidade, a vaidade do homem que se julga
necessario  vida da mulher...

-- verdade; combateste a insensata opinio; mas... no sei se cedo se
tarde o fizeste; o certo  que as tuas razes me pareceram sophisticas e
glaciaes. Vi em ti o philosopho que sempre foste; e em mim vi o homem
duplicado em sua existencia pelo amor, os dois homens que se combatem e
forcejam por despedaar-se, at que um triumpha, e... fica senhor das
runas do corao... J agora no discutamos como medicos em volta de um
cadaver. Saibamos que est morto o homem, e ouve tu singelamente a historia
das delirantes febres que o acabaram.

De antemo sabia eu j que a filha de Ferno Cabral me seria negada e que
os lacaios do christianissimo fidalgo, por ordem de seu senhor, me
ameaariam com os seus tagantes.

Isto no embargou que eu timidamente me fosse apresentar ao nobre morgado
de Carrazedo, e lhe pedisse a filha. Ferno ouviu-me em p, e respondeu-me
n'estes termos: Olhe para estes retratos--e apontou para uma duzia de
figuras pendentes das paredes--olhe para estes retratos, e veja se ahi
est algum com a estrella vermelha das seis pontas cosida sobre a garnacha
ou sobre o arnez[2] dito isto apontou-me a porta da escada.

No sei se odio, se lagrimas, se tudo a um tempo, me enchia o corao! J
ento no tive animo para te escrever!

Ha desgraas tamanhas que um homem parece envergonhar-se de contal-as aos
seus amigos mais do intimo d'alma. Fechei-me com o segredo da minha
ignominia. Deixei Bragana e fui para a Guarda, resolvido a entregar-me
inertemente ao devorar silencioso da minha saudade.

Fugi dos carinhos da familia, e ferrolhei-me n'uma casa agreste e erma na
quebrada da Serra da Estrella. A desesperao alli foi-me consoladora, por
que a morte era inevitavel n'aquelle desamparo.

Nem ainda ento pude escrever-te, meu amigo! Assim que tentava fazel-o, no
sei exprimir que desalento me esvaa a cabea. Que vale queixar-me?! dizia
eu entre mim--O que Deus no d no m'o podem dar amigos. Deixal-os gosar,
deixal-os ignorar estas obscuras angustias.

Uma noite, faz agora onze mezes, estava eu passeiando nos quasi pardieiros
da minha vivenda, quando ouvi tropel de cavalgaduras no barrocal que descia
da serra ao alpestre casalejo de meus avs, os quaes alli se tinham
homisiado no tempo das grandes perseguies do rei D. Manuel. Accudi 
janella e ouvi uma voz de homem dizer:  aqui. No sei que outras
palavras se disseram: eram a voz d'ella: era Maria.

Quando dei tento de mim, e cobrei conhecimento da minha situao, tinha,
nos braos a filha de Ferno Cabral, e  beira d'ella vi uma criada sua,
que nos fra medianeira, e um criado da casa de meu pae.

Contou Maria, a intercadencias anciadas, que fugira de Bragana, logo que o
pae se ausentou por alguns dias, no proposito de negociar o casamento
d'ella com um fidalgo de Vizeu. Como no tinha me, e costumava passar
muitas horas reclusa no seu quarto, os domesticos no deram logo conta da
fuga, nem a suspeitariam to cedo, se a sua aia no faltasse tambem. Fugiu
caminho da Guarda, e procurou-me alta noite, em casa de meus paes, que
tentaram restituil-a  casa paterna, temerosos dos resultados. Como ella,
porm, os assustasse ainda mais com o proposito de se matar,
encaminharam-na ao meu deserto, com todo o segredo.

Imagina tu que hospedagem daria eu  filha do gentil-homem, alli,
n'aquellas ruinas, onde todas as alfaias eram um catre de bancos, uma arca,
dois tamboretes de po, e alguma loia vermelha do uso dos caseiros, pobre
gente de nossa raa, que para alli ficra grangeando e usofruindo as
pouquinhas e inferteis terras!... A Maria e  sua criada grave dei o meu
leito; e com o meu criado me fui ao palheiro, e me agazalhei nas mantas que
os caseiros nos emprestaram.

De madrugada, chegou meu pae a indagar do meu destino, e a dar-me alguns
recursos para fugirmos at onde passassemos insuspeitos. O velho chorava, e
eu, digo-t'o com pejo, queria que elle se alegrasse de me ver feliz!

Deferi a minha saida para o dia seguinte, sem saber que rumo tomasse. Meu
pae mandava-me fugir por Hespanha e embarcar para Hollanda. Maria,
esperanada na commiserao do pae e na proteco dos seus santos
advogados, queria que eu e ella fossemos ajoelhar aos ps d'elle. Por mais
que m'o dissesse em tom de anjo quando revela os decretos do co, no pude
sequer imaginar possivel o perdo do soberbo fidalgo.

Saimos para Celorico, a quatro leguas de distancia. N'uma aldeia dos
arrabaldes, moravam irmos do meu caseiro, grangeando um casal. Alli
deliberei repousar alguns dias, porque Maria j to sem foras ia da
jornada por serras n'um dia de rigoroso inverno, que mal podia ter-se nas
andilhas. Desde aqui avisei meu pae, pedindo-lhe novas do que soubesse.
Respondeu-me que, horas antes, tinha sido cercada nossa casa, e que elle,
com todos os nossos, estavam arriscados a ser presos.

E foram, no dia seguinte, presos e fechados em masmorras.

As immediatas noticias que tive foram cruelissimas. Todos os nossos bens
tinham sido inventariados como para entrarem no sequestro feito a bens de
judeus. Eu no devia j esperar recursos alguns de minha casa, e o dinheiro
que eu possuia pouquissimo era para me transportar para fra do reino.
Sobrepe tu, Francisco, a estes lances, o medo da priso, e escutar a cada
instante nos menores rumores o estrepito dos quadrilheiros! E, se estes so
poucos supplicios para conceberes muito em sombra a minha vida, ajunta a
isto uma cama de enxerga n'um quarto de vigamento por onde a ventania
esfuziava, e sobre essa enxerga a pobre menina a tremer os frios das
seses, e eu de mos postas a contemplal-a assim!

Para que ninguem da aldeia nos visse, os dias para ns eram a continuao
das noites. Aquelles pobrinhos fazendeiros, de portas a dentro, melhoraram
quanto poderam a nossa situao. Eu, por minhas mos, carpintijei o tabique
para aconchegar o nosso quarto; e, com todas as cautellas, consegui que
viessem de longe bragaes e roupas com que tirei  alcova de Maria as
tristezas da indigencia. Melhorou a minha pobre amiga e desenvolveu
espantosa energia na lucta. O sorriso d'ella dava-me alentos; mas no podia
espancar da minha alma a imagem de meu pae, me e irmos encarcerados,
perseguidos pelo rancor vingativo de Ferno Cabral, e mais que muito
sujeitos  extremidade de pagarem com a vida o meu delicto.

Com que traas e trabalhos eu conseguia incertas noticias d'elles! Para mim
era j consolativa a nova de que os no tinham mandado para os carceres da
inquisio de Coimbra. Logo que elles aqui entrassem, perdidos os
considerava eu.

E assim vo decorridos treze mezes, Francisco Luiz! Comprehendes tu que
infernos eu tenho apagado com as minhas lagrimas para poder viver ainda!...
Lagrimas escondidas d'aquella martyr, para que ella, conhecedora do meu
desalento, no desanime!...

--E choras assim, Antonio! Coragem!--exclamou Abreu, tomando contra o seio
o anciadissimo moo.

--Ai! deixa-me chorar, que no o pude ainda fazer tanto s largas. Deixa-me
chorar, que isto  veneno mortal que me se aos olhos!  preciso que
vejamos alma compadecida para sabermos a doura d'este desafogo das
lagrimas!

Passados momentos, Antonio apertou, de golpe e convulsamente, as mos do
condiscipulo, levou-as aos labios, e exclamou soluante:

--Sabes ao que vim?

--Diz, meu querido amigo.

--Venho pedir-te dinheiro para fugir de Portugal.

--Tel-o-has. Minha me j no vive, e eu tenho uma legitima. Conta com
ella.

--Bem hajas! bem hajas, meu Francisco! Mas venho pedir-te mais alguma
coisa.

--Diz.

--Eu tenho um filho de quinze dias. No posso fugir com a creancinha.
Aceitas-m'a no regao da tua caridade? Ficas com o meu filhinho, para m'o
restituir, quando a felicidade me bafejar?

--Ficarei como teu filhinho, Antonio. Dar-lhe-hei o corao que te dou a
ti. Se Deus o no tiver levado, quando voltares, achal-o-has. No lhe direi
o teu nome de pae, sem que tu lh'o possas dar. Ninguem saber que  teu
filho, sem que tu possas dizel-o ao mundo.

-- assim que t'o roga a minha alma attribulada... a ti e a Deus, que me
est fallando no teu corao. Porque no hei de eu ajoelhar a teus ps, se
creio que em ti est o Senhor da compaixo e da misericordia?!

Francisco Luiz de Abreu levantou nos braos o arquejante moo; e, no menos
commovido, ratificou as promessas feitas.

      *      *      *      *      *

s dez horas da noite seguinte, Francisco Luiz e o seu amigo sairam de
Coimbra, cada qual por diversa porta. O bemfeitor foi para Ourem, sua
terra; o judeu da Guarda, por desvios escusos, entrou, decorridas duas
noites de jornada, na abegoaria onde o esperava a me da creancinha, que
bebia um leite aguado de lagrimas.

Dez dias volvidos, por noite alta, entrava no mesmo casalejo Francisco Luiz
de Abreu, com uma ama de leite, e com a sua legitima materna n'um saco de
moedas de ouro.

Contemplou a formosura da peccadora, e a formosura do innocente nos braos
d'ella. Saudou-os, chorando, e tomou a creancinha muito aconchegada do
seio.

--Como se chama o anjinho?--perguntou o academico.

--Tu o dirs--respondeu Antonio.-- teu afilhado.

--Seja Francisco--disse a me.

--Muito desejaria eu baptisal-o, e dar-lhe o meu nome--observou o
academico;--mas tu sabes, Antonio, o resguardo que convm ter comvosco, com
este menino e comigo. O meu parecer  que se esconda quanto ser possa a
influencia que eu hei de ter na creao de teu filho. Melhor  que as
suspeitas do mundo, se ellas vingarem descobrir ligaes d'esta creana
comigo, me julguem a mim, que no a ti, pae d'ella. O meu intento  alugar
uma casinha em Coimbra onde a ama viva com elle. No irei ser padrinho,
para no dar corte  desconfiana de que elle seja meu filho. Assim se ir
creando, at que eu conclua a formatura. N'este meio tempo, querer Deus
que tu voltes a Portugal.

--Voltarei eu?!--exclamou Antonio, apertando no mesmo brao o amigo, o
filho, e a me, que estava lavando com lagrimas o rosto da creancinha,
deitada nos braos do estudante.--Ver-vos-hei eu mais?--balbuciou,
intallado de gemidos. Que futuros melhores posso esperar eu!? Como crs tu
possivel o termo da perseguio?...

--No sei--disse Abreu, fingindo esperanas.--No sei... mas as voltas do
mundo so to espantosas... Todavia...--continuou elle com o alvoroo de
uma j sincera esperana--no te lembraste ainda d'uma felicidade
muitissimo possivel?

--Qual?--conclamaram os dois, para quem um raio de esperana era j cousa
de estontear como a luz do sol aos exhumados das trevas de longo
encarceramento.--Qual? que felicidade nos promettes, meu amigo?

--A mais obvia e facil. O que me espanta  que ella vos no haja sorrido
primeiro do que a mim. Ides para Hespanha, no  assim?

--Vamos.

--De l passaes a Hollanda, onde achareis o abrigo que os nossos irmos
deparam a quantos infelizes vo de c acossados pelas tochas do auto da f.
Tu, Antonio, s novo e robusto. Se no quizeres continuar os teus estudos
medicos l fora, voltas a tua actividade para outra ordem de trabalhos:
fazes-te mercador, ganhas dinheiro, esqueces a patria, como se nunca a
tivesses, como em verdade no temos; depois, mandas ir o teu filhinho, como
complemento da tua felicidade na vida tranquilla.

--Que sonho!--clamou alegremente a filha de Ferno Cabral.--E eu nunca
pensra n'isso...

--Nem eu...--ajuntou Antonio.--Ha umas desgraas que esterilisam a mais
pensadora e expeditiva alma! Eu no via seno escuridade... Agora, bem
hajas tu, meu irmo, que me restitues  serenidade de homem inquebrantavel
por affrontas da sorte... E a ti, a ti, meu amigo? No hei de eu mais
vr-te?

--Porque no, se eu hei de ser propriamente quem te v levar o filho?

--Oh! ento j sei que ha o antever da perfeita felicidade, c mesmo d'este
grande abysmo em que me lancei com esta infeliz menina...

E, abraando-se n'ella, choravam ambos lagrimas j de jubilo, como as de
quantos naufragos que apegam sobre ponta de rocha, ainda quando ao
despegarem-se, para ganhar terra, voragens novas se lhes anteponham.

N'este dia, como se a adversidade canasse de cruciar os dois fugitivos,
boa nova lhes chegou a sobredoirar os prazeres da esperana.

Sem embargo da raivosa perseguio do fidalgo de Bragana  inculpada
familia do hebreu, as leis no se dobraram a sentenciar a perdio dos
innocentes. Apoz dez mezes de masmorra na cidade da Guarda, os dois velhos
e seus filhos sairam livres, sob a bandeira misericordiosa dos dignitarios
da S, conjurados todos em deporem sobre a pura christandade dos presos, e
sua irresponsabilidade nas desordens do mo membro de sua familia.

Redobrada a exultao de Antonio com esta nova, queria j elle dispensar-se
de receber o emprestimo de Francisco de Abreu, como quem contava com sobejo
dinheiro de sua casa resgatada do sequestro. O amigo, porm, no
condescendeu nem o desquitou da obrigao de devedor, instando na immediata
saida de Portugal, porque a raiva do fidalgo redobraria de vigilancia,
depois da soltura dos presos em quem no podra assentar em cheio a mo
rancorosa.

Prevaleceram as judiciosas previses de Francisco Luiz. quella hora, de
feito, j Ferno Cabral, esporeado pelo odio, apertava novas diligencias
para descobrir o rasto dos fugitivos, e, mediante disfarados espias que na
Guarda lh'os andavam furoando, no estava j longe de lhes descobrir o
rasto.

Ao outro dia, depois de muito chorar da me, a cujo seio arrancaram a
creancinha, Francisco Luiz, sem saber como se estancavam lagrimas de to
puro sangue de alma, fugiu para assim dizer com o menino, sem esperar as
ultimas despedidas.

Ao anoitecer d'este dia, os consternados paes, por serranias no trilhadas
endireitaram s fronteiras e vingaram entrar em Hespanha. Contemplavam-se a
espaos, e viam nos olhos um do outro o desconforto, a desesperana, o
convencimento de que sua desgraa ia crescendo.

--E o nosso filhinho?...--dizia ella em gemidos, que pareciam um arrancar
da vida.

E elle cobria o rosto com as mos, arquejava, engulia as lagrimas e no
respondia.

--Que mal fizemos em deixar a creancinha!--voltava ella, cruzando os braos
sobre os seios, que lhe doiam entumecidos do leite.--Que ruim me eu
fui!... Meu Deus, perdoae-me que eu smente agora considero
a grandeza do meu crime!

--No chores assim!--atalhava o attribulado moo. Pois como andarias tu
fugitiva com um filhinho de tres semanas!  Maria, por Deus te peo que nos
no atormentemos! Ajuda-me a ser homem! Ampara-me, pela boa sorte do nosso
filho te rogo que me ampares! Volta ao futuro os olhos de tua alma!
Esperemos... luctemos, sejamos fortes, no nos deixemos acabar aos golpes
d'esta saudade.




I

Informaes


Corria o anno de 1697.

Francisco Luiz d'Abreu, doutor em medicina, mudra sua residencia para
Coimbra, esperanado em entrar no magisterio, conforme lh'o promettiam
sua capacidade, vasto saber e creditos. Tinha casado, quatro annos
antes, com Francisca Rodrigues de Oliveira, filha de abastados judeus de
Ourem. No tinham filhos; mas dos braos de um ao outro saltava um
menino de cinco annos, chamado Braz, acariciado com blandicias de filho.
A creana tratava de padrinho o doutor, e  senhora chamava me. A
esposa do medico, privada do goso de se ver assim amimada nos labios de
anjo desentranhado de seu seio, jubilava de lhe ouvir aquelle doce nome
de me, e toda se estremecia de maternal ternura chamando-lhe seu filho.

Grande numero de pessoas relacionadas com Francisco Luiz, presumia que o
pequenino Braz era filho natural d'elle, e que Francisca de Oliveira,
bem que israelita e perfida ao sacramento do baptismo, alojava no peito
entranhas to christs que levara para sua companhia o menino, e lhe
queria at  extremidade de lhe chamar filho, e consentir que elle lhe
chamasse me.

Exceptuada a amoravel esposa do doutor, ninguem sabia em Portugal quem
fossem os paes d'aquella creana. A ama, que a tinha amamentado,
morrra; e a pobre gente, que lhe assistira ao nascimento, ignorava o
destino d'elle.

Um dia, como a creana, antes de ir-se  cama, entrasse a beijar a mo
do padrinho, Francisca beijou-a nas faces, e disse-lhe:

--No tornes a chamar padrinho ao teu amigo; chama-lhe pae, sim, Braz?

--Pois sim, mesinha--disse a creana, e saiu pela mo da creada.

Francisca proseguiu:

--Pois no  assim melhor?! Acabamos de nos convencer que elle  nosso
filho.

-- menina, respondeu o marido--esse convencimento parece-me difficil...

--Nosso filho gerado no corao...--tornou ella.

--Isso l, sim; d'esse modo j eu o perfilhei; mas o peior  que manh
podem apparecer ahi umas entranhas menos phantasticas do que a tua
maternidade de corao a reclamarem o que  seu legitimamente.

--Pois tu cuidas que elles voltam c?! Podes ainda imaginar que elles
vivem? Ha tres annos que no temos uma carta d'elles!

--Mas tambem no recebemos a certido de obito.

--Pois sim,--redarguiu Francisca--mas, se elles vivessem, as pessoas de
Hollanda, a quem tu tens pedido tantas vezes novas d'elles; no t'as
dariam, ainda mesmo que lhe no soubessem os verdadeiros nomes?!

--Acho-te razo; porm, custa-me a crer que elles tenham morrido ambos.
O mais certo  o que eu tantas vezes te tenho dito...

--Que Ferno Cabral tem recebido as cartas que elles te escrevem?

--Sim.

--No creio. Tu recebes cartas de Amsterdam, de Londres e de toda a
parte. Se te subtrahissem umas, iam todas, homem. C, ninguem me tira a
mim da cabea, que elles morreram em naufragio, ou os sicarios do
fidalgo os mataram l por fra, ou... quem sabe?... a tamanho apuro de
desgraa chegariam, que se dessem a si a morte, como no seculo passado
succedeu com tantos irmos nossos.

--Pde ser--obtemperou Francisco Luiz;--mas teriam coragem de matar-se
uns paes que deixavam esta creana?!... No  possivel! A ultima carta,
que recebi de Antonio, aqui est--disse elle, tirando-a do segredo de
uma gaveta-- de 4 de outubro de 1694. Escreve-me de Marselha. No se
queixa de mingua de recursos. Revela uma certa seguridade de espirito,
que  signal de boas avenas com as miserias da vida. Diz que est em
arranjos com alguns hebreus, filhos e netos de portuguezes, para se
trasladarem com suas familias para uma colonia franceza, que, diz elle,
talvez seja a de S. Domingos. Promette escrever-me quando se houver
definitivamente resolvido, e depois...

--Mais nada--atalhou Francisca--Ora, no Canad, j sabemos que elles no
esto. N'outras colonias, tambem tu j sabes que ninguem os viu. Que
havemos de pensar d'isto? Que se ha de suppor depois do silencio de tres
annos?

--Que as cartas me so roubadas--insistiu o doutor.

--E tu a teimar, homem!... Oxal que eu me engane; mas, se adivinho,
Deus sabe que o menino est amparado, e que ha de ser sempre meu filho,
ainda que o senhor me d muitos filhos.

--Suicidarem-se!--proseguiu Francisco de Abreu, que parecia, de
absorvido em suas cogitaes, no ouvir a esposa--Suicidarem-se no pde
ser... Antonio Mouro graduou-se em medicina em Paris ha quatro annos, e
de l passou para Hollanda. Um medico no chega a encarar com to feia
miseria que lhe quebre o animo, ao extremo de o anniquilar. Antonio em
qualquer parte acharia po, ainda que fosse mo physico; porm, com os
talentos d'elle, no posso conceber mo medico. Seja o que fr,
Francisca. Eu espero ainda haver novas por alguns hebreus de Marselha.
Hei de perguntar em que poca e em que navios sairam colonos, e para
onde sairam. No o fiz at agora por medo que as minhas cartas andem
espiadas, e vo dar s mos de Ferno Cabral. Mas vou escrever ao nosso
amigo Francisco de Moraes Taveira, que est em Lisboa de viagem para
Frana, e pedir-lhe que indague quanto poder dos nossos irmos de
Marselha o destino dos colonos, com os quaes saiu Antonio de S Mouro.

Francisca entrou  alcova do menino, e sentou-se-lhe  beira do catre a
contemplal-o adormecido em sonhos, que lhe sorriam, a espaos, na rosa
entre-aberta dos labios.

Francisco Luiz de Abreu ficou escrevendo largas paginas ao seu amigo
Francisco de Moraes, hebreu abastadissimo de Villa Flor, commerciante de
pedras preciosas, que traficava nas principaes cidades de Europa e Asia.

Na volta do correio, Francisco de Moraes asseverou ao doutor que chegado
a Frana, iria indagar pessoalmente a Marselha, e no pouparia despezas
com os informadores que o satisfizessem. E, por esta occasio, lhe
noticiava que fazia conta de trazer de Hollanda seu filho Heitor, que l
se estava educando em humanidades com seus tios, para estudar medicina
em Coimbra; e, a tal respeito, accrescentava: No sei se rro em trazer
o rapaz para Portugal; mas a me insta, chora, e definha-se a termos que
receio que me ella morra. Seja o que Deus quizer. Aconselhar-lhe-hei o
que lhe cumpre fazer, e espero que elle, por obediencia e desejo da
vida, me attenda.

Francisco Luiz deu-se logo pressa em pedir ao hebreu que no trouxesse
para Portugal, como victima amarrada para o aougue, o pobre rapaz que
l fra vivia sem receio da pol e da fogueira. Pintava-lhe, sem
encarecimento, os perigos que ameaavam em Portugal um rapaz creado e
educado entre israelitas doutos, e com elles affeito a dizer alto e
destemidamente o seu pensar em coisas de religio. Recordava-lhe as
numerosas victimas da inquisio, que preferiram morrer a desconfessar
sua f, antepondo a gloria do martyrio da ida herdada de avs 
hypocrisia de aceitarem apparentemente a religio dos carniceiros filhos
de Domingos de Gusmo. Lembrava-lhe a sublime coragem de Manuel
Fernandes Villa Real, consul portuguez em Paris, e, no obstante,
garrotado e queimado na praa da Ribeira em Lisboa no anno de 1652.
Lembrava-lhe o lente de Coimbra Antonio Homem, queimado em 1624, e o
advogado Miguel Henriques da Fonseca, Pedro Serro[3] e outros, cuja
inflexibilidade de caracter, comquanto perpetuasse honrada memoria, lhes
custou affrontosissima morte, e deixou aberta por muito tempo amarga
torrente de lagrimas.

As reflexes do medico abalaram o judeu; mas no lhe demudaram a teno.
Era Heitor, filho unico, herdeiro de grandes haveres; queria voltar 
patria, onde o chamavam saudades de menino; tinha por si as lagrimas e
instancias da me; promettia ser discreto e hypocrita; queixava-se do
clima de Hollanda e de febres quartans. O pae era ssinho a querel-o
afastado de Portugal, e assim mesmo andava em lucta comsigo mesmo, at
que deliberou trazel-o de volta da sua excurso mercantil a Frana e
outras naes.

De Marselha escreveu Francisco de Moraes informando o seu amigo Abreu.
Dizia que Antonio de S Mouro, convidado com grandes lucros a ir
estabelecer-se como medico no Canad, ou Nova Frana, aceitara a
proposta, e embarcara com sua mulher, resolvido a enriquecer-se no
prosperado trafico dos pellames. Ajuntava que um dos tres navios,
carregados de colonos, batido pela tormenta, se esgarrara do rumo, e
fra a pique na costa de S. Domingos, a tempo que duas galeotas de
flibusteiros, conhecidos como _demonios do mar_, na linguagem da
peninsula britannica, faziam aguada n'uma bahia d'aquella infamada
costa, onde poucos annos antes haviam naufragado tres naus francezas,
capitaneadas pelo audacissimo colonisador Robert Cavalier de la Salle.
Ajuntava o informador que n'aquelle navio perdido iam fatalmente o
medico e sua mulher, com muitas pessoas das mais graudas da colonia,
algumas das quaes se presumia que tinham caido nas mos dos flibusteiros
segundo informaes de um galeo hespanhol, que das pessoas embarcadas
no navio perdido, at quella hora, no viera noticia a Frana.

Francisco d'Abreu, lendo a carta, disse  esposa.

--Tinhas adivinhado desgraadamente! O nosso Braz j no tem pae nem
me. Agora podemos dispor do futuro d'esta creana. V tu que funesto
remate houveram aquelles amores do meu pobre Antonio! J no ha
duvidar... Esto mortos! Batam as mos os gallileos, e folguem de ver
que vingaram as ondas o que as lavaredas no poderam! Oh!... que vontade
eu tenho de banhar o rosto d'este menino com as minhas lagrimas, e
contar-lhe as desgraas de seus paes.

--No--atalhou Francisca--no lhe digas nada; no digas! Que lucra elle
em saber isso?... Vaes semear-lhe no corao odios e paixes que, no
futuro, lhe podem ser a sua perdio. Nem se quer lhe digas em tempo
algum que seu pae era judeu. Quebremos-lhe, se podermos, este condo
funesto!




II

No era me!...


No seguinte anno de 1698, o doutor Abreu, que nunca se descuidava de ter
o ouvido fito aos rumores surdos da inquisio, recebeu mui secreto
aviso de algum condiscipulo, que devia ser familiar do santo officio,
qualidade com que o maior numero de medicos d'aquelle tempo se
nobilitava; e tanto assim era, que algum medico, privado d'ella, dava a
entender que pertencia mais ou menos  seita maldita; ou, como diziam,
tinha uma, duas ou tres partes de judeu. O aviso mandava-o aperceber-se
para trabalhos grandes.

Alvoroado com a pavorosa nova, o doutor quiz logo sair da patria, e
refugiar-se em Damasco, onde tinha um tio que exercitara em Portugal a
profisso de boticario, no Fundo, at ao anno de 1652, em que fra
queimado o capito Manuel Fernandes Villa-Real. Chamava-se o fugitivo
Pedro Lopes.

Impediram-lhe ao doutor a precipitada fuga alguns parentes e amigos, que
podiam bastante com os promotores do santo officio; recommendando-lhe,
porm, que visitasse as egrejas com frequencia, e dsse bem publicas
demonstraes de sua piedade.

Assim o cumpriu o doutor Francisco Luiz, bem que sua mulher mui
violentada se prestasse a uma ostentao hypocrita, da qual a credula
israelita se penitenciava com muitos jejuns e oraes.

Decorridos mezes, fez-se auto da f, e n'elle saiu condemnado a priso
illimitada um Ferno Vaz Lucena, parente do doutor. A maxima culpa
d'este christo novo era o ter-se descaminhado e caido nas mos dos
inquisidores uma carta em verso, que Pedro Lopes, tio de Francisco Luiz
d'Abreu, lhe escrevra de Damasco. Esta carta indirectamente ameaava a
tranquillidade do lente de Coimbra; e, por amor d'ella, se formara a
tempestade em que os amigos do lente viam ao longe o raio, o qual urgia
conjurar com visitas aos templos e tregeitos bem publicos de piedade.

Que perversa e impia carta seria aquella, em que os inquisidores acharam
motivo para condemnarem Ferno Vaz Lucena a carcere perpetuo? N'um velho
manuscripto que possuimos, chamado _Memorias de Francisco Soares
Nogueira_, encontramos trasladada a carta, cuja copia no vem descabida
ao ponto; e, se mais no vale, tem por si o merito de nos dizer como os
boticarios hebreus conciliavam as letras amenas com a manipulao dos
ingentes xaropes d'aquelle tempo, posto que nem sempre conciliassem a
inspirao com a contagem das syllabas, segundo a arte poetica.

Dizia assim a carta:

  Oh Fernando, oh Fernando,
        at quando
  ha de durar teu descudo,
  entre o povo torpe e rudo?
  Que serve estar aguardando?
  Sabes a banda d'alm...
        e o que convem.
  Quem se agarra, quem se afferra,
  deixa o monte, deixa a serra,
  e ao valle seguro vem.

  No vs como arde esse matto,
        mentecato,
  que pouco a industria val?
  Antes que chegue ao casal,
  levanta cabana e fato!
  No sejas aventureiro,
        que o toureiro
  _sim_ (?), morre em seu officio.
  Mais val ter outro exercicio,
  que fundar em ser ligeiro.
  Por que no queres ser forro?
        Eu morro,
  por no haver quem te arranque!
  Se pdes vr de palanque
  por que queres andar no corro?

  Tambem eu estive l,
        e sei o que ha;
  tudo passei, tudo vi.
  No se incerra o mundo ahi;
  melhor mundo vae por c;
  o po  c mais enssso,
  e a carne sem chambo;
  tambem c se ganha po,
  e no com tanto sobr'sso.

  A gente  c sem reima,
        de menos teima;
  a terra fructos produz,
  e o sol d c mais luz,
  posto que tanto no queima.

  Digo-te verdade mera:
        considera;
  e, se queres ter descano,
  vem buscar o rio manso,
  foge do mar que se altera;
  foge do lago e da cova,
        cousa nova,
  e s n'isto me obedece.
  Mova-te o proprio interesse,
  quando o gro Deus te no mova;
  que os lobos como rodeiam
  sempre pream.

Divulgou-se a carta, depois do auto da f. O doutor Abreu, assim que a
viu, afervorou-se na frequencia de egrejas, batia nos peitos estrondosas
punhadas, e ingranzava as contas das camaldulas, de modo que os ouvidos
dos devotos podessem contar-lhe os quinze mysterios do rozario. Porm,
como se a hypocrisia lhe no dsse cauo bastante segura, o lente de
medicina, emquanto escoava os sonoros bogalhos, scismava no modo de
fugir, sem dar ansa aos espias.

Apezar das camaldulas e dos protectores, a inquisio cada vez mais
desconfiava da sinceridade do doutor; e o doutor, no menos vigilante
que ella, cada hora, habilmente negociava a transferencia dos seus
haveres ao estrangeiro.

O pequeno Braz era-lhe empo. No sabia elle se devia levar comsigo a
creana. O perigo e o medo, concentrando-o no cogitar em salvar-se,
tornava-o mais egoista em cuidados de si, e menos pensativo do futuro do
pequeno. Francisca de Oliveira, por sua parte, queria muito  creana;
mas no era bem o querer e amar maternal: faltava-lhe aquelle sentir-se
viver, estremecer e morrer nas arterias do filho. Ento lhe seria a ella
bom de comprehender que smente  me aquella que sentiu as dres da
maternidade.

--Que ha de fazer-se ao pequeno? onde o deixaremos?--perguntava
Francisco Luiz  mulher.

--Se o podessemos levar sem difficuldade...

--No podemos, por que eu j desconfio que nos ser negado o passaporte.
Temos de fugir; e escapar com uma creana desembaraadamente ninguem o
faz. Bem sabes que nossos avs matavam os filhos que lhes retardavam e
denunciavam a fuga.

--Deixa-se em casa dos nossos parentes--tornava ella.

--Isso  sacrificar os nossos parentes; porque o rapaz  considerado meu
filho--observou o doutor.

--Tenho uma boa ida--ajuntou elle--entreguemol-o a Francisco de Moraes,
de Villa Flor, que sabe a historia d'esta creana, e lhe ha de servir de
pae com os sobejos da sua riqueza. No ha tempo a perder. Vou
escrever-lhe para Lisboa, e pedir-lhe que me espere por estes quinze
dias.

Francisco de Moraes Taveira aceitou gratamente o encargo, tanto por lhe
ser offerecido pelo doutor Abreu, como por ser o orphosinho filho do
desventurado israelita, que perdra provavelmente a vida, quando cuidava
ganhal-a com honra.

Desde que a resposta chegou, Francisca, olhando a face carinhosa da
creana, chorava sempre. Quanto mais o estreitava ao peito, mais o
menino lhe sorria, como se com afagos quizesse mitigar as angustias
desconhecidas, que via no rosto lagrimoso de sua me. J ella pedia ao
marido que no deixasse o menino; vacillava j tambem o doutor; e, muito
instado da esposa e do corao, que a si mesmo se reprehendia, deliberou
resolver-se em Lisboa, segundo se lhe figurasse facil ou difficil a
passagem para outro reino.

Nas ferias d'aquelle anno, o lente simulou uma jornada a Ourem, sua
patria, e foi em direitura a Lisboa. O santo officio de Coimbra reparou
na saida, e lanou pesquizas. Informaram-no de alguns processos de
liquidao de patrimonios e venda de bens, que o doutor Abreu
rapidamente negocira na terra de sua mulher. D'isto foi avisado o
inquisidor geral, de modo que j em Lisboa o promotor instaurava
processo, quando o lente alli chegou.

Avisado pelo medico mais convisinho dos segredos da inquisio,
Francisco Luiz deu-se pressa em sair de Lisboa com destino a Inglaterra.
Negaram-lhe passaporte. Aterrado d'esta contrariedade, significativa de
maiores violencias, mudou de residencia para casa segura, que lhe dispoz
o hebreu de Villa Flor.

A vigilancia dos esbirros estava attenta sobre os navios hollandezes
principalmente, e pouco menos sobre quaesquer outros de commercio com
portos estrangeiros. Francisco de Moraes, avassalando com ouro a piedade
do piloto de uma nau portugueza destinada  India, introduziu no navio o
doutor e sua mulher, considerados mercadores e proximos parentes do
piloto. As arcas de suas preciosidades entraram com os passageiros; tudo
que mais e menos caro lhes era foi com elles, exceptuado o pequenino
Braz, que dormia  hora em que elles partiram, e nem acordou ao cair-lhe
nas faces as lagrimas dos seus bemfeitores.

Ao amanhecer-lhe o dia seguinte, Braz perguntou pela me. Ai! se ella o
fosse, no perguntaria o desamparadinho por sua me.

Respondeu-lhe um moo de vinte annos, que os seus amigos tinham ido fra
de Lisboa, e voltariam passados alguns dias. A creana chorou em
silencio, como quem conhecia que o prantear-se seria desagradecer as
caricias que lhe fazia o filho de Francisco de Moraes.

Era elle o mancebo que o hebreu de Villa Flor fra buscar a Amsterdam.

Heitor Dias da Paz distrahia a creana de seis annos com brinquedos
proprios da meninice. Parecia que um ao outro se estavam divertindo.
Heitor quiz instituir-se mestre do _a b c_ do pequeno; mas as graas
infantis do discipulo encantavam-no por maneira, que era coisa de muito
rir vl-os ambos despegarem do alphabeto para se andarem correndo pela
casa no jogo dos esconderlos.

Dentro em pouco, as lembranas dos fugitivos hebreus eram apenas
brevissima tristeza de saudade na memoria de Braz.

Heitor, desejoso de ver a terra do seu nascimento, foi para Villa Flor,
e levou comsigo o menino. Francisco de Moraes, por mdo de que, n'alguma
hora, a inquisio lhe quizesse galardoar a astucia no escape do
sobrinho de Pedro Lopes, accendendo em honra d'elle as santas rezinas da
f, tratou de sumir-se na sua provincia, dando-se por canado de
amontoar riquezas.

Assim se reuniram em felicidade ainda no experimentada, os paes de
Heitor, contando como elemento de sua boa sorte a posse do orpho, que,
de muito amado que era, no sentia falta dos seus primeiros amparadores.




III

O faro das bestas-feras


Por espao de quatro annos se gosou Heitor Dias das doces reminiscencias
de infancia, sem querer saber de estudos nem do destino. Os paes no o
incitavam a empregar seu tempo em letras que lhe abrissem carreira de
gloria. Fechada sabiam elles que ella estava aos hebreus, salvo a das
sciencias; folgariam de o ver luzir entre os famigerados Zacutos; mas
muito mais se compraziam de o ter entre si a recado de toda a suspeita
de inimigos e do perigo de se relacionar com imprudentes amigos.

Decorridos, porm, quatro annos, em 1703, Heitor Dias da Paz pediu ao
pae que o deixasse ir estudar medicina a Coimbra, porque lhe era j
pesada a ociosidade e desvalia de sua vida. Francisco de Moraes,
confiado na discrio do moo, concedeu-lhe licena. Heitor pediu que o
deixasse levar com elle o seu irmosinho Braz Luiz, para, desde os dez
annos, o ir encaminhando nos estudos conducentes  carreira da medicina.
A generosa lembrana foi applaudida pelos velhos, e o pequeno
agradeceu-a com lagrimas de alegria.

Do pupilo ou, segundo as presumpes do vulgo de Coimbra, filho do
doutor Abreu, j ninguem se lembrava quando, corridos cinco annos, l
voltou. Heitor a ninguem disse de quem fosse aquelle menino.
Apresentava-o como orpho pobrinho, cuja educao elle tomra a seu
cargo. O pequeno j tambem mal se recordava dos seus bemfeitores, e
quando fallava de algum d'elles, chamando-lhes pae ou me, o filho de
Francisco de Moraes recommendava-lhe que a pessoas estranhas no
dissesse nada do pouco de que ainda se lembrava.

Heitor entrou no primeiro anno da faculdade em artes, depois de ter sido
examinado em humanidades. N'este exame, em coisas de grammatica,
sciencia que ento reunia muitas especies hoje distinctas, o hebreu de
Villa Flr, mais descuidada que intencionalmente, defendeu proposies
que destoaram asperrimamente nas orelhas orthodoxas dos examinadores.
Sem embargo, deram-n'o como apto, reservando mentalmente o espiarem-lhe
os actos com a vigilancia propria de quem quer salvar uma alma em risco
de perder-se.

Braz Luiz entrou no collegio de S. Paulo a estudar latinidade com
precoce e admiravel entendimento. Causou certo assombro nos frades que
liam no collegio a ignorancia do moo em doutrina christ,
interrogaram-n'o minudenciosamente sobre o viver da familia que o
educara. Braz respondia que os seus bemfeitores resavam, e elle tambem
resava por um livrinho de oraes. Apresentaram-lhe diversos livros de
piedade para que d'entre elles escolhesse o da sua resa. O pequeno
sentiu um bate no corao, comprehendeu instantaneamente o perigoso
d'aquelle interrogatorio, e sau-se bem do aperto, indicando o
cathecismo de fr. Bartholomeu dos Martyres. Poucos dias volvidos, Braz
Luiz papagueava toda a doutrina, dando a entender que apenas lhe fra
necessario recordar o que sabia desde a primeira infancia. Esta
esperteza no enganou os mestres. Os primeiros fios da teia entraram
logo em urdidura; e j as inquietas consciencias dos frades no levavam
as noites d'um somno.

No entanto, Heitor levou a cabo, com muita applicao e extremado
engenho o seu primeiro anno. Foi a ferias, levou comsigo Braz Luiz, e
contou ao pae a inquirio porque passra o menino sobre o cathecismo
christo. Francisco de Moraes agourou mal d'este exame, e pediu ao filho
que, em vez de voltar a Coimbra, se passasse a Hollanda. Heitor Dias
engenhou razes para combater os sustos do pae, e voltou ao segundo anno
de medicina, levando Braz ao segundo anno de latim.

Os de S. Paulo repetiram o inquerito com ardilosos rodeios. Braz, j
cabalmente instruido, cortava-lhes as voltas com respostas por demasia
atiladas; de modo que deu fora s suspeitas, mostrando estar apercebido
para destruil-as.

A este tempo sobejamente sabia o conselho da inquisio que os christos
novos de Villa Flr, se no eram sinceros judeus, tambem no eram
sinceros catholicos. Qualquer das coisas, no entender dos theologos, era
egual  outra como affrontamento  verdadeira religio.

Heitor Dias da Paz andava espreitado. Seus condiscipulos propriamente o
provocavam a questes theologicas, das quaes elle se desembaraava,
dando-se como ignorante de subtilezas e aceitando os dogmas sem
discusso. O conceito dos espies de sua consciencia no melhorava por
isso; quando muito, concediam-lhe a boa qualidade de judeu discreto.

Assim correu o segundo anno da sua formatura, sem acontecimento que o
precatasse contra alguma violencia.

Voltou Heitor ao terceiro anno, com o corao retalhado de saudades de
sua me que ficava morta. Levou comsigo para Coimbra o pae que se queria
deixar morrer na alcova d'onde lhe levaram o cadaver da esposa. A
convivencia do filho deu-lhe alma, e esperana de peito onde inclinar a
cabea na velhice. No obstante, a saudade levou-o s portas da morte.

Aquella ida do velho a Coimbra foi desgraa para Heitor. Francisco de
Moraes, em risco de vida resistira a receber os sacramentos, porque o
seu morrer, sem ritual de religio alguma, queria elle que fosse um como
adormecer inclinado ao respaldo da cadeira. Estrondeou o escandalo nas
abobadas dos conventos. Heitor, com o rosto coberto de lagrimas, quando
sua alma estava a mendigar palavras de consolao, porque via alli o pae
moribundo, tinha de explicar s cataduras severas dos frades e visinhos
a turvao de seu pae, e a, por isso, involuntaria privao de
sacramentos. Redarguido nas satisfaes que dava, replicou talvez com
descomedimento, quando j seu pae se tinha passado a Villa Flr. Da
replica, provavelmente, foi lavrada acta no gabinete do procurador
fiscal do santo officio. O certo foi que, vinte dias depois, Heitor
Duarte da Paz, ao entrar nos geraes da universidade, foi acercado de
tres familiares, que o conduziram ao carcere da inquisio.

Bemdita a mo da Providencia, que j tinha fechadas as palpebras da me
d'aquelle moo!

Braz Luiz, comquanto desde o momento em que o seu protector foi preso
ficasse privado de recursos para continuar como pensionario em S. Paulo,
no foi despedido. Os frades paulistanos consideravam-no optimo
estudante, e alma nova para se deixar fecundar em proveito da santa
religio. Alm de que o orpho, esquecido do nome de seus paes, seno
engeitado d'elles, no tinha culpa minima do hebraismo de quem o
protegia. N'este mesmo parecer assentaram os frades dominicanos: honra
lhes seja. E, portanto, Braz Luiz conservou-se no collegio a expensas da
casa, sem licena do reitor[4], e por largo tempo ignorante do destino
de seu bemfeitor, at que, no fim d'aquelle anno de 1704, os mestres lhe
disseram que Heitor Dias da Paz se estava purificando de peccados
gravissimos, para remedio dos quaes lhe acudira a vigilancia
misericordiosa do santo tribunal da inquisio.

Braz chorou muito, e cau febril na cama. O chorar e o adoecer do moo
mereceu compaixo dos mestres, que o consolaram com esperanas seguras
de que o seu protector havia de sair limpo e absolto d'entre as mos dos
filhos de S. Domingos.

Recobrou o estudante saude, a tempo que Heitor Dias da Paz era
transferido  inquisio de Lisboa, por motivos mais ou menos
extraordinarios, que no vingmos averiguar. O que a toda luz
evidencimos  que o hebreu esteve preso desde 10 de janeiro de 1704 at
12 de setembro de 1706.

E como saiu elle do carcere? Absolto? Penitenciado? As feras das
cavernas da santa casa esphacellaram-lhe as carnes? Deixaram-lhe ao
menos o corao com algum sangue, aquelle corao de vinte e oito annos,
para ainda se restaurar de encontro ao seio reparador d'uma esposa, que
o anjo dos desamparados lhe houvesse entreluzido nas trevas da sua
masmorra de seiscentos dias e seiscentas noites?




IV

Resposta


Abrira-se em ondas de luz o co da manh d'aquelle dia 12 de setembro de
1706.

Dobraram os sinos de S. Domingos. Apuzeram-se os folheiros cavallos das
reaes cavallarias s berlindas cosidas em oiro. As variegadas librs
dos aulicos e ministros enfileiravam-se processionalmente depz os
coches do filho de D. Joo IV. Ia grande movimento e alvoroo nos
mosteiros. Serpejavam innoveladas as multides que desciam da cidade
alta para o escampado do Rocio. O tanger dos sinos era de morte; mas o
dia era de festa, festa da egreja triumphante, festa d'um auto da f.

D. Pedro II e seus filhos apearam no alpendre do templo de S. Domingos;
e em meio de filas de fidalgos, de frades, de desembargadores,
caminharam mesuradamente por entre as naves, at se assentarem na sua
alterosa tribuna, a tudo sobranceira, salvo  tribuna dos inquisidores,
que era a primaz n'aquelle espectaculo satanico da piedade.

Para que tudo fosse egregio, at o prgador no auto da f de 1706 era um
dos mais doutos e famigerados interpretes dos evangelhos, sobre ser um
dos mais abalisados escriptores de seu tempo. Nem mais nem menos que o
reverendissimo padre mestre, geral da congregao de S. Joo
Evangelista, chronista-mr de sua ordem, qualificador da inquisio,
examinador das ordens militares, e, para em breve o dizer, sacerdote de
tantas partes que, nem solicitado por D. Pedro II, aceitra o bispado de
Macau. J sabe o leitor curioso que se trata do padre Francisco de Santa
Maria, author do _Ceu aberto na terra_, da _Aguia do Empireo_, da
_Saphyra veneziana e Jacintho portuguez_, do _Anno historico_, de muitos
volumes de sermes, todos esplendidos, todos laureados, todos
christianissimos; mas nenhum to esplendido, to laureado, to christo,
como este que sua reverendissima vae hoje prgar no auto da f, em
presena de Suas Magestades e Altezas. Este episodio da festa explica as
tumultuosas enchurradas do povo, que confluem da cidade alta  praa do
Rocio: aquillo  gente que, a um tempo, fareja com delicias o fartum dos
corpos que vo ser queimados, e aponta as orelhas pias para no deixar
perder minima palavra da ungida orao de padre Francisco.

A procisso dos condemnados  longa. So mais de cincoenta, homens e
mulheres, os que vo padecer ou gals, ou desterro, ou priso perpetua,
ou garrote e fogueira, ou a fogueira em vida. D'estes ultimos ha cinco,
tres homens e duas mulheres, _relaxados em carne_, como rezam as
sentenas.

Dois homens e as duas mulheres do visos de j levarem obliterada a
memoria da vida que deixam. Vo amparados nos braos dos officiaes do
santo officio agonisando a espaos ancias soluantes que lhes ressumbram
 fronte um suor glacial. Entre elles, porm, caminha firme, direito,
altivo, com a sua tocha de cra verde na mo, e a samarra e a carocha
pintalgadas de demonios e fogueiras, um moo de vinte e oito annos,
gentil de sua pessoa, sem embargo da lividez cadaverosa de dois annos de
carcere.  Heitor Dias da Paz.

O promotor da inquisio subiu  sua tribuna. Ao fim de quatro horas de
leitura de cincoenta e tantas sentenas, indigitou o hebreu de
Villa-Flr. Dois esbirros com o alcaide do santo officio ladearam o
moo, e conduziram-n'o a ajoelhar-se em frente da mesa sobposta 
tribuna.

E o promotor leu o seguinte:

Accordam os inquisidores, ordinario e deputados da santa inquisio[5]
que, vistos estes autos, culpas, confisses e declaraes de Heitor dias
da Paz, christo novo, estudante de medicina, filho de Francisco Moraes
Taveira, mercador, natural de Villa-Flr, reu preso que presente est,
porque se mostra que sendo christo baptisado, e como tal obrigado a ter
e crer tudo o que tem, cr, e ensina a santa madre egreja de Roma, elle
o fez pelo contrario vivendo apartado da nossa f catholica, tendo
crena na lei de Moiss, e fazendo em observancia da dita lei jejuns
judaicos, estando nos dias d'elles sem comer nem beber, seno  noite
depois de sair a estrella, ceando ento coisas que no eram de carne, e
deixando de comer a de porco, lebre, coelho, gordura e peixe sem escama,
e guardando os sabbados de trabalho, vestindo n'elles camizas lavadas, e
os melhores vestidos, comeando a guarda d'elles da sexta feira  tarde.

Pelas quaes culpas, sendo o reu preso nos carceres do santo officio, e
com caridade admoestado as quizesse confessar para descargo de sua
consciencia e bom despacho da sua causa, disse que o que tinha que dizer
e declarar (sem o ter por culpa, antes por bom e necessario  sua
salvao) era crr firmemente em Adonai, Deus de Abraham, Isac e Jacob,
assim e da maneira que o manda a lei de Moiss.

E vendo-se na mesa do santo officio a cega e obstinada determinao do
reu, lhe foi dito que considerasse bem a resoluo que tomava em se no
querer apartar da crena da lei que seguia, e como ia mal encaminhado em
querer persistir na lei de Moiss, por que j n'ella no havia nem podia
haver salvao, por ser acabada pela vinda de Christo, Jesus, senhor
nosso e verdadeiro. E foi de novo admoestado tornasse sobre si; e,
conhecendo seus erros, se apartasse d'elles, e se convertesse  f
catholica que tem, cr e ensina a santa madre egreja de Roma, cujo filho
elle era e professra no baptismo, e confessasse inteiramente suas
culpas, pois isso era o que lhe convinha para salvao de sua alma, e
para se poder usar com elle da misericordia que a santa egreja costuma
conceder aos bons e verdadeiros confitentes.

E por tornar a dizer e affirmar com animo endurecido e obstinado, no
s n'aquella sesso, mas em outras muitas que com elle se tiveram, afim
de sua reduco, que no se queria apartar da crena da lei de Moiss,
que seguia, antes estava prompto para dar a vida por ella:

Veiu o promotor fiscal do santo officio com libello criminal e
accusatorio contra elle, que lhe foi recebido; e se lhe disse que pois
perseverava ainda na crena de seus erros com obstinao e contumacia,
estivesse com seu procurador e lhe dsse conta do estado de sua causa, e
lhe pedisse o aconselhasse no que mais lhe convinha, e por elle
respondesse ao libello da justia, para que, guardados os termos de
direito, se podesse continuar sua causa.

Estando com o dito procurador, contestou o libello pela materia de suas
declaraes, e no quiz usar de defesa, pelo que foi lanado da com que
podia vir, e ratificadas as testemunhas da justia, se lhe fez
publicao de seus depoimentos, conforme ao estylo do santo officio, a
que no veiu com contraditas, pelo que foi lanado d'ellas. E estando
outra vez com seu procurador para lhe formar os interrogatorios que
quizesse, para serem reperguntadas as testemunhas que tinha contra si
no veiu com ellas, dizendo que era desnecessaria diligencia, pois elle
estava declarado e affirmativo profitente da lei de Moiss; e, como a
no negava, no havia para que impugnar os depoimentos das testemunhas.
E n'este acto escreveu um papel que declarou ser o assento que tomava em
sua causa, e comeava pelas palavras seguintes:--_Perditio tua, Israel,
tantu modo in me auxilium tuum, inquit Dominus_.

E logo continuava dizendo que elle reu no s no deixava a crena da
lei de Moiss; mas se declarava crente e professor d'ella pelo theor dos
termos dos autos, e queria ficar em juizo com a crena da lei de Moiss,
na frma seguinte, declarando: Que cria em um s Deus verdadeiro, e que
este era o de Israel, o Deus dos patriarchas e prophetas, que fez o co
e a terra, e fez pacto com Abraho, e deu lei a Moiss, e poz por
primeiro preceito d'ella: _Non habebis alios Deos preter me_. E, como
tal, tinha por damnada crena o christianismo, e por tal a excluia,
abjurava e renunciava, e ainda qualquer signal e caracter d'ella. E
assim elle reu, sem mais processo, queria ser julgado por apartado da f
e por passado  crena da lei de Moiss, mostrando que a differena que
havia entre uma e outra coisa era adorarem os judeus smente a Deus
verdadeiro, e adorarem os catholicos o demonio; dizendo tambem e
accrescentando s ditas declaraes algumas subtilezas e subterfugios
cavilosos, com os quaes se colhia ser o reu verdadeiro judeu e professor
da lei de Moiss.

E sendo o reu chamado  mesa do santo officio, e n'ella perguntado se o
dito papel em que se continham as ditas declaraes era por elle
escripto e assignado, e, se o que n'elle se continha era o que elle reu
entendia e cria, e por elle queria se estivesse em juizo: respondeu que
sim, e por aquellas declaraes queria ser julgado; e sendo, advertido
que fizesse genuflexo, e reverencia  imagem de Jesus Christo
crucificado, que se lhe mostrou, e o inquisidor que o processava
repetidas vezes lhe apontou, nunca o reu quiz ajoelhar nem olhar para a
sagrada imagem, mostrando grande rebeldia e dureza de animo; e sendo de
outras vezes mandado jurar pelos Santos Evangelhos nunca o quiz fazer,
nem assignou mais papel algum onde visse escriptas as palavras _santa
inquisio_.

E pelo reu foi dito que no queria mais procurador nem mais
interrogatorios; por serem desnecessarias mais diligencias, visto que
elle j de si dissera ainda mais do que as testemunhas contra si tinham
deposto.

E continuando-se o processo da sua causa, se procurou em todo o
discurso d'ella mostrar ao reu o caminho da sua salvao e engano dos
seus erros, persuadindo-o  obrigao que tinha pelo baptismo a ter e
crer na f catholica, captivando o entendimento em obsequio da mesma f,
e dar credito nas materias de consciencia e religio s pessoas que lhe
foram dadas para o encaminharem; porque ainda que elle reu tinha algumas
letras, no havia professado as divinas, e como tal no podia explicar
as escripturas sagradas, nem entendel-as como entendiam os religiosos
letrados com quem havia estado, fiando elle mais do seu proprio
entendimento que dos outros, sendo elle n'esta materia ignorante e os
ditos religiosos letrados, de quem se havia de haver por convencido,
pois no tinha fundamento algum para permanecer na crena da lei de
Moiss, que seguia, e por tornar a dizer que se reportava s
protestaes de sua crena contheudas nos papeis que havia escripto.[6]

E lhe foi dito que ainda estava em tempo de melhorar sua causa, se sem
embargo da obstinao de que at alli tinha usado, desistisse d'ella, e,
arrependido de seus erros, os confessasse com taes mostras e signaes de
arrependimento que se podesse entender que elle reu, de puro e
verdadeiro corao, se reduzia  nossa santa f catholica, de que to
cega e obstinadamente vivia apartado, para se poder usar com elle da
misericordia que a santa madre egreja costuma conceder aos bons e
verdadeiros confitentes; que de contrario se seguia infallivelmente o
risco de ver sua pessoa no mais perigoso e miseravel estado que se podia
imaginar, e o que mais era para sentir, a certeza de condemnar sua alma
s irremissiveis e eternas penas do inferno.

E pelo reu foi dito que das sesses, que lhe foram feitas na inquisio
e dos conselhos que lhe deram as pessoas que por ordem da mesma
inquisio haviam estado com elle reu, afim de o reduzirem  crena dos
christos, tinha entendido o perigoso estado de sua causa, e o risco a
que estava exposta sua vida; porm que, sem embargo da perda d'esta, no
podia largar a crena que seguia, emquanto lhe no propunham razes mais
concludentes para se persuadir e apartar-se da lei de Moiss.

E visto como o reu se no quiz haver por convencido de seus erros,
havendo-se dado soluo verdadeira s duvidas que propunha, sendo por
to repetidas vezes admoestado na mesa do santo officio com summa
caridade, paciencia e brandura; e, sendo visto seu processo na mesa do
santo officio, se assentou que o reu pela prova da justia e sua mesma
confisso e declarao estava convencido no crime de heresia e
apostasia, e como herege apostata de nossa santa f catholica convicto,
confesso affirmativo e profitente da lei de Moiss, pertinaz e
impenitente foi julgado e pronunciado, e finalmente citado para ouvir
sua sentena, pela qual estava relaxado  justia secular. O que tudo
visto e bem examinado:

_Christi Jesu nomine invocato._ Julgam, pronunciam e declaram o reu
Heitor Dias da Paz por convicto, confesso variante, e affirmativo
profitente da lei de Moiss, pertinaz e impenitente, e que incorreu em
sentena de excommunho maior, em confiscao dos seus bens para o fisco
e camara real, e nas mais penas em direito contra similhantes
estabelecidas, e como herege apostata de nossa santa f catholica,
convicto, confesso affirmativo, publico profitente da lei de Moiss,
pertinaz e impenitente o condemnam e relaxam  justia secular, a quem
pedem com muita instancia se haja com elle benigna e piedosamente, e no
proceda a pena de morte e effuso de sangue.

      *      *      *      *      *

Heitor Dias da Paz, lida aquella ultima clausula da sentena, fitou
penetrantemente o semblante do promotor e riu-se. Os esbirros
mandaram-no levantar-se, e beijar um dos doze missaes que decoravam a
ampla mesa sotoposta ao estandarte de S. Domingos. O hebreu levantou a
fronte com arrogante desprezo, e disse em voz que se fez ouvir na
tribuna real:

--No quero!

Fez-se um borborinho de piedosa ira na egreja. Esta agitao foi de
subito applacada pelo apparecimento de fr. Francisco de Santa Maria no
pulpito.

Reinava j sagrado silencio, quando o geral dos loyos, e venerado author
do _Anno historico_, trovejou estas palavras do texto: _De malo ad malum
eggressi sant, et me non cognoverunt, dicit Dominus_[7].




V

A piedosa eloquencia do frade


O leitor, que veio tarde a este mundo para poder gosar o espectaculo de
um auto da f, pde ser que no faa cabal juizo da pea chamada o
discurso da festa, e entenda que vem aqui opportuno o ensejo de se lhe
dar alguma noticia do sermo de 1706, por ser elle do ascetico e
sapientissimo auctor da _Aguia do Empyreo_. Pde ser que ainda a muitos
curiosos d'estas christs leituras o sermo de fr. Francisco de Santa
Maria seja desconhecido, por que  j rarissimo. A meu vr, a maior
parte da edio arrebataram-n'a da terra os anjos, como coisa do co!
Dos exemplares que escaparam tenho eu um, que  a minha vaidade de
bibliomano e a minha edificao de devoto.

O prgador, no exordio, prope-se demonstrar tres pontos: primeiro, que
o Messias veio; segundo, que o Messias  homem e juntamente Deus;
terceiro, que o Messias, homem e Deus,  Jesus de Nazareth, crucificado
por aquelles, ou pelos antepassados dos judeus que esto presentes.
Depois do que, implora a intercesso da sacratissima Virgem, e comea.

Eis-aqui um lano que nos move a favor do geral da congregao dos
Evangelistas:

Comvosco fallo,  infelizes filhos de Israel, e tomo para testemunha a
Deus todo poderoso, que no  o meu intento insultar-vos, ou
affrontar-vos em coisa alguma, nem tenho ou levo outro fim n'esta aco,
mais que a maior gloria de Deus, a defensa da verdade, o triumpho da f,
o remedio da vossa cegueira, a salvao da vossa alma; e, se acaso com a
fora do dizer, proferir alguma palavra que vos offenda, desde aqui vos
peo perdo d'ella pelas entranhas da misericordia do verdadeiro e
altissimo Deus.

Heitor Dias da Paz levantou de sobre as pinturas diabolicas do
san-benito os olhos serenos ao rosto do padre Francisco de Santa Maria.
Esteve-se qudo alguns segundos n'aquella contemplao, e sorriu-se, a
tempo que o orador, compungido em fervores de caridade, balbuciava
aquellas expresses, que o leitor pio leu commovido.

Varias pessoas honestas, que viram o sorriso do hebreu, disseram umas s
outras:

--Veremos  tardinha se o marrano se ri na fogueira...

O orador, no emtanto, ia proseguindo na demonstrao dos seus tres
pontos, que foi completissima, sem deixar brecha  mais especiosa
contestao.

Heitor, a cada concluso triumphante do padre, sorria; e, por pouco no
desfechava uma casquinada provavelmente sandia, quando o orador,
repulsando a pecha de idolatras com que os hebreus malsinam os
catholicos, argumentou d'esta sorte: E como  possivel que, sendo ns
idolatras ha tantos seculos, e sendo vs ha tantos seculos cultores do
verdadeiro Deus; sobre vs ha tantos seculos que chovam os castigos, e
sobre ns os favores? Sobre vs os castigos! Bem o vdes, pois vos vdes
ha tantos seculos sem patria, sem honra, sem rei, sem patriarchas, sem
prophetas, sem capites, sem juizes, sem sacerdotes, sem templo, sem
altar, sem sacrificio, sem liberdade. Ns os christos tudo isto temos.
Pois que? favorece Deus tanto aos idolatras, e castiga to rigorosamente
aos fieis?

O impulso de riso do judeu, a meu vr, procedeu da respeitavel
ignorancia do padre quanto s regalias de que os sectarios de Mafoma se
estavam saboreando em poro do mundo sublunar muito mais larga e
comprida que a poro alumiada pelo christianismo. Quereria, talvez, o
israelita, sem embargo de se lhe estarem alcatroando as achas da
fogueira, perguntar ao loyo se os mahometanos, apezar da bruteza e
crassa estupidez de sua f, eram menos felizes terrealmente fallando que
os nazarenos. Ora, como o goso de questionar lhe seria amordaado, se
elle abrisse a bocca indignada, o judeu desafogou-se n'aquelle rir
parvamente heretico. O caso, porm, no fez levemente titubar o
impassivel prgador.

Ia discorrendo o padre Francisco pelas provas dos milagres; e veio ao
ponto de asseverar que Deus no obrara milagre algum em confirmao da
lei de Moyss. D'isto a prova mais insinuante que o douto prgador
desfechou dos labios inspirados est no seguinte argumento:

Todos, ou quasi todos os annos vo muitos de vs ao patibulo, e sendo
diante dos nossos olhos pasto  voracidade do fogo, nunca se viu em
algum de vs algum prodigio. Que  isto? Assim deixa Deus a verdade
escurecida e humilhada?... Agora j o fogo vos no tem respeito? J a
chamma lavra em vs como em madeira secca?

Heitor Dias no sorriu ento: caiu-lhe mortalmente angustiado o rosto
para sobre o peito. As palavras do sacerdote de Christo levaram-lhe s
carnes o calefrio horrendo das dres que o aguardavam para o fim
d'aquelle dia: como que sentiu as linguas de fogo a tocarem-lhe o peito,
e a suffocao da fumarada da fogueira.

Demonstrados os tres pontos da orao com quanta lucidez se esperava de
to conspicuo sujeito, o author do _Co aberto na terra_ apostrophou
primeiro os confessos, depois os relapsos, e por derradeiro o unico
profitente que era Heitor.

Aos confessos dava os emboras, e pedia-lhes pelas entranhas de Nosso
Senhor que perseverassem.

Aos relapsos disse:  verdade que j no podeis livrar a vida temporal;
mas  certo que podeis assegurar a eterna... Morrer  natural: morrer
affrontosa e violentamente  desgraa; mas sobre tudo isto, salvar a
alma,  a maior ventura. Oh, que felizes sois, digo outra vez, se sabeis
emendar com os acertos da morte os desconcertos da vida, e se vos
dispondes com verdadeira f e verdadeira contrio para a ultima hora!

Que bom homem aquelle! O garrote e a fogueira eram indispensaveis 
caridade e misericordia do Senhor; mas que montava isso? _Morrer 
natureza_; morrer em colcho flacido ou em cama de brazas vivas  uma e
a mesma coisa:  natureza; mas o importante alli para o caso j no era
o ir-se um homem de este mundo ao outro por effeito d'um feroz
homicidio: a questo era segurar a vida eternal, e essa estava
arranjada, logo que os relapsos,  ultima hora, se entendessem com Deus
uno e trino.

Em seguida, padre Francisco de Santa Maria poz os olhos sobre o
confitente Heitor Dias da Paz, e exclamou, tanto ou quanto commovido:

E vs, que n'este tremendo cadafalso sois o ro do maior delicto, olhae
que em vs n'esse infeliz estado se verifica com propriedade lastimosa o
que dizem as palavras do meu thema: _De malo ad malum egressi sunt_.
Saireis de seres condemnado no juizo dos homens, e entrareis a ser
condemnado no juizo de Deus. Saireis da morte temporal e entrareis na
eterna. Saireis de um fogo que brevemente acaba, e entrareis em outro
fogo, que para sempre dura. Oh filho da minha alma,  possivel que assim
vos deixeis guiar s da vossa imaginao, e vos ateis to fortemente 
vossa teima em um negocio da tanta importancia? To pouco vae em salvar
ou condemnar para sempre? Quero crer de vs que em qualquer negocio
d'esta vida no havieis de obrar sem conselho, sem reflexo, sem
madureza; e em um negocio, em que vae a vida eterna, assim vos
resolveis, assim vos precipitaes? Nos pontos da medicina (que
estudaveis)  sem duvida que havieis de estar pelo que vos diziam vossos
mestres. Pois, se nos pontos de medicina, vos guiaveis pelo que vos
diziam os doutores medicos, nos pontos da f porque vos no guiaes pelos
doutores theologos, que tantas vezes e com tanto zelo e espirito se
empenharam em vos reduzir ao caminho da verdade?

Dizei-me de que mestres aprendestes essa lei que seguis j to
antiquada e esquecida no mundo? Sem duvida de dois homens ignorantes,
que talvez nunca abriram a escriptura, e talvez no saibam a lingua
latina, e muito menos a hebrea. No o tomeis por injuria--ajuntou o
orador, certamente improvisando, como visse um gesto de repugnancia
desdenhosa e despeitosa no aspecto do confitente--no o tomeis por
injuria...; porque, fundado nas vossas mesmas escripturas, affirmo que
na vossa nao falta ha muitos seculos, por justo castigo de Deus, o dom
da sabedoria, e dominam as trevas da ignorancia.[8]

Estende-se diffusamente o padre, cathequisando o judeu, com a mira posta
em resgatar-lhe a alma, que o corpo esse j no ha eloquencia nem perdo
divino ou humano que possa salval-o do fogo. Finalmente, remata a
apostrophe n'estas branduras:

Ora filho do meu corao, _convertere, convertere ad Dominum Deum
tuum_.

Convertei-vos para o vosso Deus, convertei-vos para o vosso Senhor, que,
abertos os braos, e com o corao aberto, vos espera para vos metter
n'elle como amigo, se do corao vos converteis a elle. Dae este gosto
ao co, dae este gosto  terra, dae este gosto aos coros angelicos e dae
este gosto aos espiritos bem aventurados, dae este gosto a todo este
numerosissimo e luzidissimo auditorio, que todo deseja com muitas veras
a vossa vida e a vossa salvao. Na vossa mo tendes a vida e a morte, a
salvao e a condemnao: vde o que escolheis. E, se todavia persistis
na vossa teima, e na vossa contumacia, da parte de Deus vos digo, que
dentro em breve tempo apparecereis diante do mesmo Deus em juizo, do
qual, sem desculpa do vosso erro, saireis condemnado para o fogo
eterno.

E com pouco mais terminou o monumental discurso, de que ficou muitissimo
agradado o senhor rei D. Pedro II, e seus filhos; e bem assim o
eminentissimo senhor cardeal D. Miguel Angelo Conti, arcebispo de Garzo,
e nuncio apostolico n'estes reinos, ao qual o padre Francisco dedicou o
seu sermo impresso.

D. Pedro II no mais saboreou outro sermo identico; porque, tres mezes
e sete dias depois d'aquella explendida ovao da santa egreja, morreu.

O padre Francisco de Santa Maria, comquanto s passados sete annos fosse
coroar-se ao capitolio dos anjos, como piamente crmos que foi, tambem
no voltou a regalar o publico nos autos da f.

      *      *      *      *      *

Cheguemo-nos ao assumpto. Os relaxados  justia secular foram
conduzidos a uma das salas da santa casa, em que estava junta a relao
para os sentenciar.

A sentena de Heitor Dias da Paz, e dos outros j estava lavrada, embora
fingissem lavral-a depois de um banal interrogatorio. Com ella na mo,
perguntou o presidente ao judeu, ajoelhado:[9]

--Sois o relaxado Heitor Dias da Paz?

--Sou.

--D'onde sois?

--De Villa Flor.

--Credes--tornou o presidente--na Santissima Trindade, Padre, Filho,
Espirito Santo, tres pessoas e um s Deus verdadeiro?

--No creio.

E levantou-se sem que o presidente lh'o ordenasse.

O escrivo, que estivera autoando a sentena, ergueu-se e disse ao
condemnado:

--Ajoelhe para ouvir ler a sentena.

--Ouvil-a-hei em p--respondeu Heitor.

--Leia--disse o presidente ao escrivo.

O escrivo leu o seguinte:

Acordam em relao, etc. Vista a sentena junta dos inquisidores,
ordinario, e deputados da inquisio, e como por ella se mostra o ro
preso, Heitor Dias da Paz ser hereje apostata da nossa santa f
catholica convencido no crime de judaismo, e por tal relaxado  justia
secular, e sendo perguntado n'este senado persistir no seu erro, e
declarar que no cria em nossa santa f catholica, seno na lei de
Moiss; o que assim visto, e disposio de direito em tal caso,
condemnam ao reu que com barao e prego pelas ruas publicas e
costumadas seja levado  ribeira d'esta cidade, e ahi seja levantado em
um poste alto, e queimado vivo, e feito por fogo em p, de maneira que
nunca de seu corpo e sepultura possa haver memoria; e o condemnam
outrosim em perdimento dos seus bens para o fisco e camara real, posto
que ascendentes ou descendentes tenha, os quaes declaram por incapazes,
inhabeis, e infames na frma de direito e ordenao. E pague as custas
d'estes autos. Lisboa, 12 de setembro de 1706.

A procisso dos condemnados saiu do pateo da santa casa, caminho da
Ribeira. As duas judias relaxadas em carne, dizia-se que j iam mortas.
Os dois hebreus, que tinham assistido s leituras de suas sentenas em
anciados gritos, iam desacordados nos braos dos quadrilheiros do santo
officio. Heitor caminhava sem amparo, placidamente, olhando a um lado e
ao outro as damas que exornavam as janellas do transito.

Ao embocar o prestito  rua da Padaria, um ancio mal coberto de
andrajos, com tregeitos de louco enfurecido, rompeu a m compacta do
povo, e os soldados que ladeavam os condemnados.

Heitor Dias reparou n'aquelle velho que os arcabuzeiros afastavam a
repelles. Fitou-o com horrivel estremecimento; ia a proferir uma
palavra, e suffocou-a. Debalde. O grito do corao j tinha ecoado no
seio do ancio, que exclamou:

--Adeus, meu filho! Adeus, meu filho, eu vou antes de ti avisar tua me
que por instantes estars comnosco no seio de Abraho!

E, ao proferir a ultima palavra, sorveu de um vidro um trago de peonha,
ao qual se seguiram medonhas convulses.

--Abenoada seja a sua coragem, meu pae!--exclamou Heitor--At logo, at
 eternidade!

As agonias do velho terminaram dentro em quinze minutos. As do filho
principiavam pouco depois, e no foram mais longas. Antes de sentir o
queimar das lavaredas nas entranhas, expirra afogado no fumo.

E o sol d'aquelle dia era ainda formoso ao intardecer. As auras do mar
bafejavam tepidas. El-rei passeava nas barandas do pao da Ribeira,
aspirando o aroma dos laranjaes; e os frades de S. Domingos resavam
vesperas.




VI

Braz Luiz


N'este tempo, Braz Luiz, o collegial de S. Paulo, ia nos quatorze annos.

A noticia da desastrosa morte dos seus bemfeitores, revelada pelos
condiscipulos, pungiu-o, tirou-lhe d'alma sinceras lagrimas; porm,
n'aquellas edades a sensibilidade  para pouco; as saudades das pessoas
queridas que morreram no se prendem  previso angustiosa das desgraas
porvindouras. O filho de Antonio de S Mouro estava de todo esquecido
do doutor Abreu, e no longe de esquecer-se de Heitor Dias da Paz.

Os mestres do collegio, cuja dileco pelo engenho do moo se
manifestava no affago com que o divertiam de pensar no hebreu queimado e
no outro que se dera a si desesperada morte, receosos de que o santo
officio fosse ainda contender com o estudante por suppor que elle fosse
irmo de Heitor, zelosamente informaram os inquisidores dos piedosos
sentimentos de Braz Luiz, e da docilidade e devoo com que elle se
entregava aos exercicios espirituaes. O santo officio, inteirado d'isto,
deixou em paz e por conta da religiosidade dos paulistas o menino.

Como elle se alimentava e educava a expensas do collegio, o parecer dos
mestres era encaminhal-o para frade paulistano. Este intento, quando o
moo tinha quinze annos, foi contraditado pela companhia de Jesus, que
envira delegados a recensear nas universidades e collegios de Evora e
Coimbra estudantes esperanosos, garfos de boa seiva, que se fossem
enxertando nos troncos envelhecidos, para que alguma hora no soffresse
quebra o predominio intellectual dos filhos de Santo Ignacio.

Os paulistanos offenderam-se do sequestro que os jesuitas
arbitrariamente fizeram nos seus mais grados alumnos; e, por vindicta,
entraram a despersuadir o moo de aceitar a roupeta. Facilmente o
moveram  repugnancia da vida sacerdotal, e assim se privaram tambem de
o conquistarem para si. A companhia de Jesus cathequisava, mas no
violentava. Tamsmente as vocaes liberrimas e muito espontaneas lhe
serviam. Logo pois que Braz Luiz manifestou indisposio para a vida
sacerdotal, abriram mo d'elle os jesuitas, offerecendo-lhe, se
necessarios fossem, recursos com que podesse seguir a carreira para onde
pendessem os seus talentos. Quer generosidade, quer astucia com que os
padres ardilosamente grangeavam a estima quasi universal, o certo  que
Braz Luiz teria a proteco d'elles, se no tivesse a dos paulistas.

Deram-lhe a opo de modo de vida. Braz escolheu a medicina.

Aos quinze annos matriculou-se no primeiro do curso depois de ter
estudado artes, e logo deu de si to lisongeira conta, que se estremou
entre os condiscipulos, ganhando as distinces das escolas, a estima
dos mestres, e especialmente de D. Manuel dos Reis e Sousa, a quem o
discipulo dos seus futuros escriptos se mostrar agradecido.

Ao correr do terceiro anno, a indole do academico passou por inesperada
revoluo. Sem faltar s obrigaes escolares, deu-se  tunantaria dos
estudantes malcomportados. Fez-se arruador nocturno, bulhento, femieiro
e pimpo. Os paulistas ameaaram-no de o deixarem entregue aos seus
desatinos. Braz Luiz respondia s ameaas dando optimas lies nas
aulas, e ganhando os louvores dos lentes, sem desistir de tomar o
primeiro posto nas algazarras e assuadas nocturnas.

Em uma d'essas escaramuas  cidade baixa, travou-se uma refesta
ensanguentada entre a gente miuda de Coimbra e os estudantes. Braz,
depois de muitas proezas, cau ferido de uma choupada, que lhe vasou o
olho direito. Alguns condiscipulos levaram-no em braos para sua casa, e
lhe assistiram affectuosamente  cura. Salvaram-no da morte: mas no
poderam salvar-lhe o olho.

Depois de dois mezes de cama, o estudante recebeu a m nova de ter
perdido o amparo dos frades. Accudiram logo os condiscipulos fintando-se
para supprirem a esmola do collegio, Braz proseguiu na formatura, e no
mais foi visto nas sortidas bellicosas, como quem j no tinha mais que
um olho para sacrificar. Os paulistanos, contentes da reforma do seu
protegido, voltaram a soccorrel-o; porm, o pundonoroso academico,
reunindo os seus condiscipulos favorecedores, expoz a reluctancia com
que aceitaria a esmola dos frades, e a satisfao com que continuaria a
recebel-a de estudantes. Applaudiram-lhe o brio, e animaram-no a
regeitar o po vilipendioso dos paulistas.

Em 1714, tomou Braz Luiz d'Abreu gro de licenciado em medicina. A razo
que elle teve para assignar-se _Abreu_ funda n'uma casualidade de que
resultou enganar-se Barbosa na sua _Bibliotheca Lusitana_, dando Braz
Luiz como filho de Francisco Luiz d'Abreu e Francisca Rodrigues
d'Oliveira. Foi o caso, que folheando elle o abcedario por onde comera
a soletrar, muito na primeira puericia, em companhia do seu primeiro
protector, encontrou o seu nome assim posto no alto da primeira pagina
do alphabeto: _Braz Luiz de Abreu_. Assim o escrevra a esposa do
doutor, n'uma d'aquellas horas de ternura, em que ella encarava no
menino como em filho propriamente seu.

Ahi est onde ao medico se deparou um apellido, que elle no sabia
d'onde lhe havia de vir, por mais que discorresse sobre o modo de
rastrear seu nascimento. N'este investigavel mysterio o que a si mais
provavel se figurava era que seu pae devia de ser um homem apellidado
_Abreu_; mas como esquadrinhar-lhe a naturalidade, as aventuras da vida
ou da morte? Em Coimbra no havia para que indagal-o; porque elle no
tinha sequer vaga lembrana de ter estado em Coimbra nos primeiros
annos. Todas as suas lembranas esboavam-se dos sete annos para quem.
Terra que no fosse Coimbra s escassamente se recordava de Villa Flor;
e imagens de pessoas, duas smente lhe viviam meio delidas na lembrana:
eram Francisco de Moraes e Heitor Dias da Paz.

Um condiscipulo de Mirandella encarregou-se de averiguar-lhe algumas
noticias de seu nascimento em Villa Flor. As tradies encontradas alli
eram que uma creana apparecra em casa do hebreu Moraes, ao tempo que
seu filho voltou da Hollanda. Parentes ainda vivos d'aquelles israelitas
no sabiam dizer nada a tal respeito. O que o condiscipulo informador
accrescentou foi que dos muitos haveres do hebreu suicidado no havia
palmo de terra que a inquisio no confiscasse.

Habilitado para exercitar a medicina, comquanto lhe sobrassem creditos
de grande estudante, faltavam-lhe doentes.  mingua de recursos, pensou
em estabelecer-se n'alguma terra desprovida de medicos. Um seu
contemporaneo da faculdade juridica convidou-o para Vizeu, onde o
encontrmos curando com muita voga e felicidade em 1715 at 1718[10].

No fim d'este anno, como a sua fama o atraia e a cobia o impulsava para
terras de mais gloria e lucros, passou a residir em Lisboa. Aqui e
n'este mesmo anno comeou elle a olhar tristemente para a deformidade
que lhe deixra no rosto a choupada, e achou-se no s feio, se no
repugnante a olhos de damas, que se engulhavam de lhe verem a orbita
direita vasia e coberta pela palpebra amortecida.

Cogitou o medico em arranjar um olho artificial, com que encher a orbita
nauseenta e dar contractibilidade apparente  palpebra. Investigou a
sciencia e encontrou que os gregos e egypcios fabricavam olhos
artificiaes, formando-os de uma casquinha metalica, pintada ou
esmaltada, similhante a uma metade de ovo pequeno, dividido
longitudinalmente. Este primitivo e pouco engenhoso olho no agradava ao
nosso joven medico. Indagou no estrangeiro, e de Hollanda o informaram
que estava em Amsterdam um hebreu inventor d'olhos artificiaes de
esmalte, com a qual materia substituira vantajosamente os metalicos.
Entendeu-se Braz Luiz de Abreu com o inventor hollandez, e ajustou na
orbita um olho, menos mal imitado, mediante o qual a palpebra voltou 
sua elasticidade.

Este olho de esmalte era immovel: bastava encarar na cara do medico para
logo se conhecer que a orbita direita estava envidraada. D'ahi
seguiu-se chamarem-lhe o _doutor Olho de Vidro_, alcunha que lhe ficou
at  morte, e longos annos depois serviu de celebrar-lhe a memoria, a
magnitude dos talentos medicos e os seus no menores infortunios.

Como quer que fosse, a physionomia do doutor Braz Luiz, no obstante a
pouca illuso que embahia o falso olho, melhorou bastantemente.

O restante do caro, como diziam os coevos d'elle, era seno gentil, mui
symetricamente ageitado. Vestia com apontado primor, e cuidava com
esmero das melenas negras e lustrosas, que no polvilhava. A razo
d'este proceder, to inverso dos costumes do seu tempo,  elle quem
propriamente a escreve d'este modo: ... Emquanto aos polvilhos, to
longe esto de parecerem ornato na cabea do medico, que antes so
presagios lethaes da vida do doente. Porque se a egreja com ps na
cabea nos adverte da morte que vem, como o medico com ps no cabello
nos ha de recuperar a vida que se vae? Eu, quanto a mim, antes creio
que, os ps so significativos da morte, emquanto a egreja nol-o diz, do
que hierogliphicos de saude respeitando ao medico que os traz. Os
verdadeiros ministros d'Apollo s usam de polvilhos cephalicos na regio
animal; de polvilhos cordeaes na regio vital; e de polvilhos
estomachicos na regio natural. Isto  uso modesto; o mais, estava para
dizer que era abuso ridiculo.[11]

No curemos de ponderar a justia das razes que o doutor allega contra
os polvilhos. Imaginando que os collegas de Braz Luiz se riram muito
d'ellas, fao justia aos contemporaneos do auctor do _Portugal medico_.

Tambem desadorava os perfumes o nosso doutor, n'aquelle tempo em que o
peralta de bom cunho recendia como caoula de camarim de odalisca. Outra
razo efficientissima do seu enojo de perfumes: Sou de parecer que (o
medico) evite os cheiros, e que se negue a todo genero de perfumes,
porque ainda que Hyppocrates no seu tempo permittia os que no eram
suspeitos aos achaques, comtudo n'este seculo mais escrupuloso por mais
prevertido, nenhum genero de perfumes cheira bem... Deixemos esses
esmeros para os que vivem  moda, e no excedamos a moda, que nem porque
um medico cheira bem, cura melhor.[12]

Em adornos capillares aceitava o doutor meramente os naturaes: usava
simplesmente a sua opulenta grenha, nua de artificios e emprestimos;
porque dizia elle: Seja tambem modesto o medico nos adornos da cabea,
to introduzidos n'este miseravel seculo, que no ha j encontrar
solicitador sem cabelleira nem belleguim sem perruca. E acrescentava:
Quantos desprezam e cortam hoje o honesto cabello de christos e
collocam sobre a cabea as melenas de um herege![13]

O vivo desejo que Braz Luiz de Abreu alimentava de reformar as demasias
luxuosas e derisorias dos medicos, tornou-se em justa indignao, e a
indignao porventura fel-o poeta como ao satyrico latino. Um dos mais
intelligiveis sonetos que elle escreveu em tom apostolico salvou-se do
olvidio, graas ao acertado cabimento que lhe elle deu n'um seu livro de
medicina. Resa d'esta sorte:

  Oh, medico! se s medico com effeito
  Procura mundo[14] ser, mas no mundano;
  Que de Apollo o caracter soberano
  No anima nos vicios o respeito.

  Bebe o co, bebe tu; mas com tal geito
  Que o crocodilo do rumor profano
  Quando vs a beber do Nilo humano
  No possa devorar teu bom conceito.

  Em teu ornato a modestia nunca falte,
  Um pouco mais ao grave do que ao lindo;
  Que assim obra quem douto assim discorre.

  E porque a tua fama mais se exalte,
  Visita a modo de quem vae fugindo,
  Como do Nilo o co, que bebe e corre.[15]

O desgracioso da musa do Olho de Vidro est delatando que o poeta, se
no era menos de pedestre, poetava violentando sua indole. O natural
d'elle era outro. A meu juizo, tanta prudencia e bom conselho no mais
verde da mocidade, argue um alis louvavel cuidado de se fazer bemquisto
aos homens graves do seu tempo. , de mais d'isso, muito provavel que o
medico se temesse de que os rafeiros do santo officio lhe andassem
farejando o sangue; e elle, a contas com a consciencia propria, duvidava
da pureza de seus incognitos paes, ao lembrar-se do ritho hebraico dos
bemfeitores de Villa Flor. Se os elle no conhecia, quem lhe asseverava
que a inquisio os no conhecesse? Se lhe pedissem a certido do
baptismo, onde iria elle esquadrinhal-a?




VII

Exemplo de honestidade aos medicos


Quer fosse sisudeza, quer hypocrisia, Braz Luiz de Abreu, que ento
contava vinte e cinco annos, assim que o amor lhe abriu o peito com seus
magicos dedos, sacudiu a canga do artificio e mostrou-se homem genuino.
Deu elle tento de que os seus collegas todos eram familiares do santo
officio, e todavia amavam a rosto descoberto; e, nas casas onde
entravam, contra a prescripo do soneto, no procediam exactamente

  Como do Nilo o co, que bebe e corre.

Ora, como elle, de espao, fosse vendo que a inquisio vivia
despreoccupada d'aquelles ces do Tejo que bebiam muito devagar,
bandeou-se com elles, e atirou o corao s tempestades dos vinte e
cinco annos, resalvadas as apparencias.

A primeira dama que se quiz senhorear da alma do seu medico, era uma
fidalga quarentona, ainda vistosa, affeita a ser beijada na face por
bons galans que se ajoelharam diante d'ella at aos trinta annos, e se
purificaram da idolatria, desde que as flores do rosto, desbotadas pelo
caio, e os cabellos ressequidos pelo ferro se foram despegando d'aquella
cabea rica de formosas tradies. Estava literalmente calva.

D. Claudia da Silveira, logo que se julgou encarada voluptuariamente
pelo olho unico do seu medico, levou a mo ao peito e sentiu-se arder.
Desde essa hora os achaques eram tantos e tamanhos que Braz Luiz
escassamente se podia desobrigar de acudir-lhe tres vezes por dia com
agua de Inglaterra, com pedra cordeal de Gaspar Antonio, ou com agua de
lingua de vacca, antidotos de sua predileco contra os estherismos e
enchaquecas da senhora D. Claudia da Silveira.

A dama, cada vez mais enfermissa, tornra-se a desesperao da medicina
gallenica. Dos linimentos  chaga interna que lhe cancerava as
entranhas, um smente dera satisfatorio resultado: era a presena do
medico, o tatear d'elle no pulso arreado de manilhas, o apalpal-a nas
costellas sobre e sub-jacentes ao corao. No corao nomeadamente  que
ella dizia ter a morte, o morder e repuchar de dentes e garras do que
quer que fosse. Resolveu o doutor que lhe dessem uma untura anodyna
sobre a parte magoada. Resistiu a dama, quando viu a aia arremangar-se
para o acto, e exclamou, repellindo a criada:

--No consinto mos estranhas no meu corpo! Antes a morte!

Braz Luiz de Abreu empenhou calorosas razes a persuadil-a, cuidando
sinceramente que a dama soffria dolorosissimas palpitaes. Da
austeridade de medico passou s branduras de amigo que muito lhe devia,
porque a paga era mais que prodiga, e chegou a pedir-lhe consentimento
para ser elle quem lhe friccionasse o seio.

Muito rogada e como incendida em pudor virginal, consentiu D. Claudia,
referindo a sua condescendencia no tanto ao amor da vida, como ao
horror de morte assim atribulada.

O leitor conhece decerto aquella passagem de um livro do padre Manuel
Bernardes, em que se conta o caso de S. Effrem estar com uma das mos
untando o peito de uma formosissima mulher, que tinha parte de demonio
tentador do santo, emquanto assentava a outra mo sobre um brazeiro para
ir assim com as dores quebrantando os mpetos da materia bruta, as
_fervenas da carne_, como n'outro caso diz o mesmo padre oratoriano.

D. Claudia da Silveira verdadeiramente no tinha parte de demonio;
porque o medico lhe deu a untura anodyna com tanta serenidade e
quietao de corpo e alma, que s isso lhe bastaria a ganhar o co, se a
mulher fosse documento para merecel-o e argumento para pedil-o.

Operou o linimento muito devagar, segundo o medico ia entendendo da
brandura dos ais e alquebramento da enferma. Afinal, cessaram de todo os
gemidos por um suspirar descanado que parecia descair em dormir
restaurador das foras extenuadas.

Braz Luiz de Abreu ficou vaidoso do seu triumpho, e despediu-se da dama,
que lhe acenou de mo e cabea to levemente como quem a custo o fazia,
vencida do turpor do somno.

Assim que elle voltou costas, D. Claudia sentou-se na cama, bracejou
enraivecida, e despregou a murros phreneticos uma cortina adamascada que
lhe ondeava por sobre o espaldar do leito.

Accudiu a aia a querer continuar a untura. A fidalga quiz atirar-lhe 
cara com a taa do anodyno, e sentiu-se sinceramente febril.

A aia avisou o fidalgo, cunhado de sua ama, d'aquellas furias em que
estava a senhora. O fidalgo, avesado a taes manhas, respondeu com
magnanimidade indicativa da probidade austera d'aquella familia:

--Manda-lhe chamar o Olho de Vidro.

--Mas elle ainda agora saiu, senhor!

--No importa: que torne a entrar, que torne a sair, que entre de novo,
que faa o que ella quizer, comtanto que eu no ature minha cunhada
Claudia.

Assim se fez.

Braz Luiz acabava de entrar no seu gabinete, para escrever no caderno de
observaes a rapida cura das convulses de corao de D. Claudia com
unturas de enxundia de pato e oleo de assucenas, quando um lacaio dos
Silveiras o chamou a toda a pressa para a fidalga.

O medico praguejou mentalmente contra a sua dadivosa doente; mas foi.

Encontrou-a convulsiva e escarlate, debatendo-se n'uma poltrona. Era
ainda a dr do corao que lhe estava destroando o peito. Fallou o
doutor em ventosas sarjadas. A dama expediu in continente (sem
calemburgo) tres gritos estridulos contra as ventosas.

--Pois no, minha senhora!--accudiu o medico--no faremos uso das
ventosas, at mesmo porque a convulso se vae distendendo aos membros, e
receio que se torne geral. Eu vou receitar; mas requer tempo o preparado
do remedio. Senhora Anacleta--continuou o doutor voltando-se para a
criada grave--mande procurar um pato gordo; ordene que o matem,
depennem, e limpem das entranhas; e depois remetta-se o pato ao
boticario com a receita que vou escrever[16].

  RECIPE. Recheie o pato com salva, mangerona an. Manip. j. gomma amoniaco
  e Bedelio an unc j. Calamo aromatico, noz moscada, flr da mesma, e
  cravinhos da India an. unc. semiss. o que tudo primeiro se pize em
  almofariz, e se amasse com oleo de minhocas, e assim se introduza no
  ventre do pato, que se coser com linha, se ponha a assar, e o que
  destilar se receba em um vaso meio de vinagre, com cujo pingo e gordura
  se unte o corao.

                                                                     ABREU.

Depois, sentando-se ao p da doente algum tanto melhorada das
convulses, ajuntou:

--Se este admiravel remedio no produzir o almejado effeito, asseguro a
vossa senhoria que em casos analogos me tenho dado excellentemente com
os banhos de azeite puro, e melhor ser se antes se tiver cozido n'elle
uma raposa[17].

--Uma raposa, doutor!--exclamou a dama engulhosa--uma raposa! Que
immunda coisa!... Onde hei de eu ir buscar a raposa?

--Que desejar vossa senhoria que no apparea, minha senhora! Qualquer
caseiro das suas terras do Alemtejo ou Beira, com ordem de vossa
senhoria, caar raposas, que so mirificamente medicinaes.

--Anjo bento! raposas medicinaes!...--volveu D. Claudia, e abriu um
sorriso jovial,  volta com um gemido, como se o picar subito da dr a
no deixasse rir francamente.

--Parece-me que est mais alliviada...--disse o medico.

--Um poucachinho...

--Pois as virtudes da raposa so miraculosas, minha senhora--proseguiu
elle, confiado na efficacia da distraco.--A lingua da raposa trazida
ao pescoo refora a vista. As mos d'ella trazidas ao pescoo preservam
do quebranto.[18]

--Do quebranto!...--murmurou D. Claudia da Silveira--Ai! doutor, ha
quebrantos sem cura! Ha arjos que em pegando da gente o remedio 
morrer.

--Feitiarias, quer dizer vossa senhoria? No  tanto assim. Contra
esses temos os prodigiosos alexipharmacos da santa egreja catholica.

--Bem sei, bem sei--balbuciou a dama, com piedoso gesto.--No  d'esses
que eu tenho medo. O meu santo Antonio me defender... Ha coisas peiores
do que isso n'este mundo... coisas que fazem perder a cabea  creatura
mais ajuizada. Tenes e protestos no montam nada. Que me faz a mim
dizer: no hei de pensar mais n'isto ou n'aquillo? Apega-se a gente com
todos os santos. Fazem-se rezas e promessas. Lembra-se tudo quanto ha de
mo... E, chegada a occasio, tanto faz como nada! Ai!--suspirou ella,
pondo as mos ambas sobre o corao.--Ai!... pobres mulheres!... S vs
sois as fracas... as peccadoras... no  assim doutor?

Braz Luiz de Abreu, que n'este lano estava espreitando de soslaio uns
olhos que o espreitavam por entre o reposteiro--os olhos da engraada e
trigueira aia de D. Claudia--por pouco no  surprehendido pelo relance
da fidalga, que o fitou muito no rosto, com ar interrogador.

-- assim, minha senhora,  assim--balbuciou elle.

-- assim, --tornou ella--E que remedio sabe vossemec para estes
quebrantos, doutor?

-- conforme...--tornou Braz Luiz, sem atinar com a resposta
conveniente, porque s n'aquelle instante percebera, com despeito de sua
vaidade de medico, a enfermidade da fidalga.

-- conforme, disse vossemec doutor...--volveu ella, anciosa de
entender as reticencias.

--Sim, minha senhora... Ha varios modos de possesso, alm dos
conhecidos nas demoographias...

--Mo entendo isso--atalhou a fidalga--Pois a paixo d'alma tambem 
feitio?

--Se no ...--balbuciou o doutor.

--Leva as mesmas voltas--accudiu prestes D. Claudia, e proseguiu expondo
com pouquissimo resguardo de sua honestidade as diabruras que o amor
tinha feito em senhoras de sua amizade, no poupando na relao das taes
diabruras secretas as suas mais proximas consanguinaes, e algumas
impudicicias muito reconditas da crte da primeira mulher de D. Pedro
II, com a qual vivera nos primeiros annos de sua mocidade.

Ao correr d'esta narrativa, D. Claudia reparou no abstrahimento do
medico, cujo olho, de instante a instante, punha fito ao reposteiro, e
como que procurava pascer-se deleitosamente em qualquer cousa de fra.

Assim prevenida e desconfiada, esperou azo, voltou a cabea ao lado
opposto da porta, retorceu-a rapidamente de novo olhando ao local
suspeito, e entreviu a cabea da sua criada grave Anacleta, por quem
doidejavam quantos fidalgos novos e encanecidos a visitavam.

--Ol!--exclamou ella, erguendo-se de salto--Agora entendo!--E, correndo
ao reposteiro, afastou-o de repello, e disse iracunda:

--Anacleta! j hoje no dormes n'esta casa. Rua! No quero testemunhas
nem espies do que se diz no meu quarto. Rua!

E, tornando com solemne passo para junto de Braz Luiz de Abreu, que
assistia corrido quelle conflicto, disse-lhe:

--E a hypocrisia de vossemec, senhor doutor!... A feitiaria da minha
criada tambem se cura com os prodigiosos _no sei que_ (o doutor tinha
dito alexipharmacos) da santa egreja catholica? Que hypocritas so
estes medicos!...

E cacarejou uma risada secca.

--Pois que?!--tartamudeou o doutor, enleado at  irriso.

--Eu logo vi!...--disse a fidalga, como em praticas de soliloquio
comsigo mesma.--A promptido das visitas... est explicada... Assim
devia ser. L com l, no falha o dictado. Cuidei que as minhas criadas
serviam smente aos meus criados. Bons tempos, em que os medicos se no
sujavam com amores de servilhetas...

--Oh! senhora D. Claudia!--atalhou o pundonoroso doutor--vossa senhoria
est-me insultando... perdoe-me dizer-lh'o, porque nunca cuidei de dizer
isto a pessoa de sangue to illustre... E, de mais, cavalheiro que tal
diz a uma dama, no deve mais voltar  presena d'ella.

E, tomando o chapo e bengala, fez uma arqueada cortezia.

--Faa o que quizer, doutor!--disse ella abespinhada, com o n esterico
nos gorgomilos--Faa o que quizer que vossemec se arrepender...

Braz Luiz de Abreu saiu offegante de despeito e tedio de D. Claudia da
Silveira.

--Que tal est a pellada!--dizia elle de si para comsigo--A impudica!...
E eu dar-lhe as unturas com a boa f do mais soez enfermeiro! Chibata 
que ella precisava nos lombos ociosos!...




VIII

M sina de poetas


Passados alguns dias, differentes pessoas da intimidade do doutor lhe
segredavam que D. Claudia fazia correr que elle fra expulso da casa dos
Silveiras, porque andava cortejando a aia grave da fidalga, sem respeito
ao que devia  illustre enferma, e ao que devia  sua dignidade de
medico. Os amigos aconselhavam-n'o, se queria ser recebido em casas de
primeira plana, abster-se de galantear criadas, principalmente se as
amas, como D. Claudia, queriam ser antepostas s suas servas.

A calumnia era toleravel, porque em verdade, a frescalhona Anacleta era
uma das sete criadas graves, para as quaes o doutor olhava com a fixidez
de quem s tem um olho. Assanhou-o, porm, o susto de ver-se banido das
casas, onde tinha os seus prezadissimos, bem que faceis amores, afra as
doentes mais rendosas.

O ciume de Claudia mais o exasperou ainda; por que a historia, em que
elle figurava ridiculo, era contada entre as familias s gargalhadas.
Enraivecido, cogitou na imprudencia de fazer rir os amigos  custa da
fidalga. Figurou-se-lhe que o mais contundente ltego era a satyra em
verso. No teve amigo que lhe aconselhasse juizo e discrio, como
convinha  gravidade do seu officio, e ao melindre da poderosa parentela
de D. Claudia. Escreveu, e deu copias a diversos amigos das seguintes
quadras:

  A UMA PELLADA

  Mulher, n'esse teu desgarro...

Convm saber, antes de ir vante, que D. Claudia, como se quizesse
attrahir aos ps a atteno das pessoas, que lhe reparavam na cabea,
costumava estar sempre calada de sapatos bordados a fio de ouro. As
mais fidalgas chanceavam-n'a, na ausencia, por causa dos sapatos, e
propalavam que o Olho de Vidro se deixra algum tempo fascinar dos
aureos chapins da escalvada dama. Sabido isto, no ha j commentarios
que aditar  poesia.

  Mulher, n'esse teu desgarro,
  Um Nabuco s vessas s;
  Porque, tendo d'ouro os ps,
  Tens a cabea de barro.

  Se alguma pedra travea
  Te quizesse derrubar
  Era preciso acertar
  Mais que nos ps na cabea

  Por que, se pelo mais fraco
  Estalla a corda mais grossa,
  Quem quizer que estalles, _moa_,
  Ha de cascar-te no caco.

  Mais flammantes do que um ouro,
  Mais liza do que uma ostra,
  A cabea a coura mostra,
  Os ps vo mostrando o couro.

  Dize-me com que destino,
  Mesclas n'essa estatua van
  Entre affectos de christan
  Heresias de _Calvino_?

  Sem monho, e com cara alva
  Sahes a toda a occasio;
  E vejo que tens raso,
  Porque a occasio  calva.

  Sendo mal encabellada,
  Para que andas, dize,  pella,
  Se ninguem por ti se pella
  Por mais que venhas pellada?

  Vae-te, e pede a Deus,  louca,
  Que te d com toda a pressa,
  Cabellos para a cabea
  Em vez de po para a boca.

  Ao padre nosso  porfia
  Pede que te encabellise;
  E em vez de _po nosso_, dize:
  _Cabellos de cada dia_[19].

Multiplicaram-se as copias e as gargalhadas; no tardou, porm, que
sobreviessem os despeitos, por que muitas familias, que tinham rido,
estavam aparentadas com D. Claudia. Chegou  noticia da dama a zombaria.
Foi tanto mais funda a punhalada quanto ella amava ainda o doutor.
Odiou-o de morte; no relevava, porm, a soberba da fidalga que ella se
dsse por ultrajada.

Conjuraram, de repente as familias de melhor lote contra Braz Luiz. Os
amigos evitavam-no com subterfugios. Os inimigos, collegas d'elle,
deploravam que um seu consocio no sagrado mister da medicina os
desdourasse. A tempo conheceu o doutor que tinha caido em descredito: e
mdo tambem de cair trespassado por algum fidalgo estoque no lhe
faltou.

Fez logo conta de sair de Lisboa, cortando por fibras muito sensiveis do
peito. Do plano  execuo mediou algum pouco tempo, em que Braz Luiz,
recolhendo alta noite, esteve a pique de ser assassinado por uma
arcabuzada, cujos pelouros lhe crestaram os bofes da camisa.

Desappareceu o Olho de Vidro de Lisboa, e estanceou alguma temporada por
Coimbra, onde assistiu  impresso de um seu livro em castelhano,
intitulado _Aguilas hijas del sol, que buelan sobre la luna.
Representacion comica, tragica, triumphal de la inmorable victoria
gloriosamente alcanada por las aguilas impiriales contra las nocturnas
aves ottomanas en el campo de Peter-Varadin, dia 5 de agosto ao
1716._[20]

A mim contentou-me a leitura do titulo, e dispensei-me de ver o restante
para ir jurar que deve ser sobre-excellente um livro que se chama
_Aguias filhas do sol, que voam sobre a lua_. E, como se isto no fosse
j recommendao  obra, acresce-lhe o merecimento de ser _representao
comica, tragica e triumphante_. Um livro assim, e os applausos com que a
peninsula provavelmente o victoriou, deviam ser para o doutor larga
compensao dos dissabores com que saira de Lisboa. No ha ahi chaga em
peito de homem illustrado que resista ao balsamo do talento.

Passou Braz Luiz de Abreu ao Porto, fazendo teno de estabelecer-se na
segunda cidade do reino. Deteve-se em Aveiro alguns dias; e passeando
scientificamente pelos arrabaldes da villa, descobriu a planta do ch,
nascida em barda por aquelles maninhos. Consta-me que os aveirenses, de
certo ignorantes do descobrimento do medico, ainda agora compram para
seu uso o ch da China, como se no tivessem alli  mo a erva de que
elle se faz. Aqui lhe transcrevo as palavras de Braz Luiz, e muito fao
em prova do meu desprendimento de bens de fortuna, se no iria eu
propriamente colher a erva, comprar os maninhos, e senhorear-me de
Aveiro em poucos annos. Aqui est a noticia: Na villa de Aveiro, e em
todas as suas visinhanas nasce uma erva, a que os naturaes chamam _erva
formigueira_, porque pisada tem o cheiro como de formigas pisadas; e a
ha em tanta quantidade que podem carregar-se navios d'ella. Esta tal (ao
meu entender)  o verdadeiro _ch_ que vem da China e do Japo; no s
porque a experiencia descobre n'ella as mesmas virtudes do _ch_; mas
tambem porque mandando-se da India a Gonalo de Sousa de Menezes,
morador na sua quinta de Salreo, a semente do legitimo ch, elle a
mandou semear com todo o cuidado, e nasceu a mesma erva de que aqui se
acham revestidos os campos e os comaros.[21]

No ha duvida nenhuma: o ch da India  a _erva formigueira de Aveiro_.
E dizem que ns, os portuguezes, no somos gente para descobrimentos! O
que ns somos  uns prodigos e despreciadores dos mananciaes de riqueza
que a Providencia nos offerece como a filhos seus dilectissimos. Se
alguma companhia entrasse em explorao d'aquella mina, quem sabe se,
fechados os portos  erva indiatica, poderiamos ainda com o nosso ch
amortisar a divida externa, e metter a Europa n'uma infuso de erva
formigueira? Razo tinha o patriota doutor Olho de Vidro, quando em
seguida  noticia, que os coevos menosprezaram, ajuntou: Quem quizer
indagar-lhe os prestimos, com facilidade o pde fazer, se acaso no fr
do genio d'aquelles que fazem eterno capricho de preferir sempre as
coisas estrangeiras s nacionaes e domesticas.

Transferiu-se Braz Luiz para o Porto, ao comear o anno de 1718.
Estreiou-se auspiciosamente. Aambarcou a clinica dos mais acreditados,
e manteve-se com recato e honra no tocante s venialidades do corao,
tomando em conta o muito que lhe importava desmentir a m fama grangeada
em Lisboa.

No fim de seis mezes, offereciam-se-lhe vantajosos enlaces com raparigas
bonitas de sua pessoa, rubras e sadias d'aquelle antigo sangue e pojante
saude do Porto, e demais a mais, ricas, das mais ricas das ruas dos
Pellames, Congostas e Mercadores.

No se atrigou com a felicidade das propostas. Sobrava-lhe dinheiro,
estipendio das suas curas estupendas com inxundia de pata, olhos de
minhocas, agua benedicta de Rulando, olhos de caranguejo e esterco de
rato fresco.[22] O corao cedia  freima com que elle trazia empunhada
a cabea em estudos medicos, estudos poeticos, toda a casta de sciencia,
como sujeito que tinha em vista a immortalidade, de que a sua memoria,
se est gosando e gosar, emquanto o seu _Portugal Medico_, e a sua
_Vida de Santo Antonio_ e este meu romance forem livros conspicuos.

Em outubro de 1718, chegou ao Porto uma senhora da Beira Alta, muito
adoentada, trazendo em sua companhia uma filha. A enferma, desenganada
pelos medicos na sua terra, ia procurar, como em ultima estancia, a sua
cura na milagrosa reputao de Braz Luiz de Abreu.

Chamava-se a doente D. Antonia da Piedade, e a filha D. Josepha Maria de
Castro. Aquella senhora tinha visto muito mundo, queria contar ao seu
medico extraordinarios lances da sua vida; mas as dores incessantes
apenas lhe davam tempo para gemer, no obstante os esmerados disvelos do
doutor. Os padecimentos recrudeciam, quando  pobre senhora lhe acudia a
lembrana de que deixava n'este mundo sua filha desamparada, sem
parentes, bem que ella os tivesse ricos. Bem quizera Braz Luiz, com a
alma poetica e affectuosa que tinha, entrar no segredo d'aquellas duas
vidas; mas as reservas das senhoras impunham respeito e calavam-lhe de
prompto as investigaes indelicadas. D. Josepha Maria tinha vinte e
trs annos; era formosa, extraordinariamente instruida, fallava a muito
custo a lingua portugueza, e com sua me expressava-se sempre na lingua
franceza. Braz Luiz de Abreu no se deteve a perguntar ao seu espirito
se lhe convinha amal-a; amou-a impetuosamente, desde que a viu; amou-a
perdidamente desde que a ouviu.

D. Antonia falleceu no principio de novembro. As suas ultimas palavras 
filha foram estas: Perdoa-me ter-te eu dado o nascimento, desgraada
menina. Agora, que vae morrer a mulher maldita dos seus, vae tu procurar
os teus parentes, e diz-lhes que no s culpada dos delictos de tua
me. Braz ouvira estas palavras, e disse, ajoelhando ao p da filha:

--Abenoae a nossa unio.

--Eu vos abeno, meus filhos--murmurou a moribunda.




IX

Poeta e moralista


Casaram.

As delicias do noivado agoiravam santos prazeres de toda a vida.

O esposo entrou nos segredos d'aquella familia, imperfeitamente
referidos por sua mulher, que os no sabia bem contar. O essencial da
historia era ter ella sangue judaico, e ter nascido no desterro, onde se
finou seu pae. Lances d'estes eram vulgarissimos n'aquelle tempo.
Declarou ella que sua me no se chamava Antonia, nem o seu appelido era
Castro. O mysterio, a perseguio, a formosura, a indole meiga, tudo
cooperou a robustecer o amor de Braz Luiz, que, desde a hora de marido,
comeou a contar os seus dias de vida.

Tinha vinte e seis annos elle. Mais que nunca lhe inundaram alma
enchentes de poesia. Os sonetos rompiam como lavas e aos pares. Um
conservou elle no seu livro de medicina. E que engenhosa maneira de
mandal-o  posteridade! Como no era coisa bem cabida um soneto de
amores conjugaes entre duas receitas para conservar os cabellos,
attribuiu como feito aos cabellos de Maria Santissima o soneto com que
eternisra as madeixas de sua mulher. Vejam como elle o diz, querendo
encarecer a formosura de um opulento cabello: Temos um heroico exemplo
na Magdalena, que ainda dos mesmos cabellos, que lhe cresciam, formou
toalha para enxugar os ps de Christo lavados com suas lagrimas...
Veneremos a profunda humildade de Maria Santissima mysticamente figurada
n'aquelle cabello admiravel, em o humilde discurso d'este

  SONETO

  Teus cabellos, teus olhos basta vel-os,
  Compondo o rosto teu, que ao sol prefere,
   minha esposa, porque a f venere
  A amorosa ambio de pretendel-os.

  Nem porque muitos so chego a querel-os,
  Antes por qualquer um amor requere,
  Um dos olhos o corao me fere,
  Prende-me a alma um s d'esses cabellos.

  N'um dos olhos por pura te comprehendes,
  N'um cabello a humildade sem refolhos,
  Ds a entender em symbolos bemquistos:

  Por isso humilde e pura tu me prendes;
  Que se um dos olhos me entra pelos olhos
  Um dos cabellos me ata a olhos vistos.[23]

O soneto, para ser feito a Nossa Senhora, no  bom modelo para
mysticos; porm, como brinde  estremecida Josepha,  o melhor de que eu
tenho noticia, e ella, a meu ver, devia lisongear-se notavelmente.

O que ella lhe deu melhor ainda do que o soneto foi uma filhinha, que
chamaram Anna Maria, e no anno seguinte outra filhinha, que chamaram
Maria da Natividade, e depois outra que se chamou Thereza de Jesus, e
depois Antonia Maria, e depois Sebastiana Ignacia, e depois Agostinho
Luiz, e depois Pedro Jos, e ultimamente Raphael, que morreu ao segundo
mez de nascido. Ora aqui tem, leitor sensivel, um quadro perfeito de
felicidade terreal: cinco filhas e dois filhos, vivos e robustos, em
nove annos. Dito isto, por mais que me eu aprimorasse em recamos do
estylo e maviosidades de sentimento no descrever as venturas d'aquella
familia, tudo me sairia froixo e muito em sombra. As creancinhas so os
anjos que pintam os quadros da vida intima com cres e instincto do co.
Quem quer dizer suprema e indisivel felicidade no tem mais que pr:
eram dois paes amando-se muito com sete filhinhos entre elles a
beijarem-n'os, a beijarem-se, e a chilrearem como avesinhas implumes em
volta do ninho que lhes d o aconchego da plumagem e do cibo.

Sem impedimento de sete filhos, fartos e aceiados, o doutor ia
enriquecendo, e repartia seu tempo, roubado s caricias da familia,
entre os trabalhos de gabinete e visitas s pessoas mais illustres e
pecuniosas da terra. A fama dos seus bons costumes e religiosidade
fallou por elle no tribunal da inquisio, quando l chegou o
requerimento documentado pedindo as honras de familiar do santo officio.
Concederam-lh'as sem hesitao, porque os medicos, como senhores do
arcano intimo das familias, eram os mais importantes sentinellas da
pureza da f. No s os sos costumes, que tambem um livro de summa
piedade e vasta erudio, lhe ganharam as honras e privilegios de
familiar. Este livro, publicado em 1725, e ainda hoje relido com devotos
fervores por quem sabe gastar com acerto e bom juro o seu tempo,
intitula-se Sol nascido no occidente e posto ao nascer do sol. Santo
Antonio portuguez. Epitome historico e panegyrico da sua admiravel vida
e prodigiosas aces. N'aquelle tempo, no houve livro que ousasse
medir-se com as elegancias e pompas d'aquelle _in-folio_, para o qual
devra inventar-se a eternidade, se ella no andasse j por ahi 
disposio das obras inuteis.

D. Josepha, posto que viesse de Paris quasi nada disposta a crer nos
milagres de Santo Antonio, depois que leu a obra de seu marido,
reduziu-se  pureza da f catholica, e revalidou as ceremonias do
baptismo, para se limpar de escrupulos. No seria esta a razo
efficiente; mas parecia ser.

No anno seguinte, Braz Luiz saiu com outro volume de egual tamanho, bem
que menos importante  salvao da alma. Todavia, choviam benos sobre
o sabio que primeiro curava almas achacadas de vicios, e depois dava 
humanidade enferma, como coisa secundaria, um livro que olhava a
minorar-lhe os flagellos corporaes. Eis aqui o titulo d'este padro da
medicina portugueza: Portugal medico, ou monarchia medico-lusitana.
Historica, pratica, symbolica, ethica e politica. Fundada e
comprehendida no dilatado ambito dos dois mundos creados, macrocosmo e
microcosmo. Estes dizeres podem chamar-se o cabealho do titulo, que se
continua em vinte linhas. Assim o declaro para que se no julgue da
superficialidade da obra pela pequenez d'aquelle rotulo. Braz Luiz de
Abreu dedica o seu livro ao principe do Brazil D. Jos Francisco, e
assigna-se _medico portuense e familiar do santo officio_, assentando
n'estas qualidades dois titulos  considerao publica.

Este livro, a meu ver,  a mais pittoresca historia dos costumes
d'aquelle seculo. Ninguem l o _Portugal Medico_, e poucos sabem que
desprezado thesouro alli est. Como author de livros de medicina 
vilipendio nosso que Braz Luiz seja contado na lista dos escriptores
medicos, de par com os Zacutos, com os Veigas, e com Jacob de Castro
Sarmento; como relao das usanas do seculo XVIII, no ha novella nem
poema satyrico em portuguez que lhe chegue  barba.

Onde me d o leitor a conhecer o que eram os medicos estrangeiros em
Portugal? Quaes gazetas do tempo ou quaes poetas mordentes nos deixaram
traos da chusma de charlates, naturaes e peregrinos, que se
locupletaram entre ns, favorecidos pela crassa bruteza a que tinha
descido a faculdade medica em Portugal! Nenhum livro de prosa ou verso,
nenhuma publicao coeva nol-o diz, exceptuado o livro obscuro ou
escarnecido do Olho de Vidro.

Para mim  de f que o leitor, nem ainda peitado por estes encomios, vae
folhear o _Portugal Medico_. Pois eu, mas que me alcunhem de
impertinente, vou dar-lhe em traslado coisa pouca d'este curioso livro,
que  mais historia que as chronicas dos Azuraras e Pinas, e mais
comedia humana que as comedias de Gil Vicente e do Judeu.

cerca dos medicos estrangeiros:

Enfada-se de ser soldado na Italia um romano; passa a Portugal, e
constitue-se um famoso espagytico florentino. Foge da sua religio feito
apostata um francez; aporta em Lisboa, e inculca-se por um insigne
medico portuguez. Quebra em Hollanda um mercador; busca o nosso reino, e
vende-se por um peritissimo physico hamburguez. E at entre os nossos o
que  alveitar no Minho passa a ser medico no Algarve; o que  cirurgio
na Extremadura vae buscar o gro de doutor ao Alemtejo; e de boticario
da Beira, se converte em Galeno de Traz-os-Montes; e d'esta sorte
espalhados e desconhecidos, morrendo por viver da sua necessidade, vivem
de matar com a sua medicina, e atormentando a todos sem piedade, ferem
sem pena e matam sem castigo...

Desembarca em Lisboa, no Porto, ou em outra qualquer barra d'este reino
um medico estrangeiro, no disse bem, um estrangeiro metido a medico;
antes que ponha o p em terra, j o bom do homem tem mandado encher as
esquinas de editaes em que publica remedios infalliveis para todos os
achaques... Entra-se um d'estes por casa de um illustre, de um nobre, de
um ecclesiastico; mas nunca de um pobre; e se ha achaque na casa, comea
logo o parabolano a desenrolar promettimentos, e que foi fortuna chegar
elle a tempo em que podesse emendar o que os medicos tinham errado;
porque a queixa s elle a conhecia, por ter j feito, similhante cura na
pessoa do delfim de Frana, e vencido o mesmo achaque no principe
Eugenio, ou em outro qualquer personagem d'este calibre; por que
similhantes physicos nunca se fazem medicos ahi de qualquer tudesco de
m morte; mas as suas experiencias sempre tem sido observadas, ou nos
palacios dos principes, ou no serralho do gro turco.

Comea um d'estes alchimistas a prometter e o pobre doente a pasmar. Se
o achaque  uma ethica marasmada, diz-lhe: senhor, eu fao uma agua to
portentosa e de to infallivel virtude, para esta sua queixa, que no s
 capaz de restauricar ethicos, mas de resuscitar mortos. O cardeal de
Rouen em Paris estava j mais magro do que um pisco em janeiro; tomou a
mesma agua, e logo se poz mais gordo que um taralho por agosto... 
verdade que lhe custou do seu porque este remedio para se compr leva
duzentas moedas de ingredientes. Se vossemec quer que eu lh'o faa
venham as moedas; e, se no se achar bom, no me dar nada pela cura. A
isto responde o doente que  muito dinheiro--Bom remedio (torna o
estrangeiro) faremos por ora s metade da cura, e no vem vossemec a
gastar mais do que cem moedas. Ainda  muito? Pois venham cincoenta.
Assim vae duvidando um e outro, e abatendo, at que o alchimista para
no ir de todo em todo sem dinheiro, para comprar as drogas se resolve a
fazer a cura por duas moedas; mas pede segredo ao doente, porque no
quer fazer o seu remedio mal reputado. Vae para casa; pe a ferver dois
almudes d'agua da fonte com um selamin de cevada, deita-lhe umas poucas
de flores de papoulas, para tomar outra cr, e um arratel de assucar
mascavado; compe uma agua adocicada cr de fogo; enche quatro garrafes
bem tapados com cortia e lacre, e pilha duas moedas.

Prosegue Braz Luiz em muitas paginas em prosa e verso a critica
zombeteira dos medicos mesinheiros, dos pseudo-medicos, dos barbeiros,
das benzedeiras.

Concluo o extracto com uma amostra da prosa, e outra da poesia. Qualquer
das coisas denota o entranhado fervor com que o medico portuense saa de
frente contra os charlates em favor da humanidade.

Oh!--exclama elle--quantos e quantos medicos, lobos na condio, estou
eu vendo espalhados pelos reicos da nossa monarchia, que no sabem mais
que roubar e matar!... So estes ladres e matadores publicos todos
aquelles que sem o serem se fingem medicos. Oh! miseravel e desgraada
medicina! Como vejo trocados hoje os teus predicados nobilissimos! J
no s arte de curar, s atalho de morrer; j no emendas os vicios do
corpo, extingues as virtudes da alma; j no s triumpho das queixas, s
flagello das vidas; j no s sciencia, s ignorancia; j no s arte
preclarissima, s claro e clarissimo latrocinio. Os teus methodos de
curar so modos de viver; os teus aphorismos so gyrias; os teus textos
so roubos; os teus remedios so mortes, e os teus brazes so
sepulturas. Mas como no ha de ser assim, se so homens ignorantes e
perdidos os teus professores? Fingem-se medicos os idiotas, os
vagabundos, os judeus, os barbeiros, os soldados, os feiticeiros, os
benzedores...

 christmente louvavel o affoutamento e desprezo com que elle entala os
judeus entre os vagabundos e barbeiros; faz, porm, tristeza ver n'isto
a ingratido com que elle malsina a raa d'aquelle Heitor Dias da Paz,
que vinte annos antes lhe estabelecra a penso no real collegio de S.
Paulo. Entristece ainda mais que elle se no conda do pae de sua
mulher, do av de seus sete filhos, o hebreu desterrado, que, no dizer
de D. Josepha, expirara exclamando:

Dem-me um pouquinho de ar da minha terra, que eu no morrerei ainda!

Desculpe-se o ingrato aos israelitas, e lembre-se a gente do muito que
elle devia  inquisio, que o fizera seu familiar, sem lhe averiguar a
raa, at  quarta gerao, condicional indispensavel na investidura
d'aquella honra, honra n'este mundo, e segurana na conquista do outro,
vista a somma de indulgencias com que os papas alimpavam a consciencia
d'estes esbirros do santo officio.

Desculpe-se-lhe ainda a feia culpa, em desconto da malquerena e odio
com que os seus collegas leram o seguinte soneto:

  Um, dois, trez, vinte, trinta, oitenta, cem,
  Mil, dez mil, vinte mil, seiscentos mil,
  Milhares de milhares (So frei Gil!)
  Quem poder contar quantos c vem?

  Tanta gente sem conhecer ninguem![24]
  Ms caras! ruins aspectos! frma vil!
  Nunca elles so de genio mais subtil,
  Se a cara testemunha o que ellas tem.

  Ah! sim; j sei; uns mata-sanos so
  D'aquelles asneiroens que por hi ha,
  Que no sabem escolher o mal do bom.

  Ah! quantos burros ha! (mais de um milho?)
  Que sem saberem lr o _b a-B_,
  Curam e matam por hi sem tom nem som?

Agora, vamos, por algum tempo, deixar Braz Luiz de Abreu com as suas
prosas, com os seus poemas, e com o locupletar-se, por justo effeito da
sua grande nomeada. No cuidem que elle,  similhana dos poetas, de seu
natural perdularios e desinteresseiros, tem em conta de pouco a paga das
suas visitas. No tocante a estipendio de medicos, vejam como elle se
declara: No faltam medicos na monarchia medica-lusitana, que por este
modo vivam apostolicamente. Em muitas cidades, villas notaveis e
povoaes grandes d'este reino,  para os seus medicos muito pouco o
sustento e immenso o trabalho. Na arithmetica medicinal d'esta
monarchia, multiplicam-se as visitas, mas nunca se accrescentam as
pagas: poucas vezes os medicos cuidam em sommar, porque nunca os doentes
chegam a repartir. Trabalhar todos os dias, levantar-se a qualquer hora
da noite, subir e descer escadas, ouvir queixas, soffrer impertinencias,
examinar cloacas, receitar remedios, e revolver livros, isto sim; que
para isso  burro: receber pagas, cobrar partidos, recolher avenas, e
embolar estipendios, isso no, que por isso  asno.

Engenhoso modo este de avisar os seus doentes remissos na paga, no por
attenciosas cartas no fim do anno, mas por tres paginas de um livro _in
folio_, das quaes trasladei algumas linhas, em obsequio aos medicos do
tempo d'agora, e censura aos doentes que no pagam.




X

Os expatriados


Trinta e quatro annos antes, se o leitor se lembra, tinham fugido para a
India, em uma no mercantil, o doutor Francisco Luiz de Abreu e sua
mulher, disfarados em mercadores de drogas indostanicas.

Assim que aportaram a Goa, antes que os quadrilheiros da inquisio os
farejassem com aquelle olfacto d'elles, subtilissimo em esquadrinhar
sangue judaico, apressaram-se em fugir do territorio portuguez. No
primeiro navio britannico aproado  costa do Malabar, conseguiram os
incognitos embarcar-se, e saltaram em Cochim, na cidade querida do
grande Affonso de Albuquerque, qual, desde 1663, pertencia aos
hollandezes. Estavam salvos.

O doutor Abreu comeou exercitando a medicina e o commercio, e auferindo
mais ganancia da camphora, do beijoim e do chumbo, que da sciencia das
drogas salutiferas. Corridos dois annos, como os bens de fortuna lhe
sobrassem, visto que j de Portugal saira com sobejos para viver
memente, passou  Europa e estabeleceu-se em Hollanda.

Aqui, recebido nos braos de centenares de portuguezes, voltou 
profisso de medico, e poz os seus cabedaes a logro, com prosperos
resultados. Hollanda era o paraizo terreal dos perseguidos hebreus. Em
parte nenhuma do mundo,--escrevia Daniel Lavi de Barros--gosam maior
segurana que em Amsterdo, tanto pela liberdade de consciencia nas sete
provincias unidas, como pela bondade de seus engenhosos habitantes.[25]

Hebreus portuguezes e hespanhoes tinham alli sua synagoga, independente
dos israelitas de procedencia allem. Foi a primeira edificada em
Amsterdo, consoante o affirma Antonio Alvares Soares na sua _Sylva_:

  _La primera Synagoga Amstelodama_
  _Fundada fu del grand Jacob Tirado_
  _Que por su nombre Bet Jahacob la llama,_
  _I por el pueblo de Jacob sagrado._

Tanto crescera a opulencia dos hebreus da peninsula hispanica, desde que
a lerda piedade dos reis os expulsaram que, em menos de quatro annos,
levantaram e consagraram em 1673, o mais soberbo edificio que ainda hoje
sobreleva a todos de Amsterdo. No crer dos hebreus, aquelle templo era
o milagre que Deus lhes havia promettido por Ezequiel: Porque os puz
longe entre as gentes, e porque os lancei dispersos por varios paizes,
eu serei para elles um pequeno sanctuario dos paizes para onde
forem.[26]

Francisco Luiz de Abreu, assim que se viu de assento e pouco menos de
esquecido da patria, logo que a occasio se lhe amoldou, sem risco do
seu amigo Moraes de Villa Flor, escreveu-lhe, pedindo-lhe a ida do filho
de Antonio de S Mouro para Hollanda. O pae de Heitor Dias da Paz,
respondendo  carta, pedia-lhe com lagrimas que lhe no tirasse o
pequeno, porque, alm de magoar penetrantemente seu filho, que o
estremecia como irmo, podia ser que lhe tolhesse o futuro, ou, com a
ida, suggerisse  inquisio suspeitas e aparelhasse desgraas para os
que lhe estavam debaixo da vista fulminante.

Relatava-lhe a perseguio que os Oliveiras de Ourem estavam soffrendo,
desde a fuga na no da carreira da India, e o certo perigo que corria a
creana, se levissimas suspeitas o indigitassem como filho de Francisco
de Abreu.

O medico desvaneceu as esperanas da sua mulher, que era a mais
fervorosa em pedir o seu filho adoptivo. D'esta correspondencia nem
palavra Francisco de Moraes revelava  creana, por medo que a
indiscrio propria dos annos acareasse desconfianas da espionagem, que
sem treguas espreitava os actos dos judeus abastados. Moraes pedia ao
seu amigo que lhe escrevesse pouco e com muita segurana, para que as
suas cartas no tivessem destino egual s de Pedro Lopes, residente em
Damasco.

Senhor do seu tempo e liberdade, o doutor Francisco Luiz foi a Frana
inquirir de novo informaes de Antonio de S. Nada adiantou s colhidas
pelo joalheiro de Villa Flor. O navio, que navegava para o Canad,
parecia que as ondas o tinham engulido e pulverisado nas profundezas dos
seus abysmos. Nem a mais ligeira suspeita de que existisse um folego
vivo d'aquella no, a no ser que as duas galeotas de flibusteiros,
ento ancoradas na costa de S. Domingos, podessem dar noticia do
naufragio.

Recolheu o doutor a Amsterdo com as esperanas de todo perdidas.

Seis annos decorridos, chegou  familia dos Moraes, residente em
Hollanda, a nova de estar nos carceres da inquisio de Lisboa Heitor
Dias da Paz. Foi grande luto e choro nas familias portuguezas de
Amsterdo, entre as quaes tinha sido creado e educado o mocinho.
Abriram-se as synagogas, e prostraram-se os de Israel, pedindo ao seu
Deus que lhes redimisse da morte affrontosa do garrote e do fogo o
mancebo, cuja genealogia promanava j da tribu de Levi. Bem sabiam elles
que Heitor Dias da Paz havia de morrer profitente da lei de Moyss, e
smente por milagre do Senhor poderia salvar-se de morrer queimado.

Quando chegou a Hollanda a noticia do suicidio de Francisco Moraes
Taveira e da imperterrita morte de seu filho, estes nomes gloriosos nas
dypticas da nao fiel foram inscriptos no martyrologio hebreu. Assim o
tinha sido o do medico Silva, que, apoz treze annos de carcere, fra
queimado em Lima, no anno de 1693, e, ao tempo que o fogo o devorava, um
pego de vento esboroou o tribunal onde elle havia sido condemnado.[27]
Assim fra santificado um judeu portuguez, o qual, apenas a fumarada da
fogueira lhe levou aos pulmes as primeiras agonias, desataram-se-lhe os
ferros, e foi arrebatado por um anjo, a tempo que os algozes exclamavam
que o diabo o transportava em corpo e alma. Deus, para salvar o seu
servo das angustias do supplicio horrendo, o arrancara d'entre as
chammas, segundo o asseverado nas actas dos martyres. No menos
illustres em santidade eram para os hebreus o religioso da Asseno,
queimado em Lisboa no anno de 1603, e o medico Sobremont, suppliciado em
Lima, depois de vinte e dois annos de masmorra. Na _Sylva_, de Antonio
Alvares, vem commemorada assim a crucificada vida d'aquelle martyr:

_Veinte y dos annos in prison penosa_ _Por defender de Dios la verdad
pura,_ _Termino arrastra la cadena dura_ _Que le da el ser la sacra ley
su esposa._

Heitor Dias da Paz foi comparado na coragem da morte ao hespanhol Lopo
de Vea, filho de paes christos velhos, o qual se fizera judeu, e se
circumcidra no carcere. A constancia de sua morte obrigou o inquisidor
geral a dizer que _nunca vira to ardente desejo de morrer, nem tamanha
confiana de salvao, nem to completa firmesa, como a d'aquelle moo
na flor da edade_.[28]

O medico Abreu, para no arriscar a segurana dos seus parentes e amigos
de Portugal, absteve-se de pedir informaes de Braz, nos primeiros
annos seguidos  morte dos judeus de Villa Flor. Corria o anno de 1710
quando elle se animou a indagar com a maxima cautela. Algumas pessoas
foram disfaradas a Coimbra, averiguaram com todo o resguardo, e nenhum
esclarecimento alcanaram. Ninguem dava novas nem rastreava o destino do
moo. Eram obvias as razes d'esta ignorancia: Braz Luiz nunca em
Coimbra estivera na companhia de Heitor Dias da Paz, nem o collegial de
S. Paulo ousava dizel-o, admoestado pelos frades, os quaes, por sua
parte, movidos de compaixo do estudantinho, cuidavam em salval-o da
nota infame de amizade com taes protectores.

O medico Francisco Luiz, se no esqueceu o filho de Antonio de S,
desistiu de perguntar, como diligencia inutil, a paragem d'elle.
Facilmente acreditaram que tivesse morrido, ou casse em obscura
indigencia, depois do auto de f de 1706.

Em 1718 appareceu em Amsterdo a obra de Braz Luiz d'Abreu, publicada em
1717, com o titulo: Aguias filhas do sol que voam sobre a lua. O nome
do author produziu estranho reparo em Francisco Luiz d'Abreu. _Braz_ era
o nome da creancinha, que elle entregra a Francisco de Moraes; o
sobrenome e o appellido eram os d'elle.

--Quem sabe!--dizia elle  esposa--Cuidaria o filho de Antonio de S que
era nosso filho?! Dir-lh'o-hia alguem, depois da morte de Heitor Dias da
Paz? Por que ha de ter este homem o nome que lhe deixmos, e o appellido
que eu tenho?...

--Pergunta a alguem de Portugal onde reside o author d'esse
livro--lembrou Francisca.

De Portugal disseram ao israelita que Braz Luiz de Abreu era um medico
residente no Porto.

Sem medeao de alguem, Francisco Luiz escreveu directamente ao medico
do Porto estas palavras: Pessoa interessada em querer saber quaes foram
ou so os paes de vossemec, pede-lhe que os indique, se os conheceu.
Responda para Amsterdo.

E deu o pseudonimo _Elias Sarmento_, a quem devia ser dirigida a
resposta.

Braz Luiz de Abreu entendeu que a pergunta era um escarneo a elle
desgraado, que no tinha conhecido seus paes, e que, na maledicencia de
inimigos, passava como exposto na roda de Villa Flor. Affrontado por to
certeira azagaia  sua immensa dr e pejo de no poder dizer cujo filho
era, respondeu n'estes termos: Braz Luiz de Abreu responderia com um
tagante ao judeu ou burro que lhe faz a pergunta, se no tivesse de ir
longe procural-o a chatinar no templo, como Jesus Christo nosso Senhor
fez aos avs de quem se esconde na terra dos impios, dos hereges, e dos
crucificadores do Messias para o insultar. N'um homem, chamado _Elias_,
a alluso insultante devia de acertar infallivelmente.

Francisco Luiz de Abreu, lida a resposta, riu-se da sua illuso e da
catholica ira do medico portuense. N'esse mesmo correio, foi-lhe de
Portugal uma carta do amigo a quem elle perguntra onde residia o
medico. A carta dava sobre o sujeito os seguintes esclarecimentos: Tinha
sido creado com frades,  custa d'elles se licencira, e era familiar do
santo officio, e denominado o _Olho de Vidro_, porque, tendo perdido um
olho em desordem, o substituira por outro artificial. Accrescentava mais
que, na opinio de algumas pessoas, o tal Olho de Vidro era filho de um
frade, se no fosse filho de tres frades.

 vista d'isto e da resposta do author das _Aguias_, o hebreu acreditou
evidentemente que este Braz no tinha de commum com o outro seno o
nome.




XI

Treze annos depois


Francisca de Oliveira morreu no anno de 1730 em Italia, para onde seu
marido se transferira, por 1724, a procurar-lhe ares restauradores da
saude que ella a pouco e pouco perdra em Amsterdo.

O medico, perdido o arrimo da alma aos cincoenta e cinco annos de edade,
sentiu gravame e tedio da vida. Os bens da fortuna eram muitos; mas o
veneno da saudade e da solido, por ser bebido em taa de oiro, no lhe
era menos lethal. Se elle fosse pobre, trabalharia, quebraria na
canceira da lida suada para ganhar po alguns espinhos da sua cora de
orfo de todos os affectos puros e sagrados, na edade, em que smente
esposa e filhos podem adoar o amargo da velhice. No tinha ninguem l
fra. E em Portugal se tinha parentes nem os conhecia, nem amava, nem j
esperava, nem queria ser estimado d'elles.

Vagamundeou de reino em reino, repartindo alguma parte dos muitos
haveres por hebreus necessitados, e reservando para si a quantia que
computou necessaria para passadio abundante de quinze annos.

Passados dois, estanceava por Marselha, quando um navio mercante estava
carregado com destino a um porto de Hespanha. Quasi sem consultar os
perigos da sua temeridade, como quem nenhuns vinculos j tinha que
desprender dolorosamente das coisas boas d'este mundo, embarcou como
hollandez, com passaporte que o abonava mercador de Amsterdo, e
desembarcou na Corunha. D'aqui passou a Portugal, em navio hespanhol, e
viveu alguns dias em Lisboa, separado de toda a convivencia e
encontrando a miudo pessoas de Hollanda, que deviam conhecel-o, se elle
em tres annos no tivesse encanecido, e oito annos antes se no
retirasse d'entre os portuguezes para os pontos mais solitarios e
pittorescos da Italia.

Foi o doutor a Ourem, com ares de forasteiro que v pelo miudo as mais e
menos notaveis terras dos paizes. A casa onde elle nascra havia sido
vendida pela cora, para a qual tinha sido confiscada, depois que o dono
fra queimado em estatua. Estava sendo estalagem. Pernoitou n'ella;
dormiu no quarto de sua me... no dormiu: chorou por todo o correr da
noite vagarosa. Antes que a primeira luz do seguinte dia apontasse, saiu
do quarto onde nascra e morrra sua me, viu de passagem o quarto que
fra o seu, e d'onde agora saa outro viageiro madrugador.

D'aqui se foi caminho de Coimbra, abafando os soluos para que o
arrieiro e outro viajante que cavalgava e o seguia silencioso lh'os no
ouvissem.

Andado um quarto de legua, perguntou-lhe o companheiro:

--Vae para Coimbra, camarada?

Francisco Luiz, fingindo uma pronuncia de hollandez que sabe algum pouco
de hespanhol, disse que sim, ia ver Coimbra, porque andava examinando os
monumentos celebres de Portugal.

O collocutor era homem j de annos adiantados: oraria tambem por perto
dos sessenta.

--Aquillo j foi Coimbra! disse elle. Quando eu por alli andei
estudando, grandes homens liam na universidade; hoje, nem j parece
Coimbra, nem cidade das letras. A vossemec, que  estrangeiro,
posso-lh'o dizer: os jesuitas deram cabo dos bons estudos.

--Ha quantos annos andou vossemec estudando na universidade?

--Ha bons quarenta. Matriculei-me no primeiro anno de medicina em 1693.

--Noventa e tres?--perguntou Abreu com reparavel interesse; mas o ar de
espanto passou, na mente do outro, como pergunta admirativa do muito
longe que j ia a vida estudiosa do interrogado.

-- verdade. Ha que tempos isto vae!... Dos meus condiscipulos, que eu
saiba, j no vive nenhum.

--Seria d'esse tempo--tornou Abreu--um portuguez medico que eu conheci
em Hollanda?

--Como se chamava?

O doutor quedou-se a scismar largo tempo, e disse:

--Chamava-se Francisco... Francisco... Luiz...

--De Abreu?--accudiu o interlocutor--Ora se conheci!... No era meu
condiscipulo; era mais novo do que eu na universidade um anno; mas havia
de regular pela minha edade. Fui amicissimo d'elle, e elle meu.
Queimaram-no em estatua e mais a mulher, no auto da f de Coimbra, em
1699, se bem me lembro. Ora se conheci! Ainda ser vivo?

--No lhe sei dizer. Ha muitos annos que viajo, e no voltei ao meu
paiz. Tem familia em Portugal?

--No lhe posso dizer; mas a mim lembra-me que elle tinha um filhito
natural, posto que outros diziam que o pequeno era filho de outro
hebreu, que andava desterrado. Esse filho desappareceu; no sei se elle
o levou, se morreu por c em companhia de parentes.

--Tambem a mim me est lembrando que esse medico me fallava muitas vezes
n'outro hebreu condiscipulo d'elle... ora que me no accode o nome!...
Um hebreu que fugiu de Portugal com a filha de um fidalgo, christo
velho...

--Ah! j sei de quem vossemec me quer fallar... Ha de ser Antonio de S
Mouro.

--Parece-me que sim...

--No podia ser outro. Conheci-o perfeitamente. Era o melhor estudante
da faculdade medica. Sei a historia d'esse desgraado, perfeitamente...

--Ento sabe que fim elle teve?--atalhou Francisco Luiz.

--Morreu, o que eu sei  que o pobre homem morreu l fra e por pouco
lhe no matavam os paes c dentro. A minha casa dista da casa dos
Cabraes, senhores de Carrazedo, meia legua. Veja se eu no estarei
lembrado de tudo isso, conhecendo a morgadinha como as minhas mos.
Imagine vossemec qual seria o meu espanto, quando, faz agora quatorze
annos, a vi.

--A viu?!--exclamou Abreu--viu? quem?!

--A morgada de Carrazedo...

E, como soffreando a expanso, o viajante disse:

--Conto estas coisas a vossemec porque  estrangeiro, e por que ella j
morreu, e no tem que temer da inquisio. Que ella andou em Portugal
incognita...

--Mas vossemec viu D. Maria Cabral?--tornou Francisco Luiz.

--Justamente, D. Maria era o nome d'ella. Vejo que sabe tambem algumas
miudezas da tragedia!... Pois vi-a com estes olhos; e vossemec poderia
vel-a tambem, se ella no tivesse morrido em 1718.

--Conte-me o que souber d'essa senhora, que tenho ardentissima
curiosidade de saber os successos da vida de tamanhos infelizes...

--Olhe, o modo como o marido l morreu por fra, no m'o disse ella...
mas, o melhor  contar-lhe desde o principio. Appareceu aquella senhora
em Bragana, com uma menina de vinte e dois annos.

--Menina! filha d'ella?

--Sim, filha d'ella e do judeu S Mouro.

Francisco Luiz de Abreu arquejava, e parecia temer que a vida se lhe
acabasse antes de ouvir o remate da historia. Mortificava-o, a vontade
de ingranzar perguntas em tropel; sustinha-o, porm, j o receio de se
privar das miudezas que o pachorrento narrar do homem promettia, j
tambem o receio de se fazer suspeito pela demasia do interesse, bem que
o sujeito se lhe afigurasse bom homem, e incapaz de o denunciar.

--Ento ella tinha uma filha?--insistiu Abreu.

-- verdade. Linda como a mais linda estrella; mas a me, d'aquillo que
tinha sido, no lhe restava sombra nem vestigio. Era uma sexagenaria,
no podendo ter ento mais de quarenta e quatro annos, c pelas minhas
contas, porque ella tinha dezeseis quando fugiu com o judeu da Guarda...
No me lembra o que eu ia dizendo...

--Que appareceu em Bragana D. Maria Cabral com uma menina...

-- verdade. Chegou a Bragana, e fallava muito confusamente o
portuguez, e a filha pouco ou nada dizia. Tomou de renda uma casinha e
para alli se metteu com duas criadas, que lhe chamavam D. Antonia da
Piedade.

Depois de por l estar alguns mezes, dando muito que pensar 
curiosidade da terra, comeou a sair com um aspecto muito doentio, e a
dar passeios a cavallo pelos arredores. Chegou  casa de Carrazedo, onde
ella tinha nascido, e mandou pedir aos moradores d'ella licena para l
passar as horas da calma. Foi recebida por pessoas que ella nunca tinha
visto; mas que eram seus primos e sobrinhos, que tinham ido de Chaves
tomar conta da herana de Ferno Cabral. Este fidalgo desherdra a
filha, porque as leis lh'o facultavam, e nomeara herdeiros os filhos de
uma sua irm, que elle odiava, por se ter casado com um capito de
cavallos menos fidalgo do que ella. Mas o odio  filha avantajou-se
tanto ao odio da irm, que, em artigos de morte, receiando que os
descendentes d'elle ainda viessem perturbar-lhe o somno eterno,
desherdou-a e nomeou seus herdeiros os sobrinhos.[29] D. Maria soffreu
voluntariamente algumas horas de martyrio n'aquella casa, e ouviu com
enchutos olhos contar a uma de suas primas a historia da morgada de
Carrazedo, mulher perdida por amor de um judeu da Guarda com quem
casara. Soube como tinha sido desherdada e amaldioada pelo pae  hora
ultima; agradeceu as spas que lhe deram os possuidores do seu grande
patrimonio, e seguiu seu caminho. Ao escurecer chegou ao porto da minha
casa, e perguntou se alli morava ainda, ou se j tinha morrido o doutor
Jos de Barredo.

--Jos de Barredo! disse Abreu, sem ter mo da impetuosa reminiscencia
que lhe accudiu.

--Sou eu. Parece-me dar vossemec a entender que j ouviu o meu nome?!

--No me  novo... tartamudeou Francisco Luiz.

--Pde ser que Francisco Luiz de Abreu lhe fallasse alguma vez em mim,
quando lhe referiu a historia de Antonio de S, porque eu, no sei
porque fatal compaixo de D. Maria, alguma parte tive nos amores
funestos d'elles, prestando-me a receber da Guarda as cartas que elle
escrevia  morgada.

--Naturalmente  de Francisco Luiz que eu conheo o nome de vossemec,
disse o doutor Abreu, olhando muito em fito as feies d'aquelle
velho, que tinha sido em Coimbra um dos seus mais affectos
contemporaneos.--Deixe-me apertar a mo de um amigo de Francisco
Luiz--tornou Abreu, apertando-lh'a com estremecido enthusiasmo.--Se elle
o podesse encontrar, senhor Barredo, estou que choraria, estreitando ao
corao o homem talvez unico n'este mundo que lhe resta dos que na
mocidade o prezaram...

--Certamente--disse Jos de Barredo enternecido a lagrimas.--Se elle
vivesse, seria o meu mais velho amigo... que todos os outros morreram...
A opinio que elle e Antonio de S tinham do meu natural, sendo elles
judeus e eu christo velho, bem se deixa ver no procedimento de D. Maria
comigo; pois, escondendo ella o seu nome e nascimento de todos,
procurou-me a mim com o proposito de se declarar. E assim o fez.

Logo que me avisaram de estarem alli duas damas, uma das quaes tinha
cara de doente, fui recebel-as ao pateo, cuidando que era consulta de
medico. Conduzi-as  sala, e ahi D. Maria, com os olhos desfeitos em
lagrimas, e muito embaciados, entrou a olhar-me, e a tremer, at que,
expedindo um grande ai, se lanou nos meus braos, clamando: eu sou a
sua amiga da infancia, sou Maria Cabral, morgada de Carrazedo!

N'este ponto da narrativa, pararam os arreeiros  porta da estalagem de
Thomar. Os cavalleiros apearam, subiram ao sobrado da estalagem e
pediram almoo.

Jos de Barredo proseguiu, atando o fio com as palavras de D. Maria.

--Eu sou a sua amiga da infancia!--clamou ella--Sou Maria Cabral,
morgada de Carrazedo! Faa ida, e continuou Barredo--faa ida do meu
assombro, senhor... senhor... pde dizer-me a sua graa?... Um amigo do
meu amigo da mocidade, no deve hesitar em querer a amizade que lhe
offereo, e dizer-me o seu nome...

--Direi--balbuciou commovido o outro no mais correcto portuguez:--mas ha
de ser com o corao bem perto do teu, Jos; abraa-me, e ouve-me muito
baixinho esta revelao feita  tua alma: Eu sou Francisco Luiz de
Abreu.

Jos de Barredo abriu a bca at onde lh'o permittiam as articulaes
das mandibulas. A expresso d'aquelle seu grandissimo espanto foi um som
rouco, similhante a um brado de terror. Em seguida, rebentaram-lhe
subitas as lagrimas, e ento smente pde o velho atirar-se todo aos
braos do amigo, e exclamar:

-- Francisco!... se a inquisio te conhece!

--Tu smente me conheces em Portugal--disse o doutor Abreu--E no temas
por mim, que, se eu cair nas garras do santo officio, pouco mais se
doer do fogo d'elle este corpo empedrenido do que ha trinta e sete
annos a minha estatua. Morto estou eu j, meu amigo. Que me faz a mim
agonisar sobre as brazas da minha tristeza irremediavel, ou expirar mais
depressa nas torturas da pol ou nas do garrote? Como quizerem...

Jos de Barredo quiz suspender a narrativa do tocante  viuva de Antonio
de S Mouro para ouvir a dos successos de Francisco Luiz. No lh'o
permittiu a anciedade do amigo. Conformou-se o confidente de D. Maria, e
continuou, ordenando aos arrieiros que fossem adiante e os esperassem no
Arneiro, onde haviam de jantar, cinco leguas adiante na estrada de
Coimbra. Continuou o doutor Barredo:

--O alvoroo que me fez o apparecimento d'aquella senhora alquebrada e
de todo desfigurada, dizendo-me que era a formosa morgada de Carrazedo,
s t'o posso comparar com aquelle que, ha pouco tu me causaste,
Francisco. So dois lances da minha vida que j no podem repetir-se.
No tenho mais ninguem que esperar da minha mocidade. Era ella e tu; por
que Antonio de S, esse no pde mais voltar...

--Creio que seria o mais ditoso dos teus amigos...--balbuciou Francisco
Luiz.

--Oh! no!... pois tu desconheces a doura d'estas nossas lagrimas? Dois
velhos, que se amaram moos, e se encontram nos umbraes de outro mundo
para se despedirem! Que  isto, seno o derradeiro calor da vida que
ainda nos aquece os coraes?... Demos graas ao nosso Deus, que  o
mesmo Deus, ou elle se chame Jesus de Nazareth, ou Messias, ou
simplesmente creador do co e da terra. Suppliquemos-lhe que nos deixe
j agora acabar estes ultimos dias um  beira do outro... Tu vaes para
minha casa, no  verdade, Francisco?

--Irei a tua casa, irei, Jos; mas... estou a receiar que te esqueas da
nossa pobre senhora...--disse Abreu, sorrindo, e enchugando as lagrimas.

--Tens razo; mas deixa-me ser feliz um poucachinho... Temos tanto tempo
em que fallar dos outros desgraados...

--Oh! se tu podesses dizer-me que ella ainda vive...

--No posso, e pouco tenho que te contar antes da morte d'ella... Ahi
vae o mais que sei. D. Maria perguntou-me se devia considerar perdido o
seu patrimonio; e eu respondi lhe que sim; e pedi-lhe que nem fallasse
em tal preteno, se a trazia, porque os individuos possuidores d'elle
seriam capazes de a denunciar ao santo officio, e de lanarem rezina aos
pos da fogueira com as proprias mos. Ento me relatou ella a
desgraada vida que tivera por espao de quinze annos, captiva de
corsarios e mais o marido e filhinha:  uma historia longa, que eu te
hei de mostrar escripta, em minha casa. No t'a sei dizer de memoria
porque ha quatorze annos que fechei e mais no vi os taes papeis, e j
era minha teno queimal-os para que por elles se no venha a descobrir
quem  D. Josepha, a filha do judeu Antonio de S. Esteve D. Maria
alguns poucos mezes em minha casa, soffrendo, sem treguas, molestia
incuravel: estava ethica. Lembrou-se de ir consultar medicos famosos:
bem sabia eu a inutilidade do passo; mas deixei-a ir ao Porto, a
consultar um famoso medico chamado o _Olho de Vidro_.

--Braz Luiz de Abreu--atalhou Francisco Luiz.

--Esse mesmo, cujo nome tantas vezes me fez lembrar o teu, que cheguei a
perguntar se elle seria teu parente; mas logo me disseram que no, e,
para prova de que no era, bastou-me saber que o Olho de Vidro era
familiar do santo officio.

Francisco Luiz interrompeu a narrao para referir a correspondencia que
tivera com o tal medico portuense, imaginando que elle, por um acaso
maravilhoso, poderia ser o filho de Antonio de S, uma creana que...

--Muita gente--accudiu Jos de Barredo--e eu mesmo pensei que fosse teu
filho...

--E admiro que no soubesses que era filho de Antonio de S!

--No sabia; porque, desde a fuga da morgada, nunca mais tive novas
d'algum d'elles, e bem sei eu por que: fiz repugnancia ao desvariado
procedimento d'ella; cheguei a fazer-lhe ameaas de a denunciar ao pae,
a ver se a dissuadia. Tu mesmo, se bem me lembro, ignoravas onde
estivessem alapados, e cuidavas comigo que se tinham embarcado para a
India. Depois desappareceste de Coimbra, e quando voltaste nada me
disseste, nem eu t'o levo a mal, porque sei quo perigosa era a tua
situao, e a dos paes de Antonio de S que o santo officio prendera na
Guarda. Sabia eu que uma mulher creava em Coimbra uma creancinha que tu
algumas vezes visitavas. Suppuz, como quasi toda a gente, que era teu
filho... Morreu esse menino?

--No sei. Presumo que sim. Ninguem me pde informar, e bastas vezes
pedi novas d'elle. Acaso te lembras da morte de Heitor Dias da Paz, de
Villa Flor?

--Lembro, foi em 1707.

--Nunca ouviste dizer que em poder d'esse hebreu estivesse um moo, que
ento devia ter entre quatorze e quinze annos?

--No ouvi dizer nada.

--Pois era elle, se existisse. Vamos ao fim da historia de D. Maria.
Valeu-lhe alguma coisa a medicina do tal Olho de Vidro?

--Nada. Passados trinta e tantos dias, chegou a Bragana a nova de que
ella tinha morrido, com o nome de D. Antonia da Piedade, e que sua filha
D. Josepha tinha casado com o medico Braz Luiz de Abreu. Aqui tens o que
sei. Haver cinco annos que eu fui ao Porto e procurei o Olho de Vidro,
no intento de ver D. Josepha. Disseram-me que elle, em resultado de
inimigos seus collegas, que assanhra com a publicao d'um livro
chamado _Portugal Medico_, tivera de afastar-se do Porto, e fra
estabelecer-se em Aveiro, onde tinha comprado muitos bens de raiz e
vivia abastadamente. As minhas occupaes no me deixaram ir a Aveiro, e
j agora morrerei sem ver D. Josepha, que deve estar perto dos quarenta,
ou quem sabe se j estar na eternidade!

--Irs agora a Aveiro comigo--disse Francisco Luiz.--Quero vel-a, sem
que ella saiba que eu fui o maior amigo de seu pae.  preciso temer-lhe
o marido, visto que elle tanta familiaridade tem com o santo officio. Tu
a procurars, e dars azo a que eu a veja e lhe falle como desconhecido.
Uma boa lembrana... Irei consultar-lhe o marido, fingindo de doente
estrangeiro, a quem chegou a nomeada de to abalisado medico.
Contar-lhe-hei muitissimos padecimentos que elle ha de classificar de
muitissimas maneiras, e assim estarei mais ao alcance de ouvir D.
Josepha dizer-me alguma coisa de seu pae. Ora, dize-me tu: nunca, D.
Maria te disse que deixra um filho em Portugal, quando fugiu para
Hespanha?

--Disse que esse menino o considerava morto: uma s vez me fallou
d'elle; mas as lagrimas eram tantas que eu me esquivei a pedir-lhe
pormenores da creana, de modo que nem soube que o menino ficra em tua
companhia, nem depois passra  dos Moraes de Villa Flor. Eu no te
disse ainda que D. Maria, s temporadas, parecia cair em modorra e
paralysia de entendimento. Esquecia-se e quedava-se n'umas cogitaes
taciturnas; e, se lhe tiravam muito pela falla, respondia disparates. De
sorte que eu, a respeito do filho, que ella dizia ter deixado em
Portugal, no cheguei a fazer perfeito juizo, nem a mesma filha estava
convencida de que elle tivesse existido: a prova era que ella ouvia com
certa estranheza as revelaes confusas que a me me fazia sobre as
desgraas do seu longo desterro e captiveiro. Pde ser que tu,
Francisco, se te deres a conhecer a D. Josepha, venhas a obter muitos
esclarecimentos, que eu mal posso dar-te porque sinto enfraquecida a
memoria, e preciso espertal-a com a leitura dos meus apontamentos. Quem
melhor te poder referir a vida de Antonio de S, a meu ver,  o marido
da filha; mas querer elle--o familiar do santo officio e author da vida
de Santo Antonio--que tu saibas a procedencia hebraica de sua mulher,
embora possa ufanar-se de serem netos de Ferno Cabral os seus filhos?
No ter elle medo de que o santo officio lhe sia ainda a pedir contas
 mulher dos delictos do pae e da me?

--Isso  claro--observou Abreu.--Nem eu lh'o perguntaria, nem elle me
contaria coisa alguma allusiva  filha de Antonio de S. De mais a mais,
j eu te disse que resposta me elle deu para Amsterdo. Devemos ir
prevenidos contra o genio irritavel do homem;  preciso muitissimo
cuidado, que no vamos indiscretamente perguntar-lhe de quem  filho.

No dia seguinte ao meio dia, os dois velhos chegaram a Coimbra, e
andaram procurando as differentes casas em que tinham morado.

Ao segundo dia de repouso, cuidaram em jornadear para Aveiro. Pouco
antes da partida, chegou a Coimbra um proprio enviado da casa de Jos de
Barredo; noticiando-lhe que sua mulher estava em perigo de vida.
Desfez-se o plano de irem juntos a Aveiro, e foram juntos para Bragana;
Francisco Luiz de Abreu quiz acompanhar o velho amigo, no proposito de
lhe desacerbar as lagrimas da viuvez, se a desgraa fosse inevitavel.

Era. Francisco Luiz assistiu aos funeraes da esposa de Jos de Barredo.
E quando o velho parecia conformar e esquecer-se entre as caricias de
muitos filhos, despediu-se por alguns dias, e saiu ssinho de Bragana
em direitura a Aveiro.




XII

Historia de Antonio de S


Recebeu Braz Luiz de Abreu aviso para ir ver um hespanhol que pousara
enfermo na estalagem.

Francisco Luiz queixou-se de varias molestias, ouviu o parecer do
medico, pagou-lhe generosamente e pediu-lhe que o visitasse todos os
dias.

Dos remedios receitados no se aproveitou, porque os achaques eram
phantasticos, e bem sabia o doutor Abreu como era facil enganar outro
doutor Abreu.

No dia seguinte, o Olho de Vidro encontrou melhorado o seu doente, e
sentiu-se ufano do acerto com que cortra pela raiz uma doena, com a
qual se tinham enganado os principaes medicos de Hespanha, segundo a
confisso do doente.

J o doutor Braz queria espacejar as visitas: o hespanhol, porm,
instava, pagando-as a brio, que no lhe faltasse diariamente com ellas.

Estava sendo celebrado em Aveiro este triumpho recente do Olho de Vidro.

J o convalescente se julgava restaurado, e o doutor como tal o dra; o
forasteiro, porm, affeioado  terra onde se recobrara, determinou
passar n'ella a primavera de 1732, e voltar nutrido a Castella, de modo
que os medicos madrilenses se comessem de inveja dos seus collegas
portuguezes.

O doutor Braz, como visse no seu enfermo D. Jos Aristizaval (assim era
conhecido em Aveiro) excellentes qualidades, contando n'estas a bizarria
indicativa de riqueza, convidou-o a servir-se de sua casa e da
convivencia de sua esposa e filhos, os quaes, dizia Braz Luiz, so
tantos que bastam a formar uma assembla em Aveiro ou saro d'aldeia,
que monta o mesmo.

Agradeceu e aceitou o convidado o offerecimento; e, logo  primeira
visita, brindou a esposa do seu medico e as cinco meninas, formosuras
muito de se verem, cada uma com sua joia de preo. Reparou logo e de
relance em D. Josepha, e recordou uma por uma as feies de D. Maria
Cabral.

Ficaram as meninas contentissimas dos presentes, que eram braceletes de
oiro, mandadas comprar ao Porto, com a designio j posto no destino que
tiveram. Entretido n'estas coisas, mistura de puerilidade e bons
sentimentos, o espirito de Francisco Luiz a cobrando alento e certa
energia. Grande parte n'esta sua insolita actividade era por certo a
esperana de saber pelo miudo a vida tragica do seu amigo Antonio de S.

Seguiram-se as visitas e foi-se apertando a intimidade. As meninas e os
rapazes folgavam muito de ouvir o velho D. Jos contar historias
curiosas das suas navegaes. Um dia, veio ao ponto uma batalha de
corsarios com uma no hollandeza, em que elle viajava na costa de S.
Domingos.

--De S. Domingos!?--exclamou D. Josepha.--J esteve n'esses sitios
vossemec?

--Avistei-os--disse o hospede.

E inventou uma rija peleja entre hollandezes e piratas, descripo
temerosa que tinha os ouvintes espavorecidos.

Terminou o saro d'aquella noite; e, na seguinte, Braz Luiz de Abreu,
cada vez mais entrado de affecto ao hespanhol, lhe disse:

--D. Jos Aristizaval, hoje sou eu o narrador de desventuras de
navegantes. A historia que eu vou referir s a sabe em Portugal minha
mulher e eu: de hoje vante ficam-na sabendo o meu honrado hospede, que
a no ha de repetir a portuguezes, e os meus filhos, que por interesse
seu, ho de calal-a.

--Honrado sou eu por benevolencia do doutor--se vossemec me considera
egual com seus filhos no merecimento de entrar no segredo de seus paes,
respondeu Francisco Luiz.

-- segredo de tanto porte--accrescentou o medico, abaixando a voz--que
no sei d'outro em minha vida com que possa mostrar-lhe a confiana que
me merece, senhor D. Jos.

E, passados alguns segundos, Braz Luiz de Abreu, silenciosos
profundamente os ouvintes, principiou assim:

--Minha sogra era filha de um dos primeiros fidalgos de Traz-os-Montes.
O solar dos Cabraes de Carrazedo  um dos mais antigos de Portugal. Meu
sogro era hebreu, e chamava-se Antonio de S Mouro, natural da Guarda.

Fugiram de Portugal com admiravel fortuna, e casaram-se segundo o ritual
hebraico, presumo eu. Meu sogro, ao tempo da fuga, estudava medicina, e
tomou gro em uma das universidades estrangeiras. Esteve alguns annos na
Europa; e, como o dominava a paixo de ser rico, aceitou partido muito
vantajoso que os francezes lhe offereciam no Canad, e embarcou em
Marselha, quando minha mulher era creancinha.

Na altura da costa de S. Domingos, a no em que elle se embarcra perdeu
o rumo, e foi levada contra a costa, por no ter tempo de fazer-se ao
mar quando a tormenta se levantou. Antes que o navio se despedaasse,
alguns passageiros aventuraram-se n'uma lancha a ganharem a praia por
entre as fauces da morte. Com os aventureiros ia meu sogro, e a esposa
com a filhinha nos braos, dispostos a descerem ao abysmo abraados.

J perto de terra, onde levavam postos os olhos, avistaram dois navios
de pequeno lote, e chusmas de tripulantes vestidos de trajos
extravagantes. Um conhecedor d'aquelles mares reparou nos homens da
patria, que se moviam vertiginosamente, e exclamou:

--So os demonios do mar! So flibusteiros![30] Vejam l o que querem:
morrer no mar ou no captiveiro d'aquellas bestas-feras?

Ninguem optou por morrer no mar. Os passageiros da lancha, bebendo a
morte a cada instante, conclamaram que antes queriam o captiveiro do que
a morte horrivel de afogados.

Antes de chegarmos a terra, ouviu-se uma grande celeuma do mar a dentro.
Olhmos todos para a no, e vimol-a sossobrar, e uma montanha de vagas
abater-se sobre ella. Soltmos um grito unisono de consternao! Alguns
dos aventureiros gritavam por esposas, por paes e filhos!... Que
situao, senhor D. Jos! D'um lado, aquelle naufragio horroroso, do
outro os flibusteiros, que esperavam anciosos a prsa, que se lhe ia
entregar aos ferros. Assim que a lancha bateu em terra, os bandidos
rodearam a prsa, e mal ouviram no sei que palavras ditas por meu sogro
a sua mulher, bradaram todos: C temos um co de hespanhol! E a um
tempo se lanaram todos a elle, como se entre si disputassem com
especial odio a posse d'aquella victima distincta das outras. Como se
explicava o particular rancor que os flibusteiros tinham aos hespanhoes?

--Se eu no receasse interromper a sua interessante historia--disse
Francisco Luiz--lhe daria a razo d'esse odio, se  que sua esposa no
quer explicar-lh'o melhor do que eu sei, por m'o haverem contado e no
por experiencia.

--Minha mulher, disse Abreu, ignora-o, porque muitos annos viveu longe
do trato de tal gente, e no sabe explicar-m'o.

--Em poucas palavras o farei--tornou o hospede.--Os pontos essenciaes da
ilha e costa de S. Domingos pertenceram aos hespanhoes. Um dia, chegaram
 costa septentrional d'aquellas possesses algumas galeotas de
aventureiros francezes, mesclados com malfeitores foragidos de todas as
naes, homens sem patria, escapados do cadafalso, feras tremendas, que
precisavam embriagar-se de sangue para gosarem algum prazer n'este
mundo. A estas escorias sociaes congregaram-se outras da mesma indole
saidas de Guadelupe, de Granada e da Martinica. N'aquellas vastas
florestas acharam que farte sustento, na abundancia de manadas de toiros
bravos, de javalis, e vaccas mansas, que os hespanhoes por l deixaram
medrar e multiplicar. A riqueza de cada um de estes bandidos compunha-se
de uma boa matilha de rafeiros, d'uma enorme espingarda, duas camisas,
uma jaleca, um chapo de feltro, um calo, e uma grossa correia  cinta
com uma espada curta e tres facas de matto pendentes. As casas d'elles,
durante as sortidas  rapina, eram barracas de fina lona, com a qual se
defendiam das ferroadas dos moscardos e das geadas homicidas. Viviam aos
dois, antes que a Frana lhes mandasse mulheres, e, por morte de um, era
herdeiro o outro. Raras vezes se desavinham, e quando se desafiavam
matavam-se a tiro de espingarda. Se o morto no recebesse os pelouros
pela frente, o assassino era logo degolado como traioeiro.

O principal commercio d'elles era carnes seccas e pelles, que iam vender
s enseadas da costa, mediante uns assalariados, que tratavam entre
elles e os compradores, na esperana de voltarem ricos da America, onde
se lhes ia a vida em durissimo captiveiro.

Quando os hespanhoes da ilha de S. Domingos deram tento dos salteadores
nas visinhanas das ilhas, tiraram-se da lethargia de suas riquezas,
pediram tropas ao rei de Hespanha e fizeram guerra implacavel aos
flibusteiros, matando-lhes muitos dos mais audazes. D'este comeo de
exterminio se gerou o odio dos bandidos  Hespanha, e mais ainda por
causa do golpe mortal que soffreram, quando as tropas entraram s
mattas, e mataram os rebanhos mansos e bravos, que o mesmo foi seccar as
fontes de subsistencia d'aquellas hordas. Eis aqui, a meu ver, a origem
do inquebrantavel rancor dos chamados _demonios do mar_. Agora, vamos 
historia do senhor Antonio de S, meu sogro.

--Meu sogro, minha mulher e filho--continuou Braz de Abreu--foram
remettidos  Martinica n'uma gal, que vogava com mais de cem homens. O
capito dos flibusteiros residia alli, como governador, e chamava-se
Duparquet...

--Devia ser filho--atalhou Francisco Luiz--de um francez tambem chamado
Duparquet, levado s honras de governador em 1637 por Luiz XIII de
Frana, a quem convinha alianar-se com _to honrados_ vassallos.

--Duparquet, sabendo que o hespanhol captivo era medico, tratou-o com
alguma affabilidade, e encarregou-o de lhe curar de cameras uma filha.
Meu sogro saiu felizmente do encargo, e foi considerado por isso medico
da casa do governador. N'aquelle anno, que me parece seria o de 1697 ou
98, segundo as confusas lembranas de minha sogra, meu sogro foi mandado
embarcar n'uma no de quatro peas, da qual se arvorra almirante um
francez chamado Legrand, o mais temivel flibusteiro d'aquelles mares.
Antonio de S curou muitos mutilados n'uma abordagem aos galees de
Hespanha, e, pela pericia com que o fez n'um grave ferimento de Legrand,
ficou desde logo nomeado escravo e medico do almirante. Meu sogro
assistiu ao assalto de Maracaibo, riquissima cidade e bem guarnecida,
que se deixou entrar e saquear por quatrocentos salteadores.

Tambem assistiu  tomada de Carthagena pela esquadra franceza, auxiliada
por flibusteiros, que lhe deram a victoria.

No afogo d'esta peleja, Antonio de S, quando estava penando as feridas
de seu senhor, foi gravemente ferido de bala. A convalescena foi longa.
N'este intervallo, em que elle se tornra inutil, pediu licena para ir
vr  Martinica sua mulher e filha. Negaram-lh'a; mas concederam-lhe que
a familia o fosse visitar nos arraiaes movedios de sobre as ondas.

Legrand tinha residencia em S. Domingos, onde se desfadigava das
batalhas navaes, exercitando os seus lees do mar. Obrigou, portanto, o
prezadissimo escravo a viver com elle. D. Maria, minha sogra, passou 
companhia do marido, e minha mulher que tinha ento seis annos, ficou em
casa do governador da Martinica, por que a filha predilecta de Duparquet
se habitura a consideral-a a sua escrava loura.

Por muitas vezes, Antonio de S Mouro supplicou a Legrand, que, em paga
de seus servios, o deixasse passar com sua familia  Europa. O francez,
importunado pela teimosia de taes rogos, ameaou-o de o mandar matar, se
elle tentasse fugir!  onde podia chegar a gratido do flibusteiro
almirante!

Minha sogra me disse que, decorridos cinco annos, o marido escrevera
desde S. Domingos a um amigo muito querido, que tinha em Portugal. A
carta, porm, foi devolvida passados dias a Antonio de S, com a
seguinte reflexo do governador almirante: Os escravos dos
flibusteiros, se teimam em escrever cartas para Hespanha, correm o
perigo de no poderem j ler as respostas, quando ellas voltarem.

Nunca mais Antonio de S escreveu ou tentou escrever para Portugal.

O medico ia enriquecendo com as liberalidades dos flibusteiros; porm,
um dia, achou-se roubado, no obstante ser pouquissimo vulgar o
latrocinio entre elles. Seria porque ao portuguez ou hespanhol o
consideravam estranho  sua tribu, e como tal indigno de se gosar dos
foros de lealdade, que uns com outros guardavam.

Minha mulher corria por este tempo nos seus dez annos. O pae
consternava-se de a ver crear-se entre gente brutal, e rodeada de
creaturas ignobeis do seu sexo, recenseadas nos lupanares de Paris e de
Marselha, enviadas como presas s colonias.

Antonio de S, aproveitando o lano de ter captivo o animo do
governador, depois da cura de doena grave, pediu-lhe licena para
enviar a filha a educar-se n'uma casa de religiosas francezas. O
governador condescendeu, e enviou duas netas ao mesmo collegio, na
primeira no que saiu para Frana.

Meus sogros presumiam que lhe seria menos embaraada a fuga podendo
passar a filha  Europa. Enganaram-se; por que Duparquet, arrependido da
concesso, redobrou de vigilancia sobre os menores passos do seu medico.




XIII

Seguimento da historia


--Antonio de S--proseguiu Braz Luiz--foi chamado a curar de febres um
judeu rico da Normandia, que se passara com grande companhia de hebreus
pobres a fundar uma colonia na costa de S. Domingos, com licena do rei
de Frana e beneplacito do governador. Meu sogro, cumulado de
liberalidades do seu restabelecido enfermo, deu-se por bem pago da
amizade do hebreu, a quem se revelou proscripto da nao fiel, e
evidenciou sua origem, praticando com elle as ceremonias judaicas.

O colonisador estimava-o muitissimo. Animou-o a declarar-lhe o seu
intento e pedir-lhe coadjuvao para a fuga. No lhe encareceu o hebreu
grandes difficuldades  boa saida do plano; assegurou-lh'a facil, logo
que, fundada e solidificada a colonia, elle se fizesse na volta de
Frana.

O medico, alentado de esperanas, aguardou anno e meio a almejada hora;
todavia, minguou-lhe a necessaria prudencia, porque, sem grande recato,
comeou de longe a simplificar os valores que tinha, trocando-os por
pedras preciosas e coisas de facil transporte.

Chegado o tempo da saida do opulento hebreu, conforme ao plano gizado
pelos dois, inventaram uma epidemia na colonia, e pediu-se ao governador
a assistencia do medico hespanhol. Duparquet mandou conhecer da epidemia
clandestinamente por um cirurgio francez, fugido das gals de Marselha,
e foi certificado de que era imaginaria a contagio. Foi o hebreu
normando chamado  Martinica, quando j Antonio de S se desconfiava de
certos tregeitos que vira na m cara do governador. O judeu, porm, mais
desconfiado ainda que o seu protegido, respondeu affirmativamente ao
commissario de Duparquet, e em vez de velejar para Martinica, mandou
aproar s ribas normandas e accender os morres para incutir respeito s
gals de flibusteiros ancoradas na costa.

Antonio de S foi o bode expiatorio da affronta, se mais bodes no foram
os judeus da colonia que o governador mandou passar  espada, sem
perdoar sequer a mulheres e crianas. Meu sogro teria sido
espingardeado, se a esposa se no lanasse em joelhos aos ps da filha
de Duparquet, a quem o marido por duas vezes arrancara s presas da
morte.

Depois de preso alguns mezes, Antonio de S foi chamado  presena do
governador e perdoado. Prgou-lhe o francez um demorado sermo, recheado
de censuras contra o feio crime de ingratos da laia d'elle medico, o
mais venturoso homem que ainda tinha cado em unhas de flibusteiros, e
homem de mais a mais filho das Hespanhas. Lembrou-lhe os beneficios
desusados com que lhe galardoara os seus bons servios como medico, e os
conselhos que lhe dera sobre o modo de enriquecer-se e constituir-se um
dos mais ricos proprietarios das colonias de S. Domingos. Lembrou-lhe o
resgate que lhe dera da filha, tendo-a alis destinada, como
formosissima que era, a casar com um seu neto.

Antonio de S respondeu com muitas lagrimas, talvez suggeridas pelo
recordar-se da filha, e desesperana de tornar a vel-a. Estas lagrimas
compadeceram o governador, que o abraou estreitamente, e lhe pediu que
se deixasse estar at que um dia passassem ambos a Frana.

O medico resignou-se e esperou.

Entretanto, senhoreou-se d'elle presadissima tristeza, que a pobre
esposa no sabia nem podia consolar. Esquartejava-lhe o corao aquelle
espectaculo de incessante latrocinio e sordido desavergonhamento de
costumes. Olhava contra o mar, e perdia a vista afogada nas lagrimas,
exclamando: No hei de mais ver-te,  minha filha... no hei de mais
ver-vos, meus filhos...

--Pois elle tinha mais que uma filha?--perguntou Francisco Luiz de
Abreu.

--Essa mesma pergunta fiz a minha sogra--disse Braz--; mas a resposta
era um silencio indecifravel, um esquisito amuar, que nem eu nem minha
mulher ainda agora podemos atinar o que fosse... A meu juizo, minha
sogra padecia umas turvaes, a revezes, durante as quaes era preciso
que a gente se no demorasse a querer entendel-a ou interrogal-a, que
ento rompia em alto choro ou carregava iradamente a sobrancelha.

Meu sogro foi um dia com sua mulher supplicar ao governador que os
deixasse sair, ou os mandasse matar.

O francez condoeu-se, e mandou-os retirar benignamente, e esperar
resposta em occasio opportuna. A opportunidade chegou tarde.

Tinham j decorrido doze annos n'aquelle viver, em que outro qualquer
homem acharia distraco, enriquecendo-se, e sabendo aproveitar-se
d'esse lado unico, e todavia o mais bello para muita gente.

Enfermou gravemente o medico: quem sabe se elle a si mesmo ministrou o
veneno, que o ia corroendo vagarosamente? A sua maxima afflico era
antever a morte da esposa antes da sua. Isto attribulava-o, como se j a
estivesse vendo sobre terra. Ia-se a ella debulhado em lagrimas, e
rogava-lhe de mos postas que tivesse mais fora d'alma, mais coragem do
que elle tinha para arrastar aquellas cadeias.

Pde ser que afinal se lhe espessassem sombras de demencia na grande luz
de razo com que entendera os arcanos da sciencia, quando a estudava em
Coimbra...

--Fallou vossemec com alguem que o houvesse conhecido em
Coimbra?--perguntou Francisco Luiz.

--Fallei com os meus lentes, que todos tinham sido condiscipulos e
contemporaneos d'elle, e lhe perdoavam o crime do rapto e do hebraismo
em desconto de sua alta capacidade para as divinas sciencias medicas...
Em que ponto estavamos?

--Na doena do pae...--disse D. Josepha.

-- verdade... na doena do meu sogro que foi a primeira e ultima da sua
vida. Minha sogra, quando chegava a esta final jornada da sua tragedia,
parece que se lhe apagava o entendimento. Soluava, com os braos
cruzados sobre o seio, e os olhos cravados no alto ponto onde ella
imaginava por ventura entrever o espirito de seu marido. O certo  que
elle morreu em 1716, consoante o calculo de minha mulher, que ento j
contava os seus vinte e um annos, dez dos quaes tinham sido vividos n'um
convento.

A compaixo franqueou a minha sogra a saida da colonia. Apossou-se da
herana do marido que devia ser grande. Embarcou em um navio marselhez,
que voltava do Canad; antes, porm, de saltar de um barco de
flibusteiro ao navio francez, j estava roubada do mais precioso da sua
fazenda.

A pobrinha no se queixou, nem de ver-se pobre cobrou grande angustia.
Lembrou-se de que tinha uma filha, uma patria, e n'ella os haveres de
seu pae, que deviam ser a riqueza de sua filha.

Procurou em Frana o convento de sua filha, a qual duvidou reconhecer a
me. Saiu minha mulher da casa religiosa, e assim se viram duas senhoras
desamparadas em meio da Frana, entregues  propria deliberao. Alguem
as enviou ao ministro portuguez em Paris, que lhes ouviu a historia com
sentimento, e caridosamente aconselhou a minha sogra que se houvesse
muito prudente com o santo officio de Portugal, em cujos archivos o nome
d'ella devia estar escripto para eterna memoria. Porm, como quer que D.
Maria teimasse em sair para a patria, o ministro advertiu-lhe que
mudasse de nome, e se valesse das cartas que lhe deu, caso a inquisio
a perseguisse, por effeito de alguma irreflexo d'ella, quanto 
exigencia dos haveres de seus paes.

Proseguiu Braz Luiz de Abreu, relatando o que j  notorio ao leitor,
at ao seu casamento com a filha de D. Maria Cabral, fallecida no Porto.

--Crucificada existencia foi pois a de Antonio de S Mouro!--murmurou
muito recolhido Francisco de Abreu, e assim se esteve cogitativo por
largo espao.

--Vejo que lhe fez commoo esta funebre historia!--disse D. Josepha.

--Muitissima dr!--murmurou o hospede, limpando o rosto coberto de
lagrimas.--Pobre homem!... que destino!... que vida!... Como o mundo
debaixo do co est infamado de tamanhas desgraas!... E vale a pena o
viver!... E no morrem afogadas as creancinhas s mos de seus paes!...

Braz de Abreu, esposa e filhos todos tinham os olhos amarados de pranto.

Francisco Luiz levantou-se, beijou as meninas mais novas, apertou a mo
de D. Josepha, e despediu-se offegante de soluos.

--Que sensibilissimo homem!...--disse o medico.




XIV

O segredo horrivel


Ao outro dia, Francisco Luiz foi convidado a jantar com o seu medico. A
condolencia a que o movera a infelicidade do hebreu S Mouro atou mais
n'alma os liames de sympathia com que o Olho de Vidro o entranhra na
intimidade dos seus.

O israelita de Ourem ia triste. Dir-se-ia que nunca elle, at  vespera
d'aquelle dia, devras se convencra da morte do seu Antonio de S.
Tantos annos idos, e elle ainda a querer-lhe e como que a esperal-o! J
o seu contemporaneo Barreto lhe havia dito na summa o que Braz de Abreu
lhe dissera, e todavia o convencimento da morte do marido de D. Maria
no o tinha ainda penetrado, ao que parecia.

Durante o jantar, como nenhum estranho assistisse, a fra o
hespanhol--que nunca se esquecera de o ser na linguagem--praticaram
largamente cerca dos actos do santo officio na Peninsula. O hespanhol
relatou a sorte dos judeus em diversas partes do mundo, para concluir
que em Portugal e Castella eram elles mais perseguidos do que poderia
sel-o no inferno se, como piamente cria, Deus os tinha castigado com
fogo infinito.

Braz de Abreu, posto que familiar do santo officio, recebeu de boa
sombra aquella um tanto ironica reflexo do commensal, attribuindo a
genio espanholado a comparao faceta.

Voltando  conversao da noite anterior, reflexionou Francisco Luiz
que, tendo estudado algum tanto os factos da inquisio de Portugal,
notra que a santa bandeira de S. Domingos de Gusmo era pouquissimo
misericordiosa com os hebreus medicos ou estudantes de medicina. E
ajuntou:

-- sabido segundo me fizeram crer alguns foragidos de Portugal, que os
estudantes de medicina apenas licenciados, ou se acreditavam como
familiares do santo officio, ou se expatriavam antes que a inquisio os
desterrasse d'este mundo. Dou como exemplo Henrique de Castro
Sarmento...

--Foi meu condiscipulo--atalhou Braz de Abreu.

--Pois ento sabe vossemec que elle est em Londres, com o nome de
Jacob de Castro Sarmento, em tanto credito e dignidade que, pouco ha,
foi elevado  cathegoria de membro do collegio real dos medicos, e socio
da sociedade real de Londres? Este grande sabio, e co-reformador da
sciencia, que seria hoje em Portugal, se no se evadisse d'aqui uns
quatro annos depois de licenciado? Seria poro d'essa vasa do Tejo por
onde se misturam as cinzas de muitissimos da sua raa e do seu alto
entendimento. Outro medico houve ahi em Coimbra, segundo me disseram,
que chegou a pertencer ao corpo cathedratico, e teve de fugir com sua
mulher para a India hollandeza.

--Quem era? perguntou o doutor.

--Se bem me lembro, tinha elle um nome assaz parecido com o de
vossemec. Chamava-se Francisco Luiz de Abreu.

-- verdade!--acudiu D. Josepha--que nome to similhante!...

--E no sei--disse meditativo Braz Luiz--como esse nome me desperta
coisas da minha primeira mocidade!

--Pde ser--tornou o hospede--que, no tempo em que vossemec estudou, se
fallasse ainda no lente fugitivo.

--Creio que sim: ha de ser d'esse tempo que me vem estas vagas
memorias--redarguiu o Olho de Vidro.--Creio at que elle teria sido
contemporaneo de meu sogro.

--Provavelmente seria--obtemperou Francisco Luiz.

--E a mim me est parecendo--acrescentou D. Josepha--que alguma vez ouvi
meu pae proferir esse nome.

--Ouviu?--perguntou o hospede com o corao sobresaltado.

--Ouvi, sem duvida... _Francisco Luiz de Abreu_... Pois no ouvi?
quantas e quantas vezes?... Que fim teria esse homem?

--Provavelmente morreu, senhora--respondeu o hebreu; e proseguiu sem
sensivel mudana de rosto:--Pois ahi tem, senhor doutor Braz, outro
exemplo de perseguio  medicina. Ainda bem que vossemec no teve de
provar que o seu apellido nada tinha que ver com o do medico fugitivo.

--Nada--balbuciou Braz Luiz, receando que, deps isto, disparasse a
affrontosa pergunta de quem era filho.

Francisco Luiz, n'este lance, lembrou-se da resposta que o _Olho de
Vidro_ lhe mandra bastantes annos antes, e sorriu-se interiormente do
dito d'aquelle hebreu, que ao mesmo lhe escrevia presumindo que Braz
Luiz de Abreu era filho sacrilego de um frade, seno fosse filho de tres
frades ao mesmo tempo.

A pratica ficou por aqui, visto que a physionomia do dono da casa
expressava nenhuma satisfao de que ella se proseguisse.

Todavia, D. Josepha, quando j estavam sentados  lareira, porque a
tarde era de maro, disse:

--No me sae da lembrana o nome de Francisco Luiz de Abreu!... A gente,
quando entra a envelhecer, recorda-se de coisas da infancia, esquecidas
no correr de muitos annos...

--A envelhecer!--disse risonho o hospede--vossemec, minha senhora, est
ainda muito no vigor da vida. Ter quando muito...

--Trinta e sete annos--concluiu D. Josepha.

--Pois ahi tem: ainda no chegou a meio caminho. E quem ha de dizer que
j aqui tem esta senhorita, que representa dezoito, e apenas ter...

--Treze--disse a me, correndo a mo pelos cabellos negros da sua
primogenita Anna Maria.

--E estes mocinhos, doutor? que destino tenciona dar-lhes?--perguntou o
hospede.

--Se o meu plano fr vante, ir um para a companhia de Jesus, e outro
para medicina.

--Cuidado com a medicina!--observou jovialmente Francisco Luiz--Fao-os
ambos jesuitas, que os far ambos dois grandes homens.

--Pois D. Jos receia--dizia Braz Luiz algum tanto acrimonioso--que um
meu filho, se fr medico, possa parecer judeu?

--Deus me livre de receiar similhante coisa! mas a mim quer-me parecer
que a inquisio, quando no ha judeus, encarrega-se de os fazer, talvez
por ter lido as santas palavras de Jesus que resam: _ necessario que
haja escandalos_.

--Como amigo--acudiu Braz Luiz--lhe peo que no falle assim diante de
alguem. Lembre-se que est em Portugal, D. Jos!...

--Bem sei, meu amigo; e, se outra vez me esquecer, rogo-lhe que m'o
lembre. Agora me estava eu imaginando entre pessoas que muito me
estimam, por isso me deixei levar d'uma invencivel propenso a
estigmatisar as injustias, ou ellas partam dos reis, ou dos ministros,
dos papas ou dos inquisidores. D'isto, d'esta perigosa exempo e rudeza
de espirito, procede no ter eu paragem certa sobre este solo cavado de
abysmos, e andar-me sempre perigrinando de solido em solido, para ser
ouvido da minha consciencia smente...

--Em nossa casa pde fallar--retarquiu o doutor--como falla a ss com a
sua consciencia, D. Jos Aristizaval. A observao peo-lhe que m'a
receba de bom animo, porque entende com o seu socego e deve servir-lhe
n'um paiz que vossemec conhece pouco.

--Mercs, meu amigo!--tornou Francisco Luiz de Abreu.--O que eu sei de
Portugal  verdadeiramente a historia da sua inquisio, e pouco mais...
Ha pouco lembrou-me o nome de um condemnado ao fogo... tambem medico ou
estudante de medicina... mas... passou-me... Deixe estar... Deixe ver...
Ah! recordo-me... Chamava-se elle Heitor Dias da Paz... Vossemec havia
de ouvir fallar de Heitor Dias da Paz, que, segundo me affirmaram,
andaria por Coimbra desde 1701 at 1704, uma coisa assim, pouco mais ou
menos.

Braz Luiz fitara os olhos n'um ponto da fogueira, como quem finge que se
est recordando, e disse, corridos dois segundos, com profunda tristeza:

--Conheci-o.

--Pessoalmente?

--Pessoalmente.

N'este comenos, Braz Luiz, fitando o ouvido, como se ouvisse voz no
interior da casa a chamal-o, ergueu-se.

--Ninguem te chamou, Braz--disse D. Josepha.

--Parece-me que sim... ouvi que me chamavam.

--No sero familiares do santo officio, que me requeiram para maior
gloria de Deus!...--observou o hebreu como comico tregeito de quem se
esconde.

--Venha comigo  sala, D. Jos, se no tem muito frio--disse o _Olho de
Vidro_.

--Quem fallou na inquisio que sentisse frio? Estas praticas so
excellentes no inverno...--respondeu Francisco Luiz, cuidando que o seu
hospedeiro amigo lhe ia solemnisar com toda a gravidade possivel os
sustos de o ver a braos com o santo officio.

Braz Luiz, entrado  sala, deu alguns passeios meditativo, examinou as
portas receiando a curiosidade da familia, e disse a meia voz ao muito
attento e como espantado hospede:

--Conheci-o, e conheci-o muito.

--A quem?! perguntou como j esquecido Francisco Luiz.

--A Heitor Dias da Paz.

--Ah... j me no lembrava que estavamos fallando n'esse infeliz
mancebo, cujos parentes conheci em Amsterdo... Devo dizer-lhe, meu
amigo, que Heitor e o pae de Heitor, que se chamava...

--Francisco de Moraes Taveira...

--Justamente... so considerados santos no martyrologio ou cathalogo dos
martyres hebreus. Isto presenciei eu e li nas dypticas da synagoga
hollandeza chamada a _Casa de Jacob_... Com que ento conheceu vossemec
mui de perto...

--Conheci, como se conhece um irmo--acudiu Braz Luiz.--No lh'o disse
diante de meus filhos, porque  meu dever de pae e de christo esconder
d'elles coisas tristes da minha mocidade, por isso que o mundo, se m'as
soubesse, faria d'ellas espinhos, que me entrassem pela fronte dentro e
me levassem a morte ao corao. Vou contar-lhe com egual sinceridade 
da historia de meu sogro, o que eu sei de Heitor Dias da Paz e... de
mim. As mais antigas reminiscencias da minha infancia prendem-se a
Heitor Dias da Paz.

Ditas estas palavras, Francisco Luiz de Abreu ouviu o bate de uma forte
pancada no corao. Braz devia ver-lhe a subita alterao do aspecto, se
tivesse mais claridade a sala, e elles no estivessem sentados no
recanto mais escuro d'ella.

Braz Luiz continuou:

--Lembro-me de algumas coisas dos meus seis annos. Vejo uma mulher que
me aperta ao corao, e desapparece para nunca mais ser vista. Nem j
sei que feies ella tinha, nem sei onde a vi.  a recordao de um
sonho isto, e pouco mais. Perguntei depois quem era aquella mulher, e
responderam-me que fra uma viso; e, se no era viso, mais tarde eu o
saberia. Ora, as pessoas que podiam dizer-m'o, porque assim m'o tinham
promettido, morreram. Uma era Francisco de Moraes, e outra era o filho,
o suppliciado Heitor.

Francisco Luiz arfava ancioso: ia-lhe no intimo coisa mais attribuladora
que o susto da morte. Braz deu conta do que havia indissimulavel em
tamanha anciedade; mas attribuiu tal inquietao ao natural condoimento
do seu ouvinte.

E, proseguindo, disse:

--Heitor Dias chamava-me irmo; e Francisco de Moraes abenoava-me como
a filho.

--Vossemec vivia em casa d'elles?

--Vivia, desde os seis annos, como j lhe contei. Passados alguns,
Heitor foi para Coimbra, e levou-me comsigo. Prestacionou-me para eu
entrar no collegio de S. Paulo. No principio do anno de 1704. Heitor
Dias foi preso, e smente depois de 1707 alguns mezes, soube que a
inquisio o condemnra a ser queimado vivo, e que o ancio--o
desgraado que no tinha outro filho, e chorava a mulher na sepultura
ainda fresca--saindo ao encontro da procisso do auto da f, se
suicidara em presena de Heitor.

Francisco Luiz de Abreu levantou-se hirto, de golpe, tremente e pallido.

Este movimento como que levantou o marido de D. Josepha pelos cabellos,
sem que elle comprehendesse a fora mysteriosa que o repuchava.

--Que tem, D. Jos?--perguntou o medico.

--Eu no comprehendo o horror da sua situao!--murmurou Francisco de
Abreu em legitima lingua portugueza, tapando os olhos com as mos
convulsivas.

--No comprehende o que?!--interpellou Braz estranhando grandemente a
mutao de linguagem.

--Como se chamava seu pae?--perguntou com palavras intercortadas pela
abafao o hospede.

--No sei...--tartamudeou o interrogado.

--Porque se chama Braz _Luiz de Abreu_? Como ajuntou este sobrenome e
appellido ao seu nome baptismal?

--Porque assim o achei escripto n'um abcedario da minha infancia.

--Que desgraa!--exclamou Francisco Luiz, e comeou passeando
vertiginosamente na sala!--Que desgraa, Deus do co!...

Braz encarava-o com terrivel spasmo procurando nos olhos do seu hospede
algum symptoma de demencia.

N'isto, Francisco Luiz vae direito ao medico, como que o fora a fazer
p atraz de espavorido, e diz-lhe:

--Vossemec ama muito sua mulher?

--Se amo muito minha mulher? Como a Deus, mais do que a Deus! mais do
que aos meus filhos!...

Fitou-o com os olhos cheios de lagrimas o hospede, e disse-lhe:

--No me falle por alguns minutos... no me falle... deixe-me pensar...
mas o melhor  que eu me v, e voltarei n'outro dia.

--No... ha de explicar-me o que  isto... A sua linguagem  outra... Ha
terrivel segredo aqui, ou o meu amigo enlouqueceu... Tire-me d'esta
incerteza, por quem ...

Deteve-se silencioso largo espao o hebreu. Estava aquelle afflictissimo
homem perguntando  sua consciencia, se no seria mais grato a Deus e 
humanidade que um peregrino vindo d'alm mar no entrasse um dia aos
paos de Manuel de Sousa Coutinho a dizer a D. Magdalena de Vilhena que
no podia ser mulher do homem que lhe chamava esposa! Se no seria mais
humano e santo que aquelle peregrino passasse por diante da casa dos
felizes, e dissesse: Deixae-os viver e morrer ditosos na vossa
ignorancia! No serei eu quem v vestir-vos a mortalha, e dizer-vos:
sepultae-vos!

Assim pensava Francisco Luiz, e curava j de remediar o alvoroo em que
pozera o seu amigo, quando este o abraou com impeto, e lhe disse em tom
violento:

--Quem  meu pae? Quem sois vs, homem! Respondei, que eu sinto o peito
alanceado de mortaes agonias!

--Falle baixo, senhor Braz Luiz de Abreu--disse moderada e placidamente
o hospede--Falle baixo, que est alli dentro a me com sete filhos.

E desapertou-se dos braos d'elle para fugir.

--No!--exclamou o medico--no ir de minha casa, sem me dizer o que
sabe do meu nascimento. Que importa que me diga que sou filho de um
hebreu? que meu pae morreu queimado? que Heitor Dias era meu irmo? que
o meu appellido  o de algum facinora? Diga, diga tudo, que a mim
basta-me a consciencia da minha vida honrada para me acobertar dos
insultos do mundo! Farto d'elles estou eu, por que me chamam engeitado!
Diga-me seja o que fr, que eu lh'o peo com as mos erguidas! Por Deus
no minta, senhor! Conheceu meu pae? conheceu minha me?

--Conheci.

--Jura-m'o pelos Santos Evangelhos?

--Eu no reconheo a santidade dos Evangelhos. Juro-lh'o pela honra
d'este homem, d'este hebreu queimado em estatua, d'este homem sem terra
nem familia, chamado Francisco Luiz de Abreu. Jura-lh'o o homem que
recebeu nos braos ha quarenta annos uma creancinha, que depois se
chamou Braz Luiz de Abreu. Jura-lh'o o homem que depositou essa
creancinha, quando os esbirros da inquisio o perseguiam, nos braos de
Francisco de Moraes Taveira, de Villa Flor. Jura-lh'o o maior amigo de
seu pae! Jura-lh'o o homem que enchugou no seu rosto as ultimas lagrimas
de sua me...

--Mas o nome de meu pae--atalhou Braz de joelhos, com as mos erguidas e
trementes.--O nome de meu pae, senhor Francisco Luiz de Abreu.

--Dir-lh'o-hei ao ouvido--disse o hebreu, inclinando-se  orelha do
medico.

Braz expediu um brado estridente, ergueu-se de salto, e clamou:

--E o nome de minha me?

--Pergunte a sua irm,  me dos seus sete filhos, como se chamava a me
d'ella.

--Como , meu Deus?! como ?! por caridade, salve-me d'esta duvida
atroz... Minha irm!... quem  minha irm, senhor?

-- a filha de sua me.

Abriram-se os batentes de uma das portas da sala. A mulher que entrou,
fechando a porta para que os sete filhos a no seguissem, impetuosa,
como cega de furia, ou impulsada de um grande terror, terror como de
incendio que ameaava devorar-lhe as creanas, ia lanar-se nos braos
do marido; e, como lhe faltasse o amparo d'elles, caiu de rosto no
pavimento, e soltou do peito uma soada rouca, similhante ao estallido de
todas as fibras da vida.

O quadro era de mais pavor do que pde exprimir lingua humana.

Francisco Luiz poz a mo na fronte glacial e disse entre si:

--Maldito eu seja, que trouxe a desgraa e a vergonha a esta familia!

Braz Luiz inclinou-se a levantar a me de seus filhos nos braos que a
no podiam suster. Chamou as filhas mais velhas, e mandou-lhes que
levassem sua me ao leito. Acercou-se de Francisco de Abreu que estava
chorando com a face encostada ao alisar de uma porta, e disse-lhe
brandamente:

--Senhor Abreu, no se arrependa; foi Deus que o enviou. No chore, que
as minhas lagrimas manh esto enchutas: ha de seccar-m'as o fogo
sagrado da minha religio. Tenho Jesus Christo na minha alma. Agora
comprehendo que milagres se operam nas maiores angustias do homem. Os
meus filhinhos sero sempre os bens que Deus nosso Senhor me confiou.
Minha irm est debaixo da mesma divina mo. Ha de resignar-se, ha de
santifical-a a saudade, incenso de lagrimas que o Senhor lhe ha de
aceitar e retribuir em consolaes...

Susteve-se n'esta exclamao arrobada e ungida de santa resignao.
Momentos passaram silenciosos... Depois, levando freneticas as mos 
cabea, exclamou:

--Mas eu hei de separar-me para sempre de minha esposa... do anjo
bemdito de toda a minha vida!...

E atirou-se ao peito soluante do homem que, quarenta annos antes, o
aquecera ao calor de suas faces, creana de vinte e cinco dias.




XV

Angustias que existiram


Por volta das dez horas d'aquella noite Braz Luiz de Abreu sau de casa
do vigario capitular, e recolheu-se ao convento de frades antoninos,
convisinho da egreja da ordem terceira de S. Francisco, na qual o
familiar do santo officio era irmo professo. Que noite aquella, que
lagrimas choradas aos ps da cruz, e no seio do venerando prior da casa
hospitaleira do maior infeliz que alli se albergra!

Ao aclarar-se a manh, o prior e dois frades de Santo Antonio, vares de
grandes annos e virtudes, chegaram  porta de D. Josepha de Abreu.
Abriu-se-lhes a casa, em cujo recesso tinha ido um chorar soluante, e
passado horas infernadas, sem mais desafogo que o atirarem-se por terra
aquella mulher e sete filhos, ignorantes da angustia de sua me, pedindo
misericordia, diante de um santuario.

De joelhos se quedaram, quando os tres frades, sublimes de religioso
terror, appareceram no limiar da casa da orao.

--Irm, disse o prior, erguei-vos e mais as vossas cinco filhas, e
vinde.

--Para onde, senhor?--murmurou ella com os olhos no pavimento e as mos
sobre o seio.

--Esto dadas ordens para serdes recebidas no conservatorio de S.
Bernardino, Recolhimento de Terceiras de S. Francisco.

--E eu no hei de vr mais...--exclamou ella, e retraiu-se como aterrada
do delicto de tal pergunta.

--Vinde, senhora e meninas. Emquanto a vs, moos, esperae que vos digam
o vosso destino.

Era na madrugada de 25 de maro de 1732.

Regorgeavam os festeiros da primavera, os passarinhos emboscados no
arvoredo dos quintaes. A geada branquejava as ruas, e do lado da rua
assoprava frigidissimo vento. As meninas aconchegavam das faces
escarlates os capuzes das mantilhas. A me ia aquecida no banho ardente
das lagrimas.

Os antoninos caminhavam mesuradamente  beira d'ellas, com as mos
enfiadas nas mangas dos habitos. O prior ia ciciando quaesquer palavras,
que deviam de ser as suas oraes da manh, ou rogava ao Senhor dos
afflictos que esteiasse o animo d'aquella mulher singularmente
desgraada.

Abriu-se a portaria do conservatorio de S. Bernardino. Os frades ficaram
quem da porta, que rouquejara nos gonzos com o quer que fosse de muitos
gemidos unisonos de fundissimos carceres, soados por abobadas
subterraneas.

D. Josepha quando encarou no interior do recinto lobrego da entrada,
deixou-se rasgar desde o intimo d'alma por um grito, mais desesperado,
mais blasphemo que invocativo da divina graa para to acerbo calix.

--Haja-se com paciencia, senhora!--disse o prior--Olhe que desde este
momento o Altissimo a est vendo e sondando-lhe o corao. A ignorancia
no podia ser culpada at hoje; mas d'hora em diante, a reluctancia com
os deveres que lhe impe a justia do co e a justia da terra  crime
mais que muitissimo grande... Entendeu-me, senhora?

--Entendi, senhor padre-mestre prior--respondeu a confessada do prelado
dos antoninos.

Fecharam-se as portas.

A directora do Recolhimento, silenciosa como um phantasma, conduziu D.
Josepha e as cinco meninas ao longo de um pequeno corredor, com
cubiculos lateraes, e mal alumiados da luz do dia ainda froixa. No
extremo do corredor abriu-se a portinha de uma cella espaosa.

--Aqui est, senhora--disse a directora, e ausentou-se.

As meninas romperam em grande chro, assim que a livida directora sau;
logo, porm, lhe assomou a mulher de macerado aspecto, no limiar da
porta, e disse:

--Aqui n'esta casa so permittidos os prantos da penitencia, e s esses,
senhoras!

Retrocedeu, a tempo que D. Josepha se abraava de um amplexo em todas as
cinco filhas, e lhes dizia:

--Choremos baixinho.

Meia hora depois d'este lance, os dois meninos de Braz Luiz de Abreu, um
de dez, outro de nove annos, eram conduzidos ao convento de Santo
Antonio, onde encontraram seu pae vestido com o habito de irmo professo
da ordem terceira. Estacaram defronte d'elle n'um glacial spasmo. O
medico tomou-os ambos, com as faces aconchegadas um do outro, e
disse-lhes:

--No haveis de chorar, no, meninos? Ficareis aqui por algum tempo.
Aqui vos deixo com amigos e mestres. Fazei muito por aproveitar o tempo,
e trabalhae por ganhar o corao d'estes santos homens.

Nem uma lagrima exsudou aos olhos d'aquelle pae! O fogo da divina graa
seccara-lhe as fontes da alma. Era j o ser humano mutilado dos orgos
da vida de relao. Era o homem sobre-natural, aquella coisa
inexprimivel de que se formam o anjo ou o demonio, as vises beatificas
ou o revolutear escandecente da legio.

Os frades entraram a tomar conta dos meninos. O prior, ao pegar das mos
d'elles, disse:

-- tempo. V  sua vida, senhor Braz de Abreu.

--Adeus, filhos. Abenoe-me, reverendo padre!...--disse o irmo professo
da ordem terceira de S. Francisco, e saiu.

Sobre-humana coragem! Entrar na casa, onde, vinte e quatro horas antes
ainda almoado com sua mulher e filhos! Entrou. Foi ao oratorio de sua
mulher. Se reparasse, poderia ainda ver signaes humidos de lagrimas no
genuflexorio e na peanha do Christo de marfim. Estava orando, quando
ouviu passos na escada. Levantou-se para fechar a porta, e furtar-se a
dar explicao d'aquelle habito, d'aquella soledade. No foi a tempo.
Era Francisco Luiz de Abreu. Caminhou para elle com firmeza e risonho
semblante:

--Meu bemfeitor, disse elle, aqui me tem. Fao grande differena do que
era ha quarenta annos. Ento, viu-me nas faixas infantis, e teve-me
junto do seu corao. Abrace-me agora vestido na mortalha.

O hebreu apertou-o com vehemencia. As palavras no podiam sair do peito
anciado e da garganta afogada por suspiros. Passado tempo, disse:

--E era preciso isto? A conformidade com a vontade de Deus exprime-se
com vestir esta tunica, e apertar este cordo? No  o homem to grande
na dr, sem a celebrar com a magestade funebre d'estes habitos?

--O homem  um verme, e mais nada, murmurou Braz Luiz.--Se a religio me
no soldar os pedaos da vida, se me ella no tirar d'este tumulo em que
estou caido, que hei de eu fazer to esmagado at  medula dos ossos?

--Pois os seus filhos? que  dos seus filhos, Braz Luiz.

--As minhas filhas assistem, as innocentinhas,  penitencia de sua me.

--Penitencia de quaes peccados?

--Oh! calle-se!... por Deus, calle-se, diante do filho de Antonio de S!
Se no era crime o meu viver para que me avisou?...

--Diz bem... Perde-me.

--No s lhe perdo... que lhe agradeo... Agora  que eu me gelo de
horror do meu passado!... Nunca tive um abalo que me dissesse: porque
lhe queres tu assim tanto, tanto, que em quinze annos teus olhos no
viram outra mulher sobre a terra! As irms no se amam assim... Ai!...
e eu que assisti  morte de minha me, ainda lhe beijei as mos... Alli
sim, ento senti convulses de espirito extrordinarias, das quaes no
podiam ser motivo o amor que eu tinha  filha... No; era Deus que me
avisava... Quinze annos, quinze annos de felicidade sem sombra... os
meus filhinhos, os meus sete anjos... ahi me ficam...

--Onde vae?...

--Onde vou?!

E chorava com tamanho afgo que lhe vieram umas ancias mortaes.

--Deus me mate j, j!--vociferou por entre o repuchar dos gritos
abafados.--Sou fraco, sou miseravel lodo! D-me animo, salve o filho do
seu desventurado amigo. Creia no Deus dos martyres, para que a sua voz
me alente, e eu no seja confundido pelo escarneo da multido.

--Creio no Deus de todos os martyres, senhor Abreu. Creio--atalhou
Francisco Luiz.--Soffra, chore, despedace-se sem amaldioar, e ver que
est comsigo o Deus de Socrates, o Deus de Saulo, o Deus de Antonio de
S, o Deus de Heitor Dias da Paz, o meu Deus, o creador de todos os
martyres e algozes, de todas as cruzes e de todos os postes levantados
sobre a lenha que vae abrasar um corpo.  Jesus de Nazareth o seu Deus?
Sirva-o, tome-lhe dos labios a esponja e sorva-lhe o fel, ame os
inimigos, valha aos desvalidos, aclha os orphos  alma que os
aconselha, d-lhes tecto que os cubra, e olhos que os chorem. Assim
faziam os justos segundo Plato, os justos segundo Bouddha, os justos
segundo Philon, os justos segundo Jesus, os justos segundo Luthero. Ame,
condoa-se, e ampare como elles, e ser salvo para melhor mundo, e
sentir n'este as supremas alegrias da consciencia...

--Oh! no  isso--atalhou Braz Luiz--ha uma s religio, e uma s
salvao.

--Pois bem: haja uma s; e seja a sua. Todas ellas do as suas melhores
coras aos seus martyres, coras tecidas dos mesmos espinhos, e
abenoados da mesma beno; mas  preciso soffrer, soffrer sem infligir
tortura, sem retalhar o peito de outra f para lhe ir l dentro remoer
com ponta de ferro em brasa a consciencia. Braz Luiz de Abreu, respeito
grandemente a sua angustia, e dou graas ao Senhor do co e terra que
lhe est vertendo balsamos no roer do cancro que l deve ir n'essa pobre
alma. Siga a sua religio, eu lhe seguirei os passos n'ella, e
ajoelharei ao seu lado, sem receio de que estejamos cada um de ns
orando a differentes creadores. E seus filhos? E seus filhos?--proseguiu
Francisco Luiz--quer que eu vele pelo seu futuro d'elles?

--Mercs, meu amigo. Meus filhos ho de ter po e futuro. Trabalhei;
tenho ahi uns bens. Continuarei a trabalhar para augmental-os. Minhas
cinco filhas ho de ser freiras; meus filhos seguiro o sacerdocio.

--Qual  o seu destino, Braz?

--Tomar ordens clericaes. Hoje mesmo vou caminho de Lisboa. E vossemec
deixa Portugal?

--Ainda no.

--Adeus, pois, at quando?... At  eternidade?

--Ainda no. Ver-nos-hemos antes. No se morre assim depressa... Os
desgraados so de bronze. Quer Deus que elles vivam muito para serem
muito vistos como pompas do mal necessario.




XVI

O padre Braz


O famigerado author do _Portugal Medico_ appareceu em Lisboa, cingido
pelo cordo franciscano, sobraando o manto pardo, fronte abatida, faces
sulcadas, e desfeitas, a luz dos olhos amortiada, e um amarellido de
rosto accusando tanta afflico interior, que no havia olhos enchutos
que o vissem.

Por casas de bispos e mais jerarchias da egreja andava o irmo professo
da ordem terceira, solicitando a sua ordenao de missa, e a concesso
de recursos que o ajudassem a converter em convento o conservatorio de
S. Bernardino, onde tinham sido recolhidas D. Josepha e suas filhas.

D. Joo V, informado da resoluo mysteriosa do celebre Olho de Vidro,
cujas facecias o tinham muito alegrado, quando sua magestade, em hora de
pachorra, consentia que o seu medico lh'as lesse, desejou ouvir da bocca
do famoso Braz Luiz uma historia escassamente conhecida dos altos
dignitarios da egreja.

Braz Luiz foi levado ao pao pelo doutor Jos Rodrigues de Abreu, medico
de el-rei. O filho de Pedro II revelou o desejo que tinha de saber que
fundo reviramento se operra no espirito de um pae de sete filhos, para,
no vigor dos annos, se privar das caricias da familia, e defraudar a
esposa de marido e os filhos de pae.

O medico referiu a sua historia, a ss com o curioso monarcha, depondo
na consciencia e religiosidade de el-rei os pontos melindrosos e
secretos da sua vida. Sensibilisou-se o soberano, e em paga da
confidencia lhe fez merc das rendas do real d'agua para que as elle
applicasse  fundao do convento de D. Josepha. Ordenou mais el-rei, de
harmonia com o nuncio, que se no delongassem a Braz Luiz de Abreu as
ordens solicitadas, de modo que entre umas e outras no interferisse
mais tempo que o necessario, em conformidade com o maximo gro da
dispensao em taes casos usada. Por maneira que Braz Luiz, ao cabo de
seis mezes, estava clerigo de missa. O concilio tridentino permittia e
explicava santissimamente todas estas coisas, que hoje se nos affiguram
monstruosas irregularidades. N'este anno da graa de 1866, pde qualquer
novelleiro citar o concilio tridentino, por que  presumivel seno
certo, que por amor do casamento civil toda a gente de alguma
curiosidade reveza a leitura das decretaes com a dos concilios.

Pois o logar do concilio tridentino que permittia desatarem-se esposos,
e vestirem habitos, e professarem, e deixarem os filhos sem paes,  a
_Sess. 24 de Matrimonio, Can. 9_.

Ao mesmo tempo, o padre Braz Luiz de Abreu foi nomeado syndico do
convento permittido, e, por um breve, tambem nomeado medico d'elle.

Tornou-se o padre de Lisboa para Aveiro, e entendeu logo nas obras do
convento novo. Podia, se quizesse, dizer logo missa nova, mas reservou-a
para o dia em que sua mulher e filhas professassem.

A edificao do convento fez-se n'um anno. Sobravam os recursos, alm do
subsidio real. Os cavalheiros da terra concorriam com grandiosos
donativos, e muitas esmolas de procedencia desconhecida iam dar s mos
do syndico. O hebreu Francisco Luiz observou que o seu dinheiro maldito
no queimava as mos ungidas do sacerdote.

Algumas vezes o padre Braz Luiz de Abreu entrou ao locutorio ou grade
para se entender com a me de seus filhos sobre coisas attinentes 
profisso. Dizem as memorias que nunca jmais lhe elle vira o rosto,
porque D. Josepha o velava com um espesso vo negro.[31]

Aos vinte e quatro de dezembro de 1734, passados trinta e tres mezes de
noviciado, de cruelissimas dores, de inenarraveis desmaios, as cinco
filhas de D. Josepha, trajadas para a festa do martyrio como sua me,
ajoelharam ao lado d'ella, e abdicaram nas mos da prioresa tudo que
podesse parecer ao mundo coisa melhor do que o escuro abysmo em que de
repente se viram despenhadas.

Aquelle acto era uma crucificao atrocissima para a filha de Antonio de
S, porque ella tinha perdido a f. Nunca se lhe haviam entranhado muito
as crenas na religio do Calvario, porque da indifferena religiosa, em
que lhe correra a infancia, passara a ser educada em convento francez,
onde a piedade sincera de alguma peccadora contricta era mettida a riso
por alegres peccadoras, de quem poderia ser que os proprios anjos
andassem namorados.

Sua me tinha vivido uniforme com a religiosidade do marido; e, por fins
de vida, rejeitara e apagara da alma os vislumbres da piedade, porque,
dizia ella: Ha certas lagrimas, que apagam toda a luz da religio, seja
ella qual fr.

A religio de Braz Luiz pareceu-lhe a ella muitas vezes ostentosa, pouco
menos de hypocrita, e sustentada  custa da razo. Todavia, como
discreta e amantissima d'elle, no lh'a impugnava, nem se esquivava a
seguil-o nas publicas demonstraes de sua piedade.

Quando ella, desde os reconcavos d'alma, cau aos ps de Christo, foi na
hora tremenda em que se ouviu nomear filha do pae e me de seu marido.
Orou ento, para no morrer, ou pde ser que orasse para ser arrebatada
 sua angustia pela mo de Deus, ou fulminada por poder satanico.
N'aquellas oraes ninguem sabe o que a alma pensa.

Encerrada n'um convento, com cinco formosas meninas, que se encostavam
s rexas de ferro a olhar cheias de saudades por esse co fra, e
seguiam as avesinhas de arvore para arvore, de monte para monte, a
infeliz me adivinhava os colloquios das pobrinhas com o co impassivel,
e fugia-se d'ellas, para que a no vissem chorar. Voltava a vl-as, e
trazia ainda vidrados na face os prantos. Ellas aqueciam-os com beijos,
e, em vez do fervor piedoso e consolativo de sua me, ouviam-lhe
supplicas com que ella lhes pedia perdo de as ter gerado. As meninas
perguntavam-lhe porque estavam assim captivas e desterradas da vida to
sem vontade, e a me no podia responder-lhes:  porque sois filhas de
meu irmo, e minhas filhas.

Que importava?

Tinham ajoelhado, tinham renunciado, tinham professado, tinham assistido
 missa nova de seu pae, d'aquelle homem de faces lividas, que as no
apparentava mais translucidas de uma alegre consciencia do que as teria
um sacrilego, que houvesse cuspido no ciborio e calcado aos ps a
hostia. E depois, viram-no assomar no pulpito, e prgar com elegancias
de primoroso lapidario de palavras o sermo da profisso, o sermo
d'aquelle enterro de seis vidas, de seis coraes apunhalados, mortos,
com authoridade do concilio tridentino, e com muitos applausos dos
prelados, do rei e dos edificados espectadores da tragedia.

Estavam professas. A de trinta e nove annos, que representava vinte
cinco formosas primaveras, ao entrar n'aquelle antro de S. Bernardino, a
filha de D. Maria Cabral estava desfigurada como na ultima velhice. Anna
Maria, de dezeseis, e Sebastiana Ignacia, a mais nova, de onze--onze
annos e professa com um breve de Sua Santidade!--todas cinco, seguindo
sua me da egreja ao claustro, olhavam contra o cho como a procurarem a
cova que se lhes abrira.

E depois, se choravam, saa-lhes a prioresa e dizia-lhes:

--Filhas, lagrimas de penitencia, de penitencia...

E se, do interior do convento, ia ao padre Braz a noticia de que suas
filhas estavam deperecendo e morrendo, o santo, calejado para uns dardos
que varam e matam todo homem menos santo, respondia:

-- o Senhor que as chama... Deixal-as, deixal-as ir para o cro das
virgens.

E, rodeado de muitos e piedosos livros, escrevia a _Lusiada sacra_, a
origem ecclesiastica do imperio lusitano, e levava mo do trabalho para
assistir aos seus doentes, que curava ou enviava a melhores mundos
gratuitamente.

Os moos Agostinho e Pedro l estavam estudando latinidade no convento
de Santo Antonio. Ao principio perguntavam por sua me, por seu pae e
por suas irms. Um doutissimo frade, lente jubilado, respondia-lhes:

--O melhor pae  Deus, a melhor me  Nossa Senhora, as melhores irms
so as tres pessoas da Santissima Trindade.

S theologia; mas os mocinhos queriam saber de sua me, de seu pae e de
suas irms.

Deram em no estudar, de tristes que viviam. Foram accusados ao padre
Braz, que entrou a admoestal-os no convento. Os meninos abraaram-se
n'elle, e pareciam contentes.

--E nossa me? perguntava Agostinho.

--E nossas irmsinhas? perguntava Pedro.

E Braz Luiz baixava os olhos sobre o seio, permanecia n'um recolhimento
angustiado, e saa com estas palavras:

-- verdade!... e vossa me!... e as vossas irmsinhas?

Mas, apenas as orelhas da sua alma escutavam estas lastimas do corao,
o padre ajoelhava na postura de mentecapto, batia punhadas no peito, e
clamava:

--Pequei! pequei! perdo, meu Redemptor!




XVII

O inferno, como elle  possivel


Eu negaria minha f a quem me dissesse que a prece dos infelizes sem
culpa no ha Deus que a oua e attenda. Se ha!...

N'um dia de junho de 1735, ao sexto mez de professa, soror Josepha da
Cruz, depois de tres semanas de aturada hemoptyse, amanheceu com uns
spasmos convulsos, chamando pelas filhas, que a rodeavam, e ella no
via. Accudiram as freiras, e ordenou a prioreza que fosse chamado
confessor e medico. Avisaram o padre Braz, syndico do convento. Estava
elle resando as contas, e voltou o rosto da pessoa que lhe levou o
aviso, para atar um _pater noster_ interrompido no _fiat voluntas tua_.
Tres vezes repetiu com seraphico arrobamento o _fiat voluntas
tua_--faa-se a tua vontade--e de si para si entendeu que aquelle seu
despego em tamanho transe, ao annunciarem-lhe que sua mulher estava em
trabalhos de morte, era egual ao de muitos lances de natureza identica,
e santo stoicismo, contados no _Flos-Sanctorum_, e _Vita patrum_.

Concluido o ultimo mysterio do rosario, aspergiu-se de agua benta, e foi
caminho do convento, resmuneando o psalmo:... _Amplius lava me ab
iniquitate mea: et a peccato meo munda me. Quoniam iniquitatem meam ego
agnosco... etc._

Ao avisinhar-se da cella da enferma o syndico, disse a prelada:

--Irm Josepha, aqui est o nosso padre syndico Braz Luiz.

Soror Josepha no vellou o rosto, porque j no entendera o aviso da
prioreza.

Braz Luiz deu de olhos fitos na sua companheira de quinze annos.
Ressumou-lhe ao rosto um suor frio, cambaleou, e amparou-se  ombreira
da porta.

Depois, tornou em si; invocou a fora dos santos, compoz o semblante,
acercou-se do catre da moribunda, e balbuciou:

--Soror Josepha da Cruz!

A enferma estremeceu, despregou as palpebras, circumvagou as pupilas
esgazeadas, e retrahiu-as logo, como se a face do padre lhe fulminasse
faiscas de raio aos olhos.

--Os aprestos para a extrema-unco--disse o syndico.

--Venha o capello ministrar-lh'a--ajuntou a prioreza.

--No, nossa madre: serei eu--disse o padre Braz.

Accorreram os aprestos, emquanto Braz Luiz desceu  egreja a envergar
uma cotta com estola roxa. Deu signal o sino, ajuntaram-se as freiras
acolytas, uma com a cruz, outras com velas, outra com a caldeirinha, e
muitas cantando alternadamente os versos do psalmo _Miserere mei Deus_.
Entrou  cella o padre, precedido da cruz e da caldeira. A prioreza
observou que as unces deviam ser feitas com presteza, omittindo-se as
ceremonias usadas quando no ha receio de que o enfermo expire antes de
ungir-se. Principiou o padre a ungir-lhe os olhos; e logo notaram que os
dedos lhe tremiam convulsivamente. Esteve com a mo suspensa, esperando
que o tremor aquietasse. Desfitou os olhos da face da moribunda, e viu
as cinco filhas ajoelhadas em carreira com os cirios empunhados, e os
rostos cados sobre os seios. Contemplou-as com olhar embaciado de
lagrimas, e na bocca um sorriso triste, que poderia ser qualquer coisa
do usual sorrir dos santos, e tambem poderia ser a expresso vulgar da
insania. Esta equivoca expresso, porm, sumiu-se, e as lagrimas
saltaram a quatro. Depois, foi um conflicto aquelle para ser visto dos
que apenas conhecem alguns milhares de flagellos n'esta vida! Caiu em
joelhos, pegou das mos ambas da enferma, e exclamou:

--Leva-me comtigo, leva-me comtigo,  santa,  martyr!

As cinco meninas levantaram um alarido de gemidos, e romperam por entre
as freiras a cobrirem com os braos a moribunda... a morta.

Braz Luiz arquejava encostado ao leito. No ousavam pr-lhe as freiras
as suas mos para o retrairem d'alli; mas, todas a um tempo, lhe pediam
que offerecesse a Deus, em beneficio da alma de Soror Josepha, as
angustias por que to santa e heroicamente quizera passar e ser provado.

O padre levantou-se de impeto, olhou em torno de si, e disse:

--E que me d Deus? Sim! que me d Deus?

As freiras contemplaram-se estarrecidas e frias de religioso medo.

--Pois ento!--proseguiu elle com tregeitos de louco e semblante
descomposto--pois ento, no houve um raio de graa para esta santa
mulher! no seria divina justia que ella achasse aqui as alegrias de
uma consciencia pura, de um corao sem mancha! Por fim...  certo que
eu te matei minha innocente victima?

E, dizendo, acurvou-se sobre o cadaver, beijou-lhe os olhos
soffregamente e cobriu-lhe a testa de lagrimas.

Era isto j uma vertigem, que terminou pelo deliquio.

Foi chamado o capello e alguns frades visinhos de Santo Antonio.
Levaram d'alli o padre para accommodarem logo os escrupulos das freiras
escandalisadas. Ia sem accordo, nos braos dos antoninos. As filhas
viram-no ir sem lastima. Estavam em volta da barra de sua me. Aquelle
homem fazia-lhes terror, seno odio. Poderia ser que elle tivesse por si
a crte celestial; mas n'este mundo no havia alma que o pranteasse.
Propriamente os frades incriminavam-no de pusillanime e vacillante na
reforma de vida. As freiras--santo nome de Deus!--davam como perdida a
alma d'aquella que morrera sem confisso; e, porque eram santas, foram
em cro exorar ao Senhor que no pesasse na sua balana sem o contrapeso
da misericordia, as palavras blasphemas do padre syndico.

Braz Luiz, quando cobrou sentimento, achou-se na sua pobre alcova, com
dois frades  cabeceira. Escutou-os. O que elles diziam eram coisas
formidaveis sobre o inferno sem fim. Stygmatisavam-lhe a fraqueza, a
impenitencia, a temeridade de se aproximar da religiosa moribunda, se
no ia santamente disposto a dar um exemplo de desprendimento dos
affectos que havia renunciado no acto da sua sagrao a Deus.

O padre pediu perdo do escandalo, e rogou que o deixassem s para
examinar sua consciencia.

Deixaram-n'o os frades e foram-se ao seu convento, d'onde tinham sado
em jejum.

Braz Luiz de Abreu soffria tanto, que duvidava do poder da orao ou no
sabia orar. Punha os olhos na face do Christo, e logo os descia como
aterrado do pensamento sacrilego que a intercadencias lhe agonisava a
alma.

Aquella religiosidade, que, horas antes, parecia robusta e sentida como
a dos martyres, estava a desfazer-se miseravelmente na incerteza, no
desprezo, na negao das mais santas coisas do christianismo! Alli se
estava vendo o que em verdade  o homem, e quanto so morredoiras as
phantasias do espirito arrancado s leis da humanidade, quando a mo da
desgraa descarrega a maa de bronze no peito que tem dentro sangue e
fibras. O grande edificio d'aquelle selvagem ascetismo estava a
derruir-se. O corao de quarenta e tres annos dava pulos como para
espedaar o arnez apertado com arcos de ferro debaixo do habito
franciscano. A imagem de Francisco Luiz perpassava-lhe execrandissima
por diante dos olhos, cravados n'um revolutear de vises extravagantes
que o assediavam,  volta do cadaver d'aquella mulher assassinada sem
culpa nem f para aceitar de boamente uma to grande quanto immerecida
penitencia.

Fez-se em volta d'elle a solido dos grandes desgraados, que j nem
sequer podem captar a benevolencia dos grandes hypocritas, nem a estima
dos ferventes devotos. Os mais virtuosos frades fugiam d'elle, desde que
do convento de S. Bernardino sairam peioradas em blasphemia as phrases
do syndico ao p do corpo ainda quente de sua mulher. Alm d'isto,
entraram em averiguaes os mais escrupulosos sobre os factos
antecedentes  resoluo de entrar aquella mulher na religio e elle no
sacerdocio. O prior dos antoninos esquadrinhou em Lisboa no secreto
gabinete da nunciatura, e vingou descobrir que o rompimento fra
sequencia de um casamento incestuoso.

Calou o frade a infanda noticia, por caridade; apenas a revelou a metade
dos seus conventuaes; e estes, por caridade tambem, disseram-n'a  outra
metade, sentindo no ter mais a quem a revelassem.

Por isso,  volta d'elle se fez a solido dos grandes desgraados.

Entregaram-lhe os dois filhos, que estudavam humanidades no convento,
para que elle lhes dsse destino. O padre levou-os para si, e desde esse
momento principiou a sentir quebrarem-se os aguilhes que o cravejavam e
atiravam impenitente  sepultura.

Cogitou em mudar-se com elles para algum ermo, onde lhe ignorassem o
nome e os infortunios. Mas alli, ao p da sepultura de Josepha, estavam
as cinco filhas, que elle, se podesse, tiraria do convento. Era aloucada
fantasia similhante intento. Aquellas meninas estavam perdidas para elle
e para Deus; porque j no podiam amar o algoz de sua me; e, diante do
poder do Altissimo, apenas podiam tremer de medo, medo sem amor. Nem
pae, nem Deus!

E d'este modo, com a alma assim vasia, sem embrio de esperana n'algum
reconcavo d'ella, no ha vida.

A mais velha das meninas, Anna Maria, sobreviveu dois mezes a sua me, e
acabou em phrenesis, no obstante os exorcismos com que valentes
demonifugos de todos os conventos de Aveiro lhe medicavam a alma.
Expirou com reputao de precta aquella gentil creatura com dezoito
annos incompletos, a mansissima menina que seus paes quatro annos antes
denominavam,  conta da sua indole branda e sujeita, a pomba da familia,
o exemplo angelico de suas irms.

Quando o padre Braz recebeu a nova da morte de sua filha, quizera a
Providencia que ao lado d'elle estivesse um peito que lhe dsse amparo.

Francisco Luiz de Abreu, n'aquelles dias, descra dos arrabaldes de
Bragana, onde fra despedir-se do seu amigo Jos de Barredo, e passra
por Aveiro, onde conjecturava encontrar ditoso e embevecido nas delicias
do co o sacerdote de Jesus.




XVIII

Catequeze


Francisco Luiz planeou mover o filho de Antonio de S Mouro a sar de
Aveiro, sob pretexto de fazer entrar na carreira das lettras ou das
armas os dois moos, j habilitados para as comearem.

O padre passou a consultar os filhos sobre a escolha de seu futuro.
Tinham-se os meninos habituado a pensar no destino para que o pae os
encaminhra, desde que os entregou aos frades de Santo Antonio.
N'aquelles dias, as carreiras abertas aos espiritos mais arremessados em
esperanas e cobia de nomeada gloriosa, eram a milicia, j ento
decadente, e a companhia de Jesus, ou a ordem de S. Domingos, as duas
mais poderosas e florentes hostes evangelicas n'estes reinos, e as mais
conjuradas em realisar o absolutismo theocratico.

Os filhos de Braz no entendiam nada d'estes intentos; mas entreviam a
grandiosa estatura do jesuita e do dominicano, em cujas frontes se
estavam sempre cerzindo as mytras, e no interior d'essas frontes se
elaborava o pensamento dos reis, a palavra directora dos governos, o
enlace mystico do co com a absoluta soberania da terra.

Portanto, os dois netos do hebreu da Guarda, respondendo  consulta de
seu pae, disseram que entrariam em conventos. Agostinho escolheu a
companhia de Jesus, e Pedro a ordem de S. Domingos.

Francisco Luiz encarou n'elles com desprezo: no podia ser de piedade,
nem de odio aquelle sorriso que entre-abriu os beios do velho judeu de
Ourem.

Passados momentos, murmurou, sorrindo ainda:

--Este Pedro j no vir a tempo de me queimar... nem eu lhe deixo
filhos ou netos, cujos ossos lhe sirvam de degros para escalar a
bem-aventurana dos carnifices... Se o av d'este menino se lembraria de
que um seu neto seria frade dominicano!...

E, voltado ao padre Braz, continuou com mal fingida serenidade:

--Conjecturava eu, senhor Braz Luiz, que um homem de sua indole e saber,
vestido com as insignias de uma religio qualquer, e mormente da
christ, se empenharia em lavar-lhe com lagrimas as nodoas de sangue, e
no amaciar-lhe as cruezas que ella trouxe das tradies pags. O homem
de grande entendimento e muitas luzes devia ser lustre e honra de
qualquer religio que elle assentasse de converter em policiamento e
bem-fazer da humanidade. No lhe perguntei ainda, meu amigo, se
applaudia o proceder da christandade portugueza contra os paes de
Antonio de S, contra Maria Cabral, contra Heitor Dias da Paz.
Pergunto-lh'o agora, na occasio em que vossemec manda um filho
alistar-se nos aprendizes do santo officio, e estudar as physionomias
das antigas rezes do aougue dominicano penduradas na galil da egreja
de S. Domingos. Bem pde ser que l veja retratos de seus avs.

--Basta! que me est mortificando, senhor!--atalhou o padre.--Sou um
desgraado,  volta de quem se assanham todas as tentaes! Quem vem
contender em pontos de religio com um homem to quebrado de espiritos?
Oh! deixem-me como a um leproso, abandonado de Deus e dos homens...

--Abandonado de Deus! como assim?--accudiu o israelita.--Pois as tres
divindades christs, o Padre, o Filho e o Espirito Santo assim abandonam
quem tanto lhes sacrifica! Onde est a compensao das suas afflices,
meu amigo? Que bem aventuranas infinitas so bastantes a galardoar uma
s das suas torturadas noites? Por minha f! Consterna ver o desamparo
em que o Moloch d'estas voluntarias hostias deixa affogar-se em lagrimas
e derreter-se ao fogo da desesperao um homem que tinha direito a
receber consolaes analogas  devoo com que se deixa esmagar na carne
e no espirito!... Ah! eu cuidei que, na minha retirada de Portugal, o
deixaria enlevado na beatifica viso e antegosto da eterna e perennal
mo direita do Deus-Padre! E a minha consciencia sabe que eu muitas
vezes pensei em me converter ao christianismo, se Braz Luiz de Abreu
estivesse, a esta hora, conformado e alegre sobre o peso da sua cruz!...

-- que eu sou lodo... atalhou o padre.

-- que eu no vi ainda bem remunerada a renunciao dos direitos do
homem, em hecatomba de uma equidade convencional, chamada a justia das
religies. So todas muito artificiaes para que alguma d'ellas possa ser
verdadeira. As menos sobre-humanas so as mais equitativas; e estas
mesmas esto manchadas pela miseria do homem, que no comprehende a
virtude aconselhada pela razo; carece de a ouvir trovejada no Sinay,
legislada pelo alfange mahometano, ou introduzida no cerebro das naes
selvagens com o gume da espada dos Cabraes e dos Pizarros. Pois est
Deus n'estas carniarias? O creador das florestas e dos mares, do ouo
e do elefante, se quizesse revelar-se mais sensivelmente ao homem,
careceria de morrer n'uma cruz ignominiosa, ou permittiria que aos
pobres cegos, que o no sabem ver, lhes queimassem os olhos nas
lavaredas do santo officio?!

--Jesus, soccorrei-me! exclamou o padre, tapando com as mos a fronte,
em que as palavras d'aquelle homem coavam luz de infernal claridade.

Depois murmurou palavras inaudiveis que deviam ser oraes efficazes
contra a tentao da heresia, da philosophia, da razo indocil, do
demonio, que  tudo um.

O hebreu era pertinaz, porque o estimulo, a razo nua, sem minima
compostura de f, lhe espicaava a consciencia. O homem vinha dos focos
da heresia. Comprehendra a loucura do hebraismo e a loucura dos
heresiarcas. Reformara-se na philosophia de Spinosa, e facilmente
derivara do pantheismo  completa abstinencia de deuses, coisas
desnecessarias para explicar a ordem do universo, e inintelligiveis para
as fazer presidir  creao. A causa das causas parecia-lhe sempre
effeito dos effeitos. O atheismo, se o no consolava, tambem lhe no
mettia em trabalhos as molas da imaginao.

As expansivas demonstraes de sua incredulidade eram todavia
inefficazes para apagarem a luz do calvario no corao do padre. O dique
do terror de Deus represava as torrentes de sabedoria rebelde com que o
hebreu pretendia levar de rojo o amigo, cuja victoria estaria indecisa;
se o christo convicto aceitasse o cartel. No. Braz Luiz vencia com o
silencio. O argumento triumphal  o calar-se aquelle, cujo corao
bafejou o Senhor.

No obstante, as asperezas da vida, os jejuns, as penitencias, as
oraes mentaes e exercicios fatigantes de piedade foram diminuindo de
dia para dia. No fim de tres mezes, o padre fallava ainda tres horas 
milagrosa imagem de S. Francisco, e conversava seis horas com Francisco
Luiz de Abreu.

Estava, pois, reduzido  piedade rasoavel. No mortificava a carne para
manter o espirito na energia que se lhe requer em meditao das coisas
divinas. Tinha horas regulares de orao, de alimento, de visitar os
seus enfermos, e de procurar no locutorio de S. Bernardino as quatro
freiras.

Foi para Lisboa com o hebreu e com os filhos. Renovou a consulta sobre o
destino d'elles. Permaneciam constantes na sua resoluo. Um entrou no
noviciado da ordem dominicana em Bemfica; e outro no collegio de Santo
Anto.

O padre Braz foi beijar a mo de el-rei, que se compungiu da
extemporanea velhice do celebre Olho de Vidro. Ouviu-lhe a historia
pathetica da morte de soror Josepha e da filha, saudosa de sua me, e o
definhar-se das quatro meninas para quem a vida claustral fra sempre
incessante martyrio e desesperao de que a misericordia divina talvez
pedisse contas a elle pae. Observou-lhe D. Joo V que levasse para sua
companhia as quatro meninas.

--So freiras, so professas, real senhor!... murmurou o padre.

El-rei mandou-o voltar no dia seguinte, e ordenou que lhe entregassem
proviso regia e breve do nuncio para que as quatro freiras de S.
Bernardino vivessem por tempo illimitado na companhia de seu pae.

Voltou o padre a Aveiro, e Francisco Luiz de Abreu acompanhou-o.

N'este homem andava encavalgado o Lucifer da mais desenfreada
philosophia que viu aquelle seculo. O pensamento que o esporeava era
generoso; mas no inferno iria um dia de festa se elle vingasse a ida
execravel. Venceram os anjos custodios, que faziam guarda ao espirito do
padre e das quatro filhas, promettidas esposas de quatro serafins que as
esperavam, posto que nem todas correspondessem ao convite amoroso dos
serafins.

Queria Francisco Luiz de Abreu restituir a felicidade quellas meninas,
a felicidade terreal, mentira em que o hebreu ainda acreditava.
Preparava o animo do filho de Antonio de S, inoculando-lhe a peonha da
duvida no dogma, e pelo conseguinte na moral. Discutia os chamados
sacramentos da egreja. Dizia que o sacerdocio era a mais convencional e
estupida das instituies humanas, com grave ultrage de Deus, chamado a
sanccional-a, se Deus por acaso podesse existir e ser ultrajado por
affrontas do homem, chamado irrisoriamente o rei da creao,  mingua de
besta-fera que se proclame com eguaes direitos  mesma realeza. Dizia
que esta bestial instituio cedia a primasia a outra, que era a da
profisso da mulher; e que de estupida passava a ferocissima quando a
professa era violentada a jurar a perdio das suas alegrias de
mocidade, e das suas esperanas de familia nas tristezas da velhice.

Amartelladas por largo tempo estas e similhantes idas sobremodo impias,
o hebreu puzera a pontaria em tirar de Portugal o padre e as freiras,
leval-os onde rasgassem os habitos, e se vissem de repente restituidos 
simpleza de creaturas formadas  imagem e similhana do Creador, o qual,
a ter existido, formra certamente homens e no padres, mulheres e no
freiras: gente, no dizer de Moyss, apta e escorreita para formar
individuos, aldeias, cidades, reinos, mundos.

Ouviu o padre as theses do seu amigo, defendidas por longo tempo com
erudio digna de melhor serventia. Prodigioso poder da f, quanto eu te
admiro e venero! O padre resistiu nervosamente  seduco, e por pouco,
no calor da refesta, no apresentou uma ida que destruisse os
preconceitos do judeu luciferino. Prodigioso poder da f! exclamava
tambem Francisco Luiz, quando, inventariando os argumentos do seu amigo,
no topava um que merecesse redarguio grave. E perguntava elle a si
mesmo como era que aquelle homem to embotado em agudezas de dialectica
pudera escrever as Aguias que voavam sobre a lua, e o sol nascido no
occidente e posto ao nascer do sol!

Desistiu: mas j lhe foi grandissimo contentamento ver  beira de seu
pae as quatro meninas, quatro exhumadas da lobrega crypta do convento,
onde deixaram sem lagrimas as grammas que rastejavam na claustra sobre a
campa de sua me.

Dizia elle, todavia, ao pae:

--Cr que as caras marmreas d'estas meninas tornem a reflorir?

--Espero que sim.

--Nunca mais. Esto mortas. Se as quer vivas, rasgue-lhes a mortalha,
Braz Luiz!--exclamou elle abraando-as todas contra o seio.--D-me estas
meninas, deixe-me salval-as, deixe-me fugir com ellas para o ar
abenoado da liberdade! Eu prometto aviventar-lhes o corao, e depois
esto salvas. D-m'as que eu ainda, sou bastante rico para deixal-as
ricas. E, se eu fosse pobre, dar-lhe-ia a cada uma um amor para o
corao resuscitado, um esteio para a alma, um companheiro para toda a
vida!

O padre ergueu-se de repello, travou das filhas, arrancando-as aos
braos do hebreu, e exclamou:

--Que maldio traz comsigo este homem!... Quer perder-me as minhas
filhas!... Ha infernal predestinao na sua mensagem ao seio da minha
familia, homem da horrivel fatalidade!




XIX

O velho da ermida


Em uma aldeia, chamada Verdimilho, a uma legua d'Aveiro, vivia em 1738
um ancio, reputado justo porque  volta da sua casa, colmada e
desguarnecida da mais trivial mediania, se ajuntavam os pobres da
freguezia, em dias determinados, e recebiam esmolas que lhes bastavam 
alimentao parca da semana. Chamavam ao incognito o velho da ermida
porque, ao lado da choupana d'elle, estava uma capella. Os pobres,
favorecidos d'este homem, paravam ao cair da tarde nas visinhanas da
ermida, para o verem sentado no tezo de um oiteirinho, com os olhos
enlevados no transmontar do sol; e, se o viam passar a mo por elles
como quem enchuga lagrimas, diziam entre si:

Um homem que d tanto aos pobres, e chora!...

Em 1739 saiu elle caminho d'Aveiro, pela primeira vez. Os pobres
seguiram-n'o, e disseram-lhe:

--No voltaes mais aqui, nosso bemfeitor?

--Voltarei, filhos.  noite serei comvosco.

E caminhava a p, abordoado n'um cajado que lhe dera um dos seus pobres.

Chegado a Aveiro, entrou na egreja de S. Bernardino, acantoou-se no mais
escuro d'ella, e assistiu aos responsorios da segunda filha de Braz Luiz
de Abreu, a qual estava sobre a ea.

Saiu, parou  porta do pae da defunta, subiu, entrou  saleta em que
elle recebia os pesames, apertou-o nos braos e disse-lhe:

--D-me a vida das tres filhas que te restam, e vem tu com ellas.

O padre derramou copiosas lagrimas, e no respondeu.

Voltou Francisco Luiz  sua cabana da ermida, e os pobres, ao outro dia,
confluiram das suas aldeias a dar-lhe as boas vindas.

Em 1740 fez o hebreu a mesma caminhada, entrou na mesma egreja onde se
resavam responsos, na mesma saleta onde chorava um velho, e disse-lhe:

--D-me a vida das duas filhas que te restam, e vem tu com ellas.
Rasga-lhe as mortalhas, antes que o coveiro as esconda, e o sino dobre
por ellas.

O padre chorou muito, inclinado ao peito do velho, e no respondeu.

Voltou o caminheiro  sua cabana, e os pobres olharam-n'o com muita
amargura, porque a sombra d'elle era como de arejo vindo da regio dos
sepulchros.

Uma tarde, no longe d'aquelle dia em que se finra a quarta professa de
S. Bernardino, appareceu em Verdimilho o padre Braz Luiz, atirou-se
esbofado aos braos do hebreu, e disse-lhe:

--D-me as minhas filhas!

--Pede-m'as a mim?!  a Deus que as deve pedir... ao seu Deus, que
resuscitou muitas...

--No peo as mortas; quero as vivas.

--Que sei eu das vivas? Esperava que morresse uma para lhe ir pedir a
ultima.

--Pois minhas filhas no esto aqui? exclamou Braz Luiz de Abreu.

--Aqui?! no v que toda a minha casa  esta cabana?

--Meu Deus! bradou o padre.

--Que  de suas filhas? acudiu o hebreu.

--Fugiram! perderam-se!...

--Salvar-se-iam? Encaminhal-as-ia qualquer providencia que eu
desconheo?...

--Roubaram-m'as!

E o padre, guardando silencio por alguns minutos, continuou com
intermittentes de gemidos e ancias offegantes:

--Perdi-as... e perderam-se!... Pois que nome tem isto seno 
prostituio?... A justia lanar mo d'ellas... e d'elles...

--D'elles quem?--atalhou o israelita.

--De relance os vi: eram militares, vinham de Coimbra a Aveiro,
hospedavam-se nas mais nobres casas, e minhas filhas sabiam da
existencia d'estes homens...

--E rasgaram as mortalhas--ajuntou o velho de Verdimilho--Pois deixal-as
ir. A natureza as defenda, se os aguasis da religio as perseguirem.
Deixal-as ir em paz. Falleceram-lhes foras para a continuao do
martyrio. Muitas das viuvas do Indosto j hoje se no queimam. 
necessario que os preconceitos sejam derrotados uma vez por outra, a ver
se alguma hora surge ahi d'este atascadeiro melhor gerao, que traga ao
mundo a ida de Deus com bondade. Coitadinhas! Possam ellas chegar onde
lhes digam: Vivei, gosae sem remorsos. O que vos l ensinaram a dizer
na profisso caducou debaixo de outro co. Pedi, meninas, o corao s
estrellas da noite, ao sol do dia, s campinas que reflorecem, s aves
que senhoream os ares e pousam a cantar nas mais formosas frondes das
arvores. Perguntae s bellezas e jubilos da natureza, se quem os fez
lhes pautou intercadencias de amargura. Vivei, candidas pombas,
aquecei-vos ao calor que desentranha o gomo da arvore congelada, e
aquece no seio da virgem o sangue palpitante que lhe purpureja as faces.
Ide, e escondei-vos no reconcavo das penedias, como as gazellas se
escondem do pelouro do carniceiro. E tu choras?--disse elle com
vehemencia, repuchando para si o corpo inerte de Braz Luiz--hei de
fallar-te assim com este ar de pae, porque estou a ver-te, creancinha,
que, ha quarenta e oito annos, eu tirava dos braos da ama para sentir o
goso de te embalar e ver adormecido nos meus. Chora por ti que s
muitissimo desgraado: por ellas no, que eu duvido que haja ahi maior
horror que o morrer das outras. Porque no iria eu com tuas filhas 
fonte da saude, do bem do corpo e da alma? Porque m'as no dste? Davas
dois anjos a este homem de setenta annos, que no tem ninguem que lhe
feche os olhos. E, depois, extincta esta luzinha que vasqueja, as tuas
filhas aprenderiam nas memorias da minha vida a viverem virtuosas sem
religio revelada, a soccorrerem indigentes sem lerem os preceitos da
caridade de Confucio ou de Jesus. Mas se m'as no dste, nem por isso
descreias da felicidade d'ellas. O amor tem cos e resplendores, que
banham de luz as mais tristes almas. O crime d'ellas  coisa to mal
feita  superficie da razo degenerada, que lhes no ha de durar mais na
consciencia do que a sentena d'ellas escripta sobre areia. Verdadeiros
crimes, diante do juiz incorruptivel, so aquelles de que o senso
interior nos condemna.

Prolongou-se a pratica do hebreu. O padre no o ouvia. O que elle
parecia escutar era um cavo e muito intimo desfibrar-se-lhe o corao,
este envelhecer e morrer que o homem est sentindo a branquear-lhe os
cabellos e a ressumar-lhe  face camarinhas de suor de agonia.

Depois despediu-se, e murmurou:

--E adeus! que est consummado tudo!

--Ainda no: vivers mais annos, porque se no  desgraado como tu s
seno em toda a plenitude. Eu  que vou sair d'aqui.  noite fechada. J
no tenho n'este mundo sol que me derreta os gelos de setenta annos.




XX

Parecia christo na morte!


Vinte dias depois, correu nas aldeias circumpostas a Verdimilho, que o
velho da ermida estava enfermo.

Abalaram os pobres dos seus cardenhos, e entraram quantos cabiam na
cabana do ancio. Os ricos tambem foram com os seus capelles, com os
seus padres adscriptos  gleba das missas de _requiem_, com que mercavam
barato o paraiso aos seus ascendentes.

O ancio viu uns e outros. Ergueu a cabea e disse:

--Que entrem smente os pobres. O espectaculo de um moribundo no
convida.

Os pobres, pois, ajoelharam em duas alas, defronte da parede a que se
encostava uma barra de bancos, e cada um dizia em silencio as suas
oraes.

A porta da cabana estava de par em par aberta. O sol da tarde doirava a
poeira do interior. A fita luminosa, que ia inclinada em scintillas
alumiar a fronte do enfermo, vinha com direco obliqua e coada por uma
abertura do colmo. Os pobres viam n'aquelle raio de p lucido coisa
mysteriosa de bonissimo agouro para a alma do doente.

Appareceu ento no limiar da porta um sacerdote, que a gente d'aquellas
aldeias venerava como medico do corpo e do espirito. Era o padre Braz
Luiz de Abreu.

E como elle entrasse, o povo, que enchia a casinha, sau, cuidando que o
velho da ermida ia confessar-se.

A s com o sacerdote, disse o hebreu com penosa pronuncia:

--Agora  que so as despedidas, amigo. Vieste a tempo, Braz, filho
adoptivo de minha mulher, que ha vinte annos me espera. Debaixo do meu
travesseiro est um papel escripto de meu pulso; na arca em que te
sentas, est o que eu tenho de meu. Cumprirs as minhas disposies...

--E a sua alma?...--atalhou o padre.-- tempo ainda. Salve-se, homem de
bem! salve-se...

--Se sou homem de bem, estou salvo--murmurou o judeu.

--Receba com f os sacramentos da Santa Madre Egreja.

--Ceremonias pags... A vida do espirito vae comear. Receba a natureza
em seu seio a poro immaterial do meu ser. Descance em perpetua paz
este motor interno, que recebia as lanadas da adversidade, a influencia
do mal, que os homens geraram. Acabo sem remorsos, sem odios e sem
esperanas. Acabo,  o que eu sei deveras. Vou desenganar-me, se errei.
Agora, filho, deixa entrar a minha familia. So esses pobrinhos que
saram. Abre-lhes as portas: quero vel-os at  ultima.

Braz abriu a porta, os pobres entraram e o padre ficou entre elles.

O vigario perguntou ao medico e supposto confessor se era tempo de virem
os santos oleos.

--Mais tarde, disse Braz Luiz, esperando que o moribundo cado na
apathia da extrema hora, insensivelmente recebesse as unces e assim
enganasse a devoo d'aquelle povo. Piedosa impostura, santa fraude, que
levava em vista salvar os creditos do padre visitante, e abonar as
virtudes do homem que os pobres comeavam a beatificar.

Por volta das onze horas, cresceram os trabalhos dos paroxismos.  meia
noite, descau o moribundo em lethargia. A respirao era quasi
imperceptivel. Sau o sacerdote a pedir a extrema-unco, sem
impedimento de saber que a boa e s theologia no dava j nada por
aquella alma, embora o agonisante fosse sacramentado.

Quando o vigario, espertado do primeiro somno, chegou, estremunhado e
carrancudo, com a ambula  porta da cabana, o padre Braz ajoelhara 
cabeceira do moribundo, em adorao ao Santissimo Sacramento. Sondou o
pulso do velho da ermida, e disse:

--Expirou agora.

Os pobres cessaram de cantar o _Bemdito_, e levantaram um grande choro,
entrando todos a beijar a mo do cadaver.

Se este acabamento de homem, transviado da religio verdadeira e das
falsas, no fosse referido em romance, poderia alguem suppor que pde
uma pessoa morrer como justo, sem ser absolutamente religioso. Bom  que
mortes assim se no divulguem em livros graves.

As disposies do philosopho so faceis de antever. Os seus herdeiros
eram aquelles pobres que choravam, e outros que pediam enxerga e
remedios na santa casa da misericordia de Aveiro, e tambem os peregrinos
que se acolhiam  albergaria convisinha da egreja de S. Braz.

Pois com tantos legados de espirito christianissimo ninguem acreditava
que fosse sincero christo um sujeito que entre tantas disposies no
applicou missas por sua alma, nem sequer trezentas! O clero estava
escandalisado!

Folgavam tamsmente os pobres,--e tanto folgavam que nem j choravam a
perda do bemfeitor.




XXI

Como se pde viver!


De causas de todo em todo inversas e entre si repugnantes apparecem
effeitos similhantissimos.

O despejo, por exemplo, a coisa hedionda que por ahi se chama cynismo,
caleja e abroqueia to rijamente o homem, que todas as setas da desgraa
lhe resvalam do peito. Quando cuidamos vel-o soobrado, eil-o se apruma
a desafiar novas tempestades, e de tormenta em tormenta chega 
derradeira edade, e acaba de cachexia, porque as cachexias no se curam
com a valentia da alma.

Vejamos agora o justo em tribulaes, o christo de tempera
pacientissima e refractaria ao desanimo que prostra e mata. As
calamidades a choverem-lhe, as injustias dos homens a prem-lhe em
duvida a justia divina--por se dizer que o homem tem frma e similhana
de Deus; elle a abster-se, a amputar-se, a desaggregar-se do bom da
vida, e a temperar com fel alguma coisa melhor para offerecer ao co o
amargor d'ella e a reluctao com que a toma, degenerando e estragando
tudo que os outros saboream. Eis que umas pessoas queridas lhe morrem; e
outras o deixam, quando elle a chorar lhes pedia amparo; fogem lhe e
deshonram-n'o; e o christo atira-se aos ps da cruz, queixa-se, mostra
as garrochas que o trespassam, os anjos como que baixam a
descravar-lh'as; fecham-se as feridas, outras logo se abrem, e elle a
exclamar:

Mais, mais, Senhor! _Amplius, amplius, domine!_ Este  o christo, o
penitente, o stoico setenta vezes santo. Eil-o ahi vae vida fra,
caindo, erguendo-se, pondo peito ao baque da legio que o tenta,
esgrimindo a um e outro lado com a cruz, com o hyssope: ora magestoso,
ora ridiculo; mas vivendo, vivendo, at aos sessenta, e vante ainda,
n'um viver que se nos figura a mais pavorosa das agonias!

Tal foi Braz Luiz de Abreu.

Quantas vezes o leitor, no decurso d'esta biographia, ter dito: o
homem vae morrer agora!

Morrer! quando ser isso? Ha de ainda viver, depois de tanto veneno que
lhe imborcaram, ha de viver dezeseis annos. Dezeseis annos! ssinho!
alli em Aveiro, no sei em que rua d'aquellas, em qualquer casa das mais
desaconchegadas, a rever na tia da phantasia o rosto da mulher
agonisante, das tres filhas mortas, das duas fugitivas, sem que mais aos
seus ouvidos soasse o nome d'ellas, nem dos sacrilegos raptores das
divinas esposas! E, como elle pde, em meio d'isto, escrever ainda dois
livros, dois grossos manuscriptos, que no sei onde param, um chamado
_Feniz Lusa_, referindo a vida e aces do serenissimo infante o senhor
D. Manuel, filho de D. Pedro II; e outro intitulado: _Vida e aces do
primeiro principe do Brazil para exemplar do nosso serenissimo principe
D. Jos_.[32]

Querem revelao para maiores assombros?

Em 1755, foi aquelle memorando terramoto de Lisboa. O padre Agostinho de
Abreu, da companhia de Jesus, ia de Santo Anto para S. Roque, ao
comear o tremor. Passava diante de uma casa que se estava derruindo,
ouviu os clamores de dentro, entrou heroicamente para arrancar uma velha
debaixo da couoeira de uma porta, e ficou esmagado debaixo do tecto
abatido. J sabem que este jesuita era filho do padre Braz. Pois, quando
a nova d'este desastre chegou ao pae, seis dias depois, o velho de
sessenta e quatro annos ajoelhou, orou, levantou-se, limpou as lagrimas
que lhe tolhiam a leitura do seu breviario, e leu o psalmo _Miserere mei
Deus_.

Que morte ser pois a d'este homem para que se no diga que houve ahi
angustia que podesse com elle? Ha de ser a morte designada pelos seus
biographos, a morte que o senhor Innocencio Francisco da Silva lhe
assigna: apoplexia fulminante, a tempo que estava sentado, sobre uma
cadeira.

Eram corridos dez dias de agosto de 1756, quando no convento de
franciscanos de S. Bernardino se fechou em sepultura rasa o cadaver de
Braz Luiz de Abreu. A memoria de suas mysteriosas desgraas ser menos
duradoura que o renome de medico abalisado que os contemporaneos lhe
celebraram.




CONCLUSO


Que destino tiveram aquellas duas freiras que, no dizer do defunto
hebreu, rasgaram as mortalhas?

Saibamos quem eram os raptores. Eram uns cadetes de cavallaria, filhos
de um Heitor Teixeira de Macedo, capito-mr de Coimbra, e fidalgo
solarengo de Condeixa-a-Nova, muito aparentado com os Chamorros,
Marreiros e Matosos, nobilissimos apellidos de familias aveirenses.
Hospedados em casa d'estes Chamorros e Matosos  que os Cadetes puderam
ver soror Antonia Maria e soror Sebastiana Ignacia. Fazerem-se amados
devia ser coisa de pequeno prologo, j porque as duas virgens no tinham
das cousas d'este mundo mais experiencia que os anjos, j porque
almejavam ser amadas, j porque os dois cadetes eram bizarros moos,
galans palacianos, formosissimos demonios, que faziam tremer as caladas
e os coraes das damas de Aveiro com a estrupiada dos seus alases.

O namorarem-se, convencionarem-se e fugirem foi n'um prompto. A justia,
quando tal soube, quiz gritar; mas os Chamorros, Matosos e Marreiros
amordaaram-n'a. Os rapazes j no tinham pae: tinham me, uma santa
matrona, que era a imagem das virtudes christs. Appareceram-lhe os
filhos, e ajoelharam pedindo recursos para fugirem de Portugal. A
tremula e espavorida senhora escutou a historia do criminoso passo. No
amaldioou os filhos. Chorou muito; e os velhacos, nas costas d'ella,
faziam esgares de grandes farcistas!

A fidalga perguntou onde estavam as freiras. Soube que as tinham
escondidas n'uma quinta distante. Quiz vl-as, porque sabia a tragedia
singular da familia do medico.

Por noite alta, entraram as duas meninas  recamara da viuva do
capito-mr de Coimbra. Foram mui benignamente recebidas. Aquella
senhora tinha facilidades incriveis! Receber assim duas libertinas
esposas do Espirito Santo!

Receiando que fossem presas, antes de irem onde a virtuosa senhora
tencionava mandal-as, no as deixou mais sar da sua recamara.

O capello sau para Lisboa; e, oito dias depois, estava de volta com
muitas cartas para cardeaes e ministros residentes em Roma.

--Podeis manh partir, filhos--lhes disse ella.--Ide a Roma com estas
cartas, entregae-as, e tornae com um bom despacho. De volta, podereis
ser esposos d'estas meninas, que ficam no quarto de vossa me at que
volteis.

Os moos olharam-se entre si, e ficaram como aparvados. Olharam para as
freirinhas, e viram-n'as a chorar, fingindo que sorriam.

No havia que replicar. Partiram para Roma.

Estavam em Lisboa ainda, negociando ordens de dinheiro sobre banqueiros
romanos, quando foram chamados  pressa por ordem da me.

A fidalga adoecra com todos os symptomas de proxima morte.

--Chamei-vos, disse ella, para que me assistaes ao enterro. Depois,
ireis. Agora, jurae sobre estas Horas que cumprireis a minha vontade
quanto a estas meninas. Depois de me haverdes sepultado, ireis para
Roma, e, obtida a annullao dos votos d'ellas, casareis.

Juraram e cumpriram. A annullao dos votos foi prolongada com
inqueritos de testemunhas no convento de S. Bernardino. O padre Braz no
favoreceu nem contradictou a annullao.

Ao cabo, porm, de tres annos, Antonia e Sebastiana receberam as benos
nupciaes em Roma.

Detiveram-se em Roma at 1750. Em 1751 j estavam em Portugal. No
procuraram o pae, porque lhes era odioso o homem, que as atirara com sua
me e irms, vivas, novas e formosas, ao sepulchro de um convento, e
lhes dera como flagellos a convivencia de freiras que enfeitavam a sua
estupidez com as lantejoulas da hypocrisia, ou da refinadissima
protervia de intolerantes. Odiavam por isso o pae, e o lucto, que
vestiram por elle, no tinha nodoa de uma lagrima.

Morreram velhas, ignorando que motivo lanara um vo negro sobre o rosto
de sua me,  hora em que o padre maldito lhe fallra.

Fr. Pedro de Abreu, o frade dominicano, chegou a ser qualificador do
santo officio; mas, como quer que o marquez de Pombal apagasse a ultima
lavareda do santo officio com o corpo de Gabriel Malagrida, fr. Pedro
acabou sem assistir a um auto de f espectaculoso, como tinham sido os
da triumphal egreja, quando os relaxados perfumavam a atmosphera com os
aromas dos ossos torrados.


FIM




NOTAS




I

(Pag. 23)


Sobre os nomes referidos dos justiados pela inquisio

Manuel Fernandes Villa Real, que defendeu contra os Filippes os direitos
de D. Joo IV  cora de Portugal, e o fez com tamanho engenho, que
insinua a legalidade da sua argumentao no livro intitulado
_Anti-Caramuel_, veio de Paris a Lisboa, foi logo preso, e em dezembro
de 1652 mandado  fogueira com a seguinte sentena, que  um testemunho
da magnanimidade com que D. Joo de Bragana pagava aos defensores da
sua legitimidade, perante os estados que o sustentavam no throno ganhado
de assalto:

Accordo os inquisidores, ordinario e deputados da santa inquisio
que, vistos estes autos, libello e prova da justia, author, confisses
e defesa de Manuel Fernandes de Villa Real, x n. (christo novo) natural
d'esta cidade de Lisboa, morador no reino de Frana e residente n'esta
dita cidade, ro preso que presente est, porque se mostra que sendo
christo baptisado, obrigado a ter e crer tudo o que tem, cr e ensina a
santa madre egreja, e no ser fautor de heresias, e respeitar e venerar
o tribunal do santo officio, e no detrair de seu justo, recto e livre
procedimento, elle o fez pelo contrario, jactando-se, depois do ultimo
perdo geral, de ser israelita e descendente de prophetas, e tratando
com judeus publicos muito familiarmente, e por cartas com um
archisinagogo dos judeus de certa parte, tendo e lendo muitos livros
prohibidos, e principalmente um de ceremonias e ritos judaicos, o qual
deu a certa pessoa, fazendo jejuns judaicos, estando sem comer nem beber
em certos dias seno  noite depois de saida a estrella, e fazendo um
livro que imprimiu[33] tratando n'elle varios assumptos; um dos quaes
era favorecer os que commettem erros contra a f, persuadindo ser bom
meio para estabelecer a f nos reinos e cidades controversias publicas,
approvando por este modo em uma parte os erros publicos, e em outras os
occultos, dizendo que os principes no podem impedir os que sem
escandalo e mo exemplo vivem em suas seitas, e persuadindo outros que
dissimulem os desacatos feitos  religio, reprovando que algum principe
altere com rigores, querendo o ro que ainda que falsa se conserve, e
mostrando ser da opinio que haja liberdade geral de consciencia,
pretendendo sempre que o politico de uma republica se conserve, vivendo
cada um na religio que mais quizer, e tendo por escandaloso no
admittir aos officios publicos os de contraria religio; e querendo que
em nenhum caso possa haver causa para que um principe catholico favorea
os subditos catholicos contra seu rei hereje, nem que haja reparo em
soccorrer herejes contra catholicos, e querendo outrosim que a palavra
da...[34] aos de contraria religio se observe ainda que seja contra os
bons costumes, admittindo que Deus concede aos herejes victorias pela
caridade e piedade que exercitam, como se n'elles houvera caridade ou
piedade, ou virtude alguma, comparando nas insolencias os catholicos na
modestia, admittindo que os de contraria religio, quando se reduzem 
catholica, se podem enganar em cuidar que at ento iam errados,
approvando a condemnao, e censura que em certa parte se deu a certo
livro que tratava do poder do summo pontifice, sendo a dita censura
errada, em que tira totalmente ao papa um poder em direito aos principes
_circa tempo_, _ralia_ ainda quando o principe seja heretico e
scismatico e que nunca o summo pontifice possa sujeitar o principe a
interdicto ecclesiastico, nem absolver os vassallos do juramento de
fidelidade; e que os principes temporaes totalmente so independentes,
mostrando pouca affeio  egreja romana, fazendo distinco d'ella 
galicana, e preferindo a liberdade d'esta particular  authoridade
d'aquella catholica e universal; e sendo outro assumpto do dito livro
reprovar o justo, recto e livre procedimento do santo officio, e os
castigos e confisses dos culpados pelo crime de heresia, chamando-lhe
tyrannico e barbaro, e qualificando estes procedimentos por effeitos do
odio, avareza e paixo, dizendo que de cumplices faziam prophetas, e de
delictos enigmas, e que por um erro de entendimento se castigava a
fazenda, no s a propria, mas a alheia de mulher e filhos, e que fra
melhor no querer dar luz a uma alma cega com processo s escuras; e que
emquanto o odio e ambio acompanhassem os ministros, nem os subditos
viveriam seguros, nem as monarchias gosariam felicidade. E sendo
estranhadas ao ro as ditas proposies antes de imprimir o dito livro,
comtudo as no quiz emendar, antes ajudou a certa pessoa em outro livro
que tambem imprimiu contra os procedimentos do santo officio, procurando
introduzir pratica entre pessoas grandes, para que se tratasse de haver
alterao e mudana nos estylos do santo officio.

Pelas quaes culpas sendo o ro preso nos carceres do santo officio e
com caridade admoestado as quizesse confessar, por ser o que lhe
convinha para descargo de sua consciencia, salvao de sua alma, e seu
bom despacho, disse e confessou que do ultimo perdo geral a esta parte,
persuadido com o ensino e falsa doutrina de certas pessoas da sua nao,
se apartra da nossa santa f catholica, e passra  crena da lei de
Moyss, tendo-a ainda por boa e esperando salvar-se n'ella, e no na f
de Christo Senhor nosso, em o qual no cria nem o tinha por verdadeiro
Deus e Messias, antes esperava ainda por elle, por ouvir dizer que ainda
havia de vir, e s cria em Deus do co, que fez o co e a terra, e a
elle se encommendava com algumas oraes judaicas, que recitava por um
livro e por observancia da dita lei guardava os sabbados de trabalho, e
a paschoa do mez de maro, comendo por espao de oito dias po asmo e
seladas, e fazia varios jejuns judaicos, como era o dia grande, estando
n'elles sem comer nem beber seno  noite, em que comia gallinha, com
tanto que fosse degolada ao modo judaico por mo de pessoa circumcidada,
compondo-se no mesmo dia com os melhores vestidos e peas novas, ainda
que para isso fosse necessario buscal-as e fazel-as; e outro jejum que
caa em certo mez, estando por espao de tres semanas sem comear
negocio algum, posto que continuava os principiados, estando n'ellas
dois dias sem comer nem beber seno  noite, como dito ; e usando de
particulares vocabulos e palavras para se entender com outras pessoas
quando fazia ou havia de fazer os ditos jejuns, sem que fossem
entendidos ordinariamente, por o sentido comum das ditas palavras ser
mui differente, communicando estas coisas com pessoas da sua nao
apartadas da f, com as quaes se declarava por judeu, perseverando na
dita crena at certo tempo, que declarou.

E que por andar apartado da f, no dito livro que compuzera, detrahira
em alguns logares no procedimento do santo officio, e se accommodara com
algumas opinies politicas com que o via usar e praticar em certo reino;
e que tambem usava de livros prohibidos, e que de tudo estava muito
arrependido e pedia perdo e misericordia. E por o ro no satisfazer 
informao da justia nem declarar todas as ceremonias e jejuns que
havia feito por guarda da dita lei, sendo para o fazer por vezes
admoestado, na frma do estylo do santo officio, o promotor fiscal do
santo officio veio com libello criminal e accusatorio contra elle, que
lhe foi recebido, e o ro o contestou pela materia de suas culpas e
confisses, e no quiz usar de contrariedade. E sendo lanado da com que
podera vir, e sendo ratificadas as testemunhas da justia na frma de
direito, se lhe fez publicao de seus ditos, conforme o estylo do santo
officio. E veio com contraditas, que lhe foram recebidas e no provou
coisa relevante; e guardados os termos de direito, e feitas as
diligencias necessarias, seu feito se processou at final concluso,
sendo o ro por muitas vezes advertido de suas diminuies e admoestado
com muita caridade da parte de Christo nosso Salvador as quizesse
declarar, para se poder usar com elle de misericordia, que a santa madre
egreja manda conceder aos bons e verdadeiros confitentes sem o ro o
querer fazer. E visto seu processo, na mesa do santo officio se assentou
que pela prova da justia e por sua confisso estava convencido no crime
de heresia e que a dita sua confisso no estava em termos de ser
recebida, e por hereje e apostata da santa f catholica, feito falso,
simulado, confitente diminuto e impenitente foi julgado e pronunciado.

E para o ro cuidar em suas culpas e diminuies, e as poder confessar
arrependendo-se d'ellas, lhe foi dada noticia do dito assento, e foi de
novo admoestado para descargo de sua consciencia, salvao de sua alma,
e ser tratado com misericordia, quizesse dizer toda a verdade. Vendo o
ro que estava convencido por diminuto em suas confisses, pediu
audiencia, e as continuou, dizendo que depois de fazer as primeiras
confisses, ficra continuando at quella hora na crena da lei de
Moyss, e que por sua guarda fizera algumas cerimonias judaicas, e para
que Deus lhe perdoasse seus peccados na observancia da dita lei, fazia
tambem algumas penitencias, como eram no dormir em cama seno em noite
de sabbado; resar algumas oraes e psalmos sem _Gloria Patri_, e
repetir muitas vezes a confisso geral, e communicava estas coisas com
certa pessoa da sua nao, com a qual se declarava por judeu e animava
para continuar na dita crena: e que de tudo pedia perdo e
misericordia. E sendo visto outra vez seu proccesso em mesa, se
determinou que o assento que n'elle se havia tomado no estava alterado,
porque no declarava o ro todas as culpas que havia commettido segundo
a informao da justia, no se presumindo, conforme a direito,
esquecimento. Alem de que no dava signaes de verdadeiro arrependimento
antes os contrarios, dizendo que confessava o que fizera exteriormente,
e que o que ficava em seu corao no era necessario dizel-o; pelo que
foi notificado para ir ao auto da f ouvir sua sentena, pela qual
estava relaxado  justia secular. E sendo trazido ao auto da f, pediu
n'elle audiencia, e n'ella disse que a pedira para requerer ao santo
officio, com intimo e verdadeiro arrependimento de suas culpas, se
usasse com elle de misericordia; que a verdade era que elle permanecera
at quella hora em seus erros, dos quaes se apartava por meio das
admoestaes dos religiosos que lhe assistiam, e por ver a commiserao
que seu estado causava a todo este povo e pessoas que o conheceram; e
que por guarda da lei de Moyss em que at ento crra, fizera muitos
mais jejuns judaicos dos que tinha declarado e muitas outras cerimonias;
e que de tal maneira estava na observancia d'ella depois da sua priso
que determinara morrer por sua guarda, com tal excesso que depois de lhe
ser dada noticia do assento que se tinha tomado em sua causa, se tinha
disposto para a morte, com aquellas cerimonias que sabia, lavando-se e
vestindo camisa nova, que tinha feito para este fim, e jejuando ainda
como judeu[35]. E sendo vista esta sua confisso na mesa do santo
officio, se assentou que no estava em termos de ser recebida, e que era
feita mais afim de escapar da morte, que pelo ro estar verdadeiramente
arrependido de seus erros, como claramente se mostra do termo de que
tinha usado nas mais confisses que fizera no discurso de sua causa: O
que tudo visto e bem examinado, e como o ro sendo por tantas vezes
admoestado nunca deu mostras de se tornar do corao  f de Christo
Nosso Senhor de que se apartou; de que claramente se colhe que persevera
ainda agora em seus erros e na damnada crena da lei de Moyss. _Christi
Jesus nomine invocato_, declaram ao ro Manuel Fernandes Villa Real por
convicto e confesso no crime de heresia e apostasia, e que foi, e ao
presente , hereje apostata da nossa santa f, e que incorreu em
sentena de excommunho maior e em confiscao de todos os seus bens
para o fisco e camara real, e nas mais penas em direito contra os
similhantes estabelecidas; e que como hereje apostata, convicto,
confesso, ficto, falso e impenitente o condemnam e relaxam  justia
secular, a quem pedem com muita instancia se haja com elle benigna e
piedosamente, e no proceda a pena de morte nem effuso de
sangue.--_Luiz Alves da Rocha._--_Pedro de Castilho._--_Belchior Dias
Preto._

      *      *      *      *      *

 escusado dizer que a justia secular, comprehendendo ao justo a
_benignidade e piedade_ recommendadas pelo santo officio, condemnou o
ro a garrote e fogueira para que das cinzas do strenuo defensor de D.
Joo de Bragana no ficasse memoria, como se assim podessem diante da
posteridade passar a esponja por sobre uma das mais esqualidas manchas
do reinado d'aquelle soberano.

      *      *      *      *      *

O bacharel Miguel Henriques da Fonseca, advogado em Lisboa, foi queimado
vivo em 10 de maio de 1682. Infere-se da leitura da sua sentena que
este infeliz dez vezes foi posto a tormento, e com todas ellas foi
aggravando a sua desgraa, revelando peccados novos, que o apertar das
cordas e o queimar lento do fogo lhe ia arrancando. Afinal, j calejado
e invulneravel s torturas, manifestou-se profitente da lei de Moyss,
affrontou no rosto os algozes, e subiu  fogueira com grande animo e
anciedade do martyrio.

      *      *      *      *      *

Por occasio do supplicio do doutor Antonio Homem, lente da universidade
em 5 de maio de 1624, _um engenhoso_ poeta contemporaneo publicou, e fez
correr, com grande applauso publico, o seguinte soneto em _cos_ ou de
_reflexo_:

  Quando um primario excellente        _lente_
  contra a f ce em desconcerto        _certo_,
  est o que no  to esperto          _perto_
  de seguir o erro que de presente      _sente_,

  Mas quem  da hebrea e negligente    _gente_,
  e vendo-se do bom respeito            _peito_
  na f segura do deserto               _certo_
  nega a Jesus, que  to clemente      _mente_

  Povo que elegeu uma bezerra          _erra_;
  deixae do vosso velho estudo          _tudo_;
  Segui a lei para ser guardada         _dada_;

  que quando em tal descuido           _cuido_
  que um bom lente, o melhor da terra   _erra_,
  mas sciencia sem Deus tornada         _nada_

Nunca a piedade inspirou coisa mais insulsa e soez!




III

(Pag. 39)


A expensas da casa, sem licena do reitor...

O _Regimento dos medicos e boticarios christos velhos_, adjunto aos
_Estatutos da Universidade de Coimbra_, mandados imprimir em 1653 por
Manuel de Saldanha, ordena que haja trinta estudantes porcionistas e os
dois logares de collegiaes medicos _que sempre houve no collegio real de
S. Paulo_.

Os que houverem de ser admittidos no partido da medicina (diz o
_Regimento_) no ho de ter raa de judeu e christo novo, nem mouro,
nem proceder de gente infame, nem ter doenas contagiosas...

Para constar que os pretendentes tem as partes sobreditas, faro
petio ao reitor, em que declarem d'onde so naturaes, e cujos filhos;
e elle por seu despacho mandar passar carta em meu nome para os
corregedores e justias fazerem as ditas informaes com muito segredo,
tirando-as das pessoas antigas, honradas, etc.

Estas averiguaes eram feitas tanto pelo miudo, que seria impossivel
escapar pela malha porcionista, que tivesse gota de sangue judeu. Braz
Luiz no poderia certamente dizer cujo filho era, se pretendesse os
_vinte mil ris annuaes_, que tanto era a _poro paga aos quarteis_, e
tirada das rendas dos concelhos de certas cidades e villas.




XI

(Pag. 112)


As leis do reino davam raso de sobra a Ferno Cabral, para desherdar a
filha...

No tit. 88 do liv. 4. das Ordn. Filip.  1., l-se:

E se alguma filha, antes de ter vinte e cinco annos, dormir com algum
homem, ou se casar sem mandado de seu pae, ou de sua me, no tendo pae,
por esse mesmo feito ser desherdada e excluida de todos os bens e
fazenda do pae ou me, _posto que no seja por elles desherdada
expressamente_(!)

E no  17;

Item. poder o pae ou me, que forem catholicos christos, desherdar
livremente os filhos herejes, que perfeitamente no crerem em nossa
santa f catholica, desviando-se do que tem e cr a santa madre egreja.

Convinha que, uma vez por outra, tirassemos o ltego das costas dos
frades e o sacudissemos nas costas dos legisladores. Corriam parelhas na
perversidade. A depravao moral era to cerrada e tamanha que havemos
de receber como fabula um justo no meio de taes ministros da justia
divina e humana.




INDICE


                                            PAG.

Prologo                                       5

Introduco                                   7

I--Informaes                               22

II--No era me!                             29

III--O faro das bestas-feras                 37

IV--Resposta                                 43

V--A piedosa eloquencia do frade             53

VI--Braz Luiz                                63

VII--Exemplo de honestidade aos medicos      72

VIII--M sina de poetas                      81

IX--Poeta e moralista                        89

X--Os expatriados                            99

XI--Trese annos depois                      107

XII--Historia de Antonio de S              122

XIII--Seguimento da historia                131

XIV--O segredo horrivel                     137

XV--Angustias que existiram                 150

XVI--O padre Braz                           157

XII--O inferno como elle  possivel         164

XVIII--Catequeze                            171

XIX--O velho da ermida                      179

XX--Parecia christo na morte               184

XXI--Como se pde viver!                    188

Concluso                                   191

Notas                                       195



    [1] _Nao_ era o termo denominativo e collectivo do povo judaico,
    dispersado entre as naes. Nao, por excellencia, era a d'elle.
    Vej. _passim_, Joo Baptista d'Este, _Dialogo entre discipulo e
    mestre cathechisante_, e todas as sentenas do santo officio, e
    escriptos concernentes  raa hebraica.

    [2] _Caracteristico legal da raa judaica._ Vej. Ord. do Reino--as
    Philip.

    [3] Veja a nota final.

    [4] Veja a nota final.

    [5] O leitor dispensa que se lhe d fielmente traslado das
    maiusculas e da orthographia.

    [6] N'este periodo asfixiante  menos admiravel a profundeza da
    doutrina que o folego pulmonar do leitor da sentena!

    [7] Sairam de um mal para outro mal, e no me conheceram, diz o
    Senhor. _Jerem., cap. 9._

    [8] Desculpe-se  obcecao piedosa do author do _Anno historico_
    uma bestidade de tanto porte. Foi a maior que se atirou do pulpito
    abaixo n'aquelle seculo!

    [9] Estes pormenores, corridos na relao com os condemnados,
    vejam-se em Joo Martins da Costa. Estylos mais praticados na casa
    da supplicao pag. 239 e seg.

    [10] Isto consta do livro que Braz Luiz d'Abreu publicou, oito annos
    depois, intitulado _Portugal medico_.

    [11] _Portugal Medico_, pag, 730 n. 63.

    [12] Idem, pag. 728, n. 56.

    [13] Idem, mesma pag. n. 57.

    [14] Limpo.

    [15] _Portugal Medico_, pag. 724.

    [16] A receita  trasladada de pag. 752 do _Portugal Medico_.

    [17]  textual da pag. 751. A sciencia da medicina est de todo
    perdida em Portugal... escrevia o doutor Francisco Thomaz, medico
    do hospital de Lisboa, ao bispo D. Jorge de Athaide em 1592 Vej.
    _Comp. hist. do estado da Univ. de Coimbra, 1772_.

    [18] So as menores virtudes da raposa, segundo vemos no tratado,
    d'este escriptor, medico, o mais famigerado dos seus collegas. Vej.
    a pag. 722.

    [19] Veja _Portugal Medico_, pag. 690-691.

    [20]  impresso em 1717, por Bento Secco Ferreira.

    [21] _Portugal Medico_, pag. 307.

    [22] Vej. _Port. Med._ pag. 209

    [23] _Portugal Medico_, pag. 741 e 742.

    [24] Os versos errados  necessario desculpal-os tambem  santa
    indignao.

    [25] Cap. II, V. 16

    [26] _Casa de Jacob_, pag. 24.

    [27] Cardoso. Las excellencias, 10 Exp. p. 322.

    [28] Foi queimado em Valhadolid em 1644. As expresses esto na
    _Carta del Inquisidor Moscoso a la condesa de Mnterrey_.

    [29] As leis do reino davam razo de sobra a Ferno Cabral para
    desherdar a filha, e transferir os vinculos a parentes. Os
    interesses da religio sobrelevavam aos mais sagrados vinculos do
    sangue e da piedade paternal. O pae, que quizesse perdoar as
    injurias recebidas do filho, poderia fazel-o; mas o desacato s
    coisas e prescripes das Decretaes no estava em seu poder
    perdoal-o, concedendo o po da vida a seus filhos. Veja a nota final
    sobre as leis facultativas do desherdamento.

    [30] No se liquidou ainda a etimologia de _flibusteiros_, palavra
    que aportuguezamos por lhe no conhecermos a correspondente, se a
    ha. Vem de _flyboat_ em inglez, ou de _flibot_ em francez, ou ainda
    do breto _free booter_?

    [31] Diccionario bibliog. do sr. J. F. da Silva Art. _Braz Luiz de
    Abreu_.

    [32] Veja _Barbosa. Biblioth. Lusit._

    [33] Presumo que seria o livro intitulado _El politico
    christianissimo, e discursos politicos sobre algumas aciones de la
    vida del em.mo sr. Cardenal Duque de Richelieu_. 1642. 12. Da 2.
    edio d'este livro diz o versadissimo bibliophilo I. Francisco da
    Silva N'esta segunda edio se supprimiram depois de impressos
    varios trechos que desagradaram aos inquisidores, e que tambem foram
    na primeira riscados e illegiveis algumas passagens a pag... etc. Na
    edio de 1642 se acham as folhas respectivas suppridas com
    _cartuns_ ou folhas intercalares... Vej. _Diccion. bibliog._ pag.
    422 e 423 do 5. vol.

    [34] No podemos decifrar os caracteres que o tempo desfez no
    manuscripto, d'onde vamos trasladando a sentena.

    [35] Das tres confisses augmentativas infere-se que Manuel
    Fernandes Villa Real foi, por tres vezes, interrogado na tortura.




Nota do transcritor:

Foram corrigidos diversos erros tipogrficos.
Na lista que segue esto algumas das alteraes efectuadas.

Pg.     Original                          Corrigido

20       inculpada familla                 inculpada familia

26       que o estremecia como irmoo       que o estremecia como irmo

56       o unico profiente                 o unico profitente

138      conversao da noite anterio      conversao da noite anterior

143      --Braz Luiz continuou:            Braz Luiz continuou:

155      Deus me mate j, j!              --Deus me mate j, j!

168      achou se na sua pobre alcova      achou-se na sua pobre alcova

182      aquecei vos ao calor que          aquecei-vos ao calor que

Os nmeros de pgina no ndice estavam errados, pelo que foram corrigidos.





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